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#Contos#Literatura Brasileira

O carro 13

Por Machado de Assis (1868)

Chegou a noite, e o professor foi deitar-se, menos por ter sono que por fugir às perorações de Marcondes. Este e Amaro ficaram sós na sala de jantar, para onde vieram café e charutos, e entraram ambos a conversar de novo sobre os tempos da academia. Cada um deles deu notícia dos companheiros de ano, os quais andavam todos dispersados, uns juízes municipais, outros presidentes de província, outros deputados, outros advogados, muitos inúteis, entre os quais o jovem Marcondes, que dizia ser o homem mais feliz da América.

— E a receita é simples, dizia ele a Amaro; deixa a fazenda, faze uma viagem, e verás.

— Não posso deixar a fazenda.

— Por quê? Não és bastante rico?

— Sou; mas, enfim, a minha felicidade é esta. Demais, eu aprendi com meu pai a não deixar a realidade pelo incógnito; o que eu não conheço pode ser muito bom; mas se o que eu tenho é igualmente bom, nada de arriscá-lo para investigar o desconhecido.

— Bela teoria! exclamou Marcondes pondo no pires a xícara de café que ia levando à boca; desse modo, se o mundo pensasse sempre assim, ainda hoje vestíamos as peles dos primeiros homens. Colombo não teria descoberto a América; o capitão Cook... Amaro interrompeu esta ameaça de discurso, dizendo:

— Mas eu não quero descobrir nada, nem imponho os meus sentimentos como opinião. Estou bem; por que motivo irei eu agora ver se encontro melhor felicidade, arriscando-me a não encontrá-la?

— És um carrança! Não falemos nisto.

Cessou, com efeito, a discussão. Entretanto Marcondes, ou de propósito, ou por vaidade — talvez ambos os motivos —, entrou a contar a Amaro as suas intermináveis aventuras no país e no estrangeiro. A narrativa ele era uma mistura de história e de fábula, de verdade e de invenção, que entreteve largamente o espírito de Amaro até alta noite.

Marcondes conservou-se na fazenda da Soledade cerca de oito dias, e jamais cessou de conversar acerca do contraste que oferecia aquilo que ele chamava vida com o que lhe parecia simples e absurda vegetação. O caso é que no fim de oito dias tinha conseguido que Amaro fosse viajar à Europa com ele.

— Quero obsequiar-te, dizia Amaro a Marcondes.

— Hás de agradecer-me, respondia este.

Marcondes foi para a corte, esperou pelo jovem fazendeiro, que daí a um mês aí se achou, tendo entregue a fazenda a um velho amigo de seu pai. No primeiro paquete embarcaram os dois colegas da academia, caminho de Bordéus.

III

Importa-nos pouco, e mesmo nada, o saber da vida que passaram os dois viajantes na Europa. Amaro, que tinha tendências sedentárias, apenas chegou a Paris aí ficou, e como Marcondes não desejava passar além, não o importunou por mais.

Uma capital como aquela tem sempre que ver e admirar: Amaro ocupou-se com o estudo da sociedade em que vivia, dos monumentos, dos melhoramentos, dos costumes, das artes, de tudo. Marcondes, que tinha outras tendências, tratou de levar o amigo para o centro dos que ele chamava prazeres celestes. Amaro não resistiu, e foi; mas tudo cansa, e o fazendeiro não encontrou em nada daquilo a felicidade que o amigo lhe anunciara. No fim de um ano, Amaro determinou voltar para a América, com grande desgosto de Marcondes, que em vão procurou retê-lo.

Voltou Amaro aborrecido com ter gasto um ano sem vantagem alguma, a não ser o ter visto e admirado uma grande capital. Mas a felicidade que ele devia ter? Essa nem por sombra.

— Fiz mal, dizia ele consigo, em ter cedido aos conselhos. Vim em busca do desconhecido. É uma lição que me há de aproveitar.

Embarcou, e chegou ao Rio de Janeiro, com grande alegria no coração. O seu desejo era seguir logo para a fazenda da Soledade. Mas lembrou-se de que existiam na corte algumas famílias da amizade da sua, a quem cumpria ir falar antes de partir para o interior.

— Quinze dias é bastante, pensou ele.

Meteu-se num hotel, e logo no dia seguinte começou a romaria das visitas. Uma das famílias a quem Amaro visitou era a de um fazendeiro de Minas, que em virtude de vários processos que teve por motivo de relações comerciais viu reduzidos os seus bens, e mudara-se para a corte, onde vivia com a fortuna que lhe restava. Chamava-se Carvalho.

Aí achou Amaro, como fazendo parte da família, uma moça de vinte e cinco anos, de nome Antonina. Era viúva. Estava em casa de Carvalho, porque este fora íntimo amigo do pai dela, e como este já não existisse, e ela não quisesse viver só, depois de viúva, Carvalho recebeu-a em casa, onde era tratada como filha mais velha. Antonina tinha alguma coisa de seu. Era prendada, espirituosa, elegante. Carvalho admirava sobretudo a sua penetração de espírito, e não cessava de elogiar-lhe essa qualidade, que para ele era suprema.

(continua...)

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