Por Machado de Assis (1869)
O dr. Antero pôs a pistola sobre a mesa e foi abrir a porta.
II
A pessoa que batera à porta era um homem grosseiramente vestido. Trazia uma carta na mão.
— Que me quer? perguntou-lhe o dr. Antero.
— Trago esta carta, que lhe manda meu amo.
O dr. Antero aproximou-se da luz para ler a carta.
A carta dizia assim:
Uma pessoa que deseja propor um negócio ao sr. dr. Antero da Silva pede-lhe que venha imediatamente à sua casa. O portador desta o acompanhará. Trata-se de uma fortuna. O rapaz leu e releu a carta, cuja letra não conhecia, e cujo laconismo trazia um ar de mistério.
— Quem é teu amo? perguntou o dr. Antero ao criado.
— É o sr. major Tomás.
— Tomás de quê?
— Não sei mais nada.
O dr. Antero franziu a testa. Que mistério seria aquele? Uma carta sem assinatura, uma proposta lacônica, um criado que não sabia o nome do patrão, eis quanto bastou para despertar vivamente a curiosidade do dr. Antero. Apesar de não ter o espírito propenso às aventuras, esta o impressionara a tal ponto que esqueceu por um instante a lúgubre viagem tão friamente planeada.
Olhou para o criado atentamente; as feições eram comuns, o olhar pouco menos de estúpido. Evidentemente não era um cúmplice, se é que no fundo daquela aventura havia um crime.
— Onde mora teu amo? perguntou o dr. Antero.
— Na Tijuca, respondeu o criado.
— Mora só?
— Com uma filha.
— Menina ou moça?
— Moça.
— Que qualidade de homem é o major Tomás?
— Não lhe posso dizer, respondeu o criado, porque fui para lá há oito dias apenas. Quando entrei, disse-me o patrão: “. Até hoje tenho executado a ordem do patrão.
— Há mais criados em casa? perguntou o dr. Antero.
— Há uma criada, que serve à filha do amo.
— Ninguém mais?
— Ninguém mais.
A idéia do suicídio já estava longe do espírito do dr. Antero. O que o prendia agora era o mistério daquela missão noturna e as singulares referências do portador da carta. Varreu lhe do espírito igualmente a suspeita de um crime. A sua vida tinha sido tão indiferente ao resto dos homens, que não podia ter inspirado a ninguém a idéia de uma vingança. Contudo, hesitava ainda; mas relendo o misterioso bilhete, reparou nas últimas palavras: trata-se de uma fortuna; palavras que nas duas primeiras leituras apenas lhe causaram uma ligeira impressão.
Quando um homem quer deixar a vida por um simples aborrecimento, a promessa de uma fortuna é razão bastante para suspender o passo fatal. No caso do dr. Antero a promessa da fortuna era razão decisiva. Se averiguarmos bem a causa principal do tédio que este mundo lhe inspirava, veremos que não é outra senão a falta de cabedais. Desde que estes lhe batiam à porta, o suicídio já não tinha razão de ser.
O doutor disse ao criado que o esperasse, e tratou de vestir-se.
— Em todo o caso, disse ele consigo, a todo tempo é tempo; se não morrer hoje posso morrer amanhã.
Vestiu-se, e lembrando-se de que seria conveniente ir armado, meteu a pistola no bolso, e saiu acompanhado pelo criado.
Quando os dois chegaram à porta da rua, já os esperava um carro. O criado convidou o dr. Antero a entrar, e foi sentar na almofada com o cocheiro.
Conquanto os cavalos fossem a trote largo, longa pareceu a viagem ao doutor, que, apesar das circunstâncias singulares daquela aventura, tinha ânsia por ver-lhe o desfecho. Entretanto, à proporção que o carro se ia afastando do centro populoso da cidade, o espírito do nosso viajante tomava-se de certa apreensão. Era ele mais estouvado que animoso; a sua tranqüilidade diante da morte não era resultado do valor de ânimo. No fundo do seu espírito havia uma extrema dose de fraqueza. Podia disfarçá-la quando dominava os acontecimentos; mas agora que os acontecimentos dominavam a ele, facilmente desaparecia o simulacro de coragem.
Enfim o carro chegou à Tijuca, e, depois de andar um grande espaço, parou diante de uma chácara completamente separada de todas as demais habitações. O criado veio abrir a porta, e o doutor apeou-se. As pernas tremiam-lhe um pouco, e o coração pulsava-lhe apressadamente. Estavam diante de um portão fechado. A chácara era cercada por um muro um tanto baixo, por cima do qual o dr. Antero pôde ver a casa de habitação, colocada no fundo da chácara perto da encosta de uma colina. O carro deu volta e partiu, enquanto o criado abria o portão com uma chave que trazia no bolso. Entraram os dois, e o criado fechando por dentro o portão indicou o caminho ao dr. Antero.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O anjo Rafael. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1869.