Por Machado de Assis (1866)
Até então havia apenas um partido, cujos chefes principais eram o Teles e o Tobias. O povo da vila vivia em plena paz como um rebanho de carneiros. A eleição fazia-se no meio do maior silêncio e tranqüilidade. O governo central mandava o nome do candidato ao presidente da província, o presidente mandava ao juiz de paz e ao subdelegado, e os dois, que arranjavam entre si os eleitores, faziam triunfar os nomes indicados sem oposição nem abalo.
Mas desde que desgraçadamente as exigências gástricas do animal de Chico Teles reduziram a nada o animal de Manoel Tobias, o partido dividiu-se, e os dois capitães ficaram em face um do outro. Então começou a luta. Cada um dos chefes usou da influência que tinha, e conseguiu grupar à roda de si uma parte da população da vila.
Heitor e Aquiles estavam prestes a vir às mãos.
CAPÍTULO III
A vila tinha um jornal, que servia aos dois chefes do único partido que havia antes. Denominava-se o Farol. Tinha um redator, amigo de ambos. Mas, com a dissensão passou a folha a ser de Tobias, que a fundara. Teles fundou logo outro jornal, denominado Atalaia.
Entretanto, o pobre redator do Farol, como o Tobias ficasse com a folha, foi despedido, por ser amigo de ambos os contendores.
Foi quem perdeu no joguinho.
Perdeu até certo ponto, porque dois meses depois, zangado com toda a história, fundou um jornal seu, ao qual deu por título O Azorrague. De maneira que veio a vila a ganhar, ficando com três jornais, e mais a vida que lhe daria a luta da imprensa.
O Azorrague combatia as outras duas folhas.
O primeiro número da Atalaia começava assim:
Entrando no campo da publicidade, a nossa missão é defender os verdadeiros interesses da vila, profligar os abusos, louvar as autoridades honestas e cumpridoras do seu dever.
Está claro que neste número não entra o famoso juiz de paz que há tanto tempo pesa sobre esta infeliz população, criatura desprezível, etc., etc. O mesmo número trazia esta notícia:
O sr. subdelegado Teles continua no gozo de sua importante saúde. O seu filho Benjamim já se acha melhor da febre intermitente de que foi recentemente atacado. Fazemos votos pelo seu restabelecimento.
O seguinte número do Farol respondeu por estes termos:
Apareceu finalmente e folha do sr. Chico Teles. É um amontoado de tolices e infâmias, e mostra bem a pessoa que se lembrou de fundar tão imundo jornal. Quanto ao que diz a respeito do respeitável sr. Tobias, toda a população desta vila protesta.
O noticiário do Farol dizia o seguinte:
Temos a dor de anunciar que o honrado sr. juiz de paz Manoel Tobias indo ontem e passeio caiu do cavalo e contundiu um ombro. Foi logo medicado pelo honrado sr. dr. B. Desde então até à hora em que escrevemos, mais de cinqüenta pessoas gradas têm visitado o ilustre juiz de paz.
A folha do Chico Teles não se pôde ter. Depois de responder ao artigo de fundo, em termos acres, disse na gazetilha:
Queríamos saber quais foram as pessoas gradas que têm visitado o sr. Tobias, depois que caiu do cavalo. A não serem o taberneiro Arruda, o picador Matias, e outros que tais, gente conhecida por toda a vila, não podemos saber quem seja.
Acudiu o Farol:
... Em todo o caso o sr. Tobias não foi visitado pelo sr. Chico Teles, cujo caráter desprezível arreda a toda a gente de bem.
A isto respondeu a Atalaia:
O sr. Teles não visita bêbados...
Estavam as coisas neste pé quando apareceu o Azorrague, redigido pelo sr. Anselmo, ex-redator do Farol. Eis a introdução:
No meio da comédia a que assiste2 a vila, desde que apareceu o Atalaia, e que se travou o tiroteio entre ela e o Farol, aparece hoje o Azorrague, disposto e dizer que tanto um como outro jornal são dois truões de força. Quem quiser rir dos srs. Teles e Tobias venham assinar esta folha, mas declaramos desde já que não somos folha de partido.
Ou fosse a franqueza da linguagem, ou simpatia que merecesse o sr. Anselmo, o certo é que o Azorrague adquiriu logo popularidade.
CAPÍTULO IV
Para bem encaminhar esta narração, é preciso fazer entrar novos personagens, aos quais está destinado um brilhante papel.
Teles tinha um filho a estudar em S. Paulo; Tobias tinha uma filha em casa, moça de seus vinte anos, bonita, viva, verdadeira flor da vila, onde aliás não escasseavam mulheres bonitas.
Criadas juntas as duas criaturas, tinha-se desenvolvido entre ambas um sentimento mais vivo e menos desinteressado que a simples afeição fraternal dos seus primeiros anos. O que é certo é que a designação de minha mulher — e meu marido — conservou-se até à idade adulta, entrando muito nos cálculos dos dois pais ligá-los realmente pelos laços matrimoniais.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O Teles e o Tobias. Semana Ilustrada. Rio de Janeiro, 1866.