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#Comédias#Literatura Brasileira

O caminho da porta

Por Machado de Assis (1862)

Debaixo deste ponto de vista, e respondendo a uma interrogação direta que me diriges, devo dizer-te que havia mais perigo em apresentá-las ao público sobre a rampa da cena do que há em oferecê-las à leitura calma e refletida. O que no teatro podia servir de obstáculo à apreciação da tua obra, favorece-a no gabinete. As tuas comédias são para serem lidas e não representadas. Como elas são um brinco de espírito podem distrair o espírito. Como não têm coração não podem pretender sensibilizar a ninguém. Tu mesmo assim as consideras, e reconhecer isso é dar prova de bom critério consigo mesmo, qualidade rara de encontrar-se entre os autores.

O que desejo, o que te peço, é que apresentes nesse mesmo gênero algum trabalho mais sério, mais novo, mais original e mais completo. Já fizeste esboços, atira-te à grande pintura.

Posso garantir-te que conquistarás aplausos mais convencidos e mais duradouros. Em todo caso, repito-te que fazes bem. Sujeita-te à crítica de todos, para que possas corrigir-te a ti mesmo. Como te mostras despretensioso, colherás o fruto são da tua modéstia não fingida. Pela minha parte estou sempre disposto a acompanhar-te, retribuindo-te em simpatia toda a consideração que me impõe a tua jovem e vigorosa inteligência.

Teu

Q. Bocaiúva.

O CAMINHO DA PORTA

Comédia em um ato

Representada pela primeira vez no Ateneu Dramático do Rio de Janeiro em setembro de 1862.

PERSONAGENS

DOUTOR CORNÉLIO

VALENTIM

INOCÊNCIO

CARLOTA

Atualidade.

Em casa de Carlota

(Sala elegante. - Duas portas no fundo, portas laterais, consolos, piano, divã, poltronas, cadeiras, mesa, tapete, espelhos, quadros, figuras sobre os consolos; álbum, alguns livros, lápis, etc. sobre a mesa.)

Cena I

VALENTIM (assentado à esquerda alta);

o DOUTOR (entrando)

VALENTIM

Ah! És tu?

DOUTOR

Oh! Hoje é o dia das surpresas. Acordo, leio os jornais e vejo anunciado para hoje o Trovador. Primeira surpresa. Lembro-me de passar por aqui para saber se D. Carlota queria ir ouvir a ópera de Verdi, e vinha pensando na triste figura que devia fazer em casa de uma moça do tom às 10 horas da manhã, quando te encontro firme como uma sentinela no posto. Duas surpresas.

VALENTIM

A triste figura sou eu?

DOUTOR

Acertaste. Lúcido como uma sibila. Fazes uma triste figura, não to devo ocultar.

VALENTIM

(irônico)

Ah!

DOUTOR

Tens ar de não dar crédito ao que digo! Pois olha, tens diante de ti a verdade em pessoa, com a diferença de não sair de um poço mas da cama, e de vir em traje menos primitivo. Quanto ao espelho, se o não trago comigo, há nesta sala um que nos serve com a mesma sinceridade. Mira-te ali. Estás ou não uma triste figura?

VALENTIM

Não me aborreças.

DOUTOR

Confessas então?

VALENTIM

És divertido como os teus protestos de virtuoso! Aposto que me queres fazer crer no desinteresse das tuas visitas a D. Carlota?

DOUTOR

Não.

VALENTIM

Ah!

DOUTOR

Sou hoje mais assíduo do que era há um mês, e a razão é que há um mês que começaste a fazer-lhe corte.

VALENTIM

Já sei: não me queres perder de vista.

DOUTOR

Presumido! Eu sou lá inspetor dessas coisas? Ou antes, sou; mas o sentimento que me leva a estar presente a essa batalha pausada e paciente está muito longe do que pensas; estudo o amor.

VALENTIM

Somos então os teus compêndios?

DOUTOR

É verdade.

VALENTIM

E o que tens aprendido?

DOUTOR

Descobri que o amor é uma pescaria...

VALENTIM

Queres saber de uma coisa? Estás prosaico como os teus libelos.

DOUTOR

Descobri que o amor é uma pescaria...

VALENTIM

Vai-te com os diabos!

DOUTOR

Descobri que o amor é uma pescaria. O pescador senta-se sobre um penedo, à beira do mar. Tem ao lado uma cesta com iscas; vai pondo uma por uma no anzol, e atira às águas a pérfida linha. Assim gasta horas e dias até que o descuidado filho das águas

agarra no anzol, ou não agarra e...

VALENTIM

És um tolo.

DOUTOR

Não contesto; pelo interesse que tomo por ti. Realmente dói-me ver-te há tantos dias exposto ao sol, sobre o penedo, com o caniço na mão, a gastar as tuas iscas e a tua saúde, quero dizer, a tua honra.

VALENTIM

A minha honra?

DOUTOR

A tua honra, sim. Pois para um homem de senso e um tanto sério o ridículo não é uma desonra? Tu estás ridículo. Não há um dia em que não venhas gastar três, quatro, cinco horas a cercar esta viúva de galanteios e atenções, acreditando talvez ter adiantado muito, mas estando ainda hoje como quando começaste. Olha, há Penélopes da virtude e Penélopes do galanteio. Umas fazem e desmancham teias por terem muito juízo: outras as fazem e desmancham por não terem nenhum.

VALENTIM

(continua...)

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