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#Romances#Literatura Brasileira

O Homem

Por Aluísio Azevedo (1887)

Fora da marinha, mas aos trinta e cinco anos pedira a sua demissão, instalara-se no Rio de Janeiro, e casara, entregando-se desde essa época à política conservadora. Enviuvou pouco depois do nascimento de Magdá, único fruto do seu matrimônio; chamou então para junto de si a irmã, D. Camila, que vivia nesse tempo agregada à casa de outros parentes mais remotos; a filha foi entregue a uma ama até chegar à idade de entrar como pensionista num colégio de irmãs de caridade.

Era a essa infeliz criança, tão cedo privada do amor de mãe, que o conselheiro dedicava a maior parte dos seus afetos, e era também das suas mãos pequeninas que recebia coragem para enfrentar os desconsolos da viuvez e as neves, que ia encontrando do meio para o resto do caminho da vida. E era ainda essa criança, já mulher, que o desgraçado via agora escapar-lhe dos braços e fugir-lhe para a morte, arrastando atrás de si um triste sudário de mágoas brancas, mágoas de donzela, mágoas flutuantes, que pareciam feitas de espuma, e contra as quais no entanto se despedaçavam todo o seu valor de homem e todas as forças do seu coração de pai.

Coitadinha! Havia dois anos que se achava nesse estado. Pode-se todavia afirmar que começara a sofrer deste a fatal ocasião em que a convenceram da impossibilidade do seu casamento com Fernando.

Que romance!

Fernando fora o seu companheiro de infância, o seu amigo; cresceram juntos. Quando ela nasceu, encontrou-o já em casa do pai com cinco anos de idade, e desde muito cedo habituaram-se ambos à idéia de que nunca pertenceriam senão um ao outro.

Segundo o que sabia, toda a gente, este Fernando era um afilhado, que o Sr. Conselheiro adotara por compaixão e a quem mandara instruir; o certo é que o estimava muito e não menos verdade era que o rapaz merecia esta estima; dera sempre boas contas de si, e desde o colégio já se adivinhava nele um homem útil e honrado. Um belo dia, porém, quando andava no penúltimo ano de medicina, o padrinho chamou-o ao seu gabinete e disse-lhe que, de algum tempo àquela parte, observava-lhe com referência a Magdá uma certa ternura, que não lhe parecia inspirada só pela amizade.

Fernando sorriu-lhe e fez-se um pouco vermelho.

— Com efeito, confessou, havia já bastante tempo que sentia pela filha do seu padrinho muito mais do que simples amizade. E toda a sua ambição, todo o seu desejo, era vir a desposá-la logo que se formasse; tanto assim, que tencionava, mal concluísse os estudos, pedi-la em casamento.

— Isto é impossível!

— Impossível? interrogou o rapaz erguendo os olhos para o Conselheiro.

— Impossível, como?

O velho fez um gesto de resignação e acrescentou em voz sumida:

— Magdá é tua irmã.

— Minha irmã...?

Houve um constrangimento entre os dois. No fim de alguns segundos, o Conselheiro declarou que não tencionava fazer tão cedo semelhante revelação, e que nem a faria se a isso o não obrigassem as circunstâncias.

Fernando estava abismado. Sua irmã. Visto isto - toda essa história, que ele conhecia desde pequeno; essa história, em que figurava como filho de um pobre marinheiro viúvo, falecido a bordo, era...

— Uma fábula, concluiu o pai de Magdá, sempre de olhos baixos.— Inventei-a para esconder a minha culpa.

O moço teve um ar de censura.

— Bem sei que fiz mal, prosseguiu o velho, hesitando em levantar a cabeça. — Mas não podia declarar-me teu pai sem prejuízo de tua parte e sem enxovalhar a memória daquela que te deu o ser. Era casada com outro e tu nasceste ainda em vida de minha mulher. O marido de tua mãe estava ausente quando vieste ao mundo; ignorou sempre a tua existência, e enviuvou quando tinhas apenas dois anos de idade. Eu então carreguei contigo para casa, inventei o que até aqui supunhas verdade e nunca mais te abandonei.

Fernando deixou-se cair numa cadeira. O pai continuou, aproximando-se mais, e falando-lhe em surdina:

— Minha intenção era esconder esse segredo até no dia em que depois de minha morte, viesses a saber que estavas perfilado por mim e contemplado nas minhas disposições testamentárias; mas - o homem põe e Deus dispõe - para meu castigo, quis a fatalidade que te agradasses de tua irmã e, como bem vês, só me restava agora confessar francamente a situação. Ficas, por conseguinte, prevenido de que, de hoje em diante, deves empregar todos os meios para afastar do espírito de Magdá qualquer esperança de casamento, que ela por ventura mantenha a teu respeito...

Fernando declarou que preferia desaparecer dali. Partiria no primeiro vapor que encontrasse.

Não! isso seria loucura! Ele estava bem encaminhado e pouco lhe faltava para terminar a carreira... Que se formasse e partiria depois.

— Olha, concluiu o velho, passado um instante - caso prefiras estudar ainda um pouco na Europa, vê o lugar que te serve e conta comigo. Não sou rico, mas também não és extravagante; apenas o que te peço é que, de modo algum, reveles a tua irmã o que acabas de saber. Será talvez uma questão de temperamento, mas creio que morreria se o fizesse.

Quando o Conselheiro terminou, Fernando chorava.

(continua...)

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