Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

Nunca lhe descobria a mais ligeira revelação de um desejo. À mesa comia tudo que lhe punha no prato, sem nunca deixar ou pedir mais. Se o mandavam recolher à cama, fosse a que hora fosse, deitava-se incontinenti; se lhe dissessem "Dorme!" ele dormia ou parecia dormir. "Acorda! Levanta-te !" ele se levantava logo, sem um protesto, como se estivesse à espera daquela ordem.

Qualquer tentativa de conversa com ele era inútil. André só respondia por monossílabos, no mais das vezes incompreensíveis. Nunca fazia a ninguém interrogação de espécie alguma, e, certo dia perguntando-lhe o padre se ele o estimava, o menino sacudiu com a cabeça, negativamente.

- E que tal?... considerou o vigário; - olha que entranhas tem o maroto!...

E segurando-lhe a cabeça para o fitar de frente:

- Com que, não gostas de mim, hein?

- Não.

- Não és agradecido ao bem que te tenho feito?

- Sou.

- Mas não me estimas?

- Não.

- E, se fores para o colégio, não terás saudades minhas?

- Não.

- De quem então sentirás?

- Não sei.

- De ninguém?

- Sim.

- Pois então é melhor mesmo que te vás embora, e melhor será que nunca mais me apareças! Calculo que bom ingrato não se está preparando aí! Vai! Vai, demônio! e que Deus te proteja contra os teus próprios instintos!

Entretanto, à noite, o padre ficou muito admirado, quando, ao entrar no quarto do órfão que dormia, o viu agitar-se na cama e dizer, abraçando-se aos travesseiros e chorando:

"Mamãe! minha querida mamãe!"

– São partes, Sr. vigário, são partes deste sonso!... explicou a criada, trejeitando com arrelia. –

II

André seguiu para o colégio num princípio de mês. Veio buscá-lo à casa do tutor um homem idoso, de cabelos curtos e barbas muito longas, o qual parecia estar sempre a comer alguma coisa, porque, nem só mexia com os queixos, como lambia os beiços de vez em quando.

Foram chamá-lo à cama às cinco da manhã. Ele acordou prontamente, e como já sabia de véspera que tinha de partir, vestiu-se logo com um fato novo que, para esse dia, o padre lhe mandara armar de uma batina velha. Deram-lhe a sua tigela de café com leite e o seu pão de milho, o que ele ingeriu em silêncio; e, depois de ouvir ainda alguns conselhos do tutor, beijou-lhe a mão, recebeu no boné, uma palmada da criada e saiu de casa, sem voltar, sequer, o rosto para trás.

O das barbas longas havia já tomado conta da pequena bagagem e esperava por ele, na rua, dentro do trole. André subiu para a almofada e deixou-se levar.

Em caminho o companheiro, para enganar a monotonia da viagem, tentou chamá-lo à fala:

- Então o amiguinho vai contente para os estudos?

- Sim, disse André, sem se dar ao trabalho de olhar para o seu interlocutor. E este, supondo que o boné do menino, pelo muito enterrado que lhe ficara nas orelhas com a palmada da criada, fosse a causa dessa descortesia, apressou-se a suspender-lho e acrescentou:

- É a primeira vez que entra para o colégio ou esteve noutro?

- É.

- Ah! É a primeira vez?

- Sim.

- E morou sempre com o reverendo?

- Não.

- Ele é seu parente?

- Não.

- Tutor, talvez...

- É.

- Como se chamava seu pai?

- João.

- E sua mãe?

- Emília.

- Ainda se lembra deles?

- Sim.

E, depois de mais alguns esforços inúteis para conversação, o homem das barbas convenceu-se de que tudo era baldado e, para fazer alguma coisa, pôs-se a considerar a estranha figurinha que levava a seu lado.

André representava então nos seus dez anos o espécime mais perfeito de um menino desengraçado.

Era pequeno, grosso, muito cabeçudo, braços e pernas curtas, mãos vermelhas e polposas, tez morena e áspera, olhos sumidos de uma cor duvidosa e fusca, cabelo duro e tão abundante, que mais parecia um boné russo do que uma cabeleira.

Em todo ele nada havia que não fosse vulgar. A expressão predominante em sua fisionomia era desconfiança, nas seus gestos retraídos, na sua estranha maneira de esconder o rosto e jogar com os ombros, quando andava, transparecia alguma coisa de um urso velho e mal domesticado.

Não obstante, quem lhe surpreendesse o olhar em certas ocasiões descobriria aí um inesperado brilho de inefável doçura, onde a resignação e o sofrimento transluziam, como a luz do sol por entre um nevoeiro espesso.

Chegou ao colégio banhado de suor dentro da sua terrível roupa de lustrina preta. O empregado de barbas longas levou-o à presença do diretor, que já esperava por ele, e disse apresentando-o: - Cá está o pequeno do padre.

- Ah! resmungou o outro, largando o trabalho que tinha em mão. - O pequeno do padre Estêvão. É mais um aluno que mal dará para o que há de comer! Quero saber se isto aqui é asilo de meninos desvalidos!... Uma vez que o tomaram à sua conta, era pagarem-lhe a pensão inteira e deixarem-se de pedir abatimentos, porque ninguém está disposto a suportar de graça os filhos alheios!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior12345...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →