Por Machado de Assis (1876)
Esperança beijou a mão do pai, que a contemplou com olhos cheios de ternura e projetos. Eram estes casá-la, e casá-la nada menos que com um sobrinho do juiz de fora, homem da nobreza da terra, e noivo muito ambicionado de solteiras e viúvas. O almotacé não alcançara até então enredar o moço nas graças da filha; mas forcejava por isso. Uma coisa o tranqüilizava: é que de suas pesquisas não colhera notícia de nenhuma pretensão amorosa da parte do rapaz. Era já muito não ter adversários que combater. Esperança, entretanto, fazia cálculos muito diferentes, e tratava igualmente de os pôr em execução. Seu coração, ao passo que se não rendia à nobreza do sobrinho do juiz, sentia notável inclinação para o filho do boticário José Mendes — o jovem Gervásio Mendes, com quem se carteava e palestrava à noite, à janela, quando o pai andava em suas indagações por fora, e a tia jogava a bisca com o sacristão da Sé. Esse namoro de uns quatro meses não tinha ares de ceder aos planos de Custódio Marques. Abençoada a filha, e comido o jantar, foi Custódio Marques cochilar a sesta durante meia hora. A tarde gastou-a ao gamão, na botica vizinha, cujo dono, mais insigne naquele jogo que no preparo das drogas, estatelava igualmente os parceiros e os fregueses. A diferença entre os dois é que para o boticário o gamão era um fim, e para o almotacé um meio. Os dedos corriam e o almotacé ia misturando os remoques próprios do jogo com mil perguntas, ora claras, ora disfarçadas, acerca das coisas que lhe convinha saber; o boticário não hesitava em lhe dar conta das novidades.
Naquela tarde não havia nenhuma. Em compensação, havia um pedido.
— Você, sr. Custódio, é que me podia fazer um grande favor, disse o boticário.
— Qual?
— Aquele negócio dos chãos da Lagoa. Sabe que o senado da Câmara embirra em os tomar para si, quando é positivo que pertencem a meu filho José. Se o juiz de fora quisesse, podia fazer muito neste negócio; e você que é tão íntimo dele...
— Homem, amigo sou, disse Custódio Marques lisonjeado com as palavras do boticário; mas seu filho, deixe-me que lhe diga... sei tudo.
— Tudo o quê?
— Ora! Sei que quando o conde da Cunha tinha de organizar os terços de infantaria auxiliar, seu filho José, não alcançando a nomeação de oficial que desejava, e vendo-se ameaçado de ser alistado na tropa, foi lançar-se aos pés daquela mulher espanhola, que morou na Rua dos Ourives... Pois deveras não sabe?
— Diga, diga sr. Custódio.
— Lançou-se-lhe aos pés para lhe pedir proteção. A sujeita namorou-se dele; e, não lhe digo nada, foi ela quem lhe emprestou o dinheiro com que ele comprou um privilégio da redenção dos cativos, mediante o qual seu filho livrou-se da farda.
— Que peralta! A mim disse-me ele que o cônego Vargas..
— Isto, sr. José Mendes, foi muito malvisto pelos poucos que o souberam. Um deles é o juiz de fora, que é homem severo, apesar...
Custódio Marques engoliu o resto da frase, concluiu-a por outro modo, e saiu prometendo que, em todo caso, iria falar ao juiz. Efetivamente ao anoitecer lá estava em casa deste. O juiz de fora tratava o almotacé com particular distinção. Era ele o melhor remédio das
suas melancolias, o mais serviçal sujeito para tudo quanto fosse de seu agrado. Logo que ele entrou, disse-lhe o dono da casa:
— Ora, venha cá, sr. espião, porque me andou você hoje a acompanhar um longo pedaço de tempo?
Custódio Marques empalideceu; mas foi rápida a impressão.
— O que havia de ser? disse ele sorrindo. Aquilo... aquilo que eu lhe disse uma vez, há dias..
— Há dias?
— Sim, senhor. Ando a ver se descubro uma coisa. V. S., que sempre gostou tanto de moças, é impossível que não tenha por aí alguma aventura...
— Deveras? perguntou rindo o juiz de fora.
— Há de haver alguma coisa; e eu hei de descobri-la. V. S. sabe se eu tenho faro para tais empresas. Só se me jurar que...
— Não juro, que não é caso disso; mas posso tirar-te o trabalho da pesquisa. Vivo com recato, como todos sabem; tenho deveres de família...
— Qual! tudo isso é nada quando um rosto bonito... que ele há de ser bonito por força; nem V. S. é pessoa que se deixe aí levar por qualquer figura... Eu verei o que há. Olhe, o que eu posso afiançar é que o que descobrir cá vai comigo para a sepultura. Nunca fui homem de dar com a língua nos dentes.
O juiz de fora riu muito, e Custódio Marques passou daquele assunto para o do filho do boticário, mais por descargo de consciência que por verdadeiro interesse. Contudo, é força confessar que a vaidade de mostrar ao vizinho José Mendes que ele podia influir alguma coisa, sempre lhe afiou a língua um pouco mais do que queria. A conversa foi interrompida por um oficial que trazia ao juiz de fora um recado do conde de Azambuja. O magistrado leu a cartinha do vice-rei e empalideceu um pouco. Não escapou esta circunstância ao almotacé, cuja atenção encarapitou-se toda nos seus olhinhos vivos e perspicazes, enquanto o juiz dizia ao oficial que não tardaria em obedecer às ordens de S. Excia.
— Alguma importunação, naturalmente, disse Custódio Marques com ar de quem queria ser discreto. São as obrigações do cargo; ninguém foge a elas. V. S. precisa de mim?
— Não, sr. Custódio.
— Se precisa, não tenha cerimônia. Bem sabe que eu nunca estou melhor do que ao seu serviço. Se quiser um recado qualquer...
— Um recado? repetiu o magistrado como quem efetivamente precisava de mandar algum.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O astrólogo. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1876.