Por Machado de Assis (1868)
A amiga de Augusta perguntou-lhe:
- Aposto que já tem algum noivo em vista?
A menina corou muito, e balbuciou:
- Não fale nisso.
- Ora, há de ter! Ou então aproxima-se da época em que há de ter um noivo, e eu já lhe profetizo que há de ser bonito...
- É muito cedo, disse Augusta.
- Cedo!
- Sim, está muito criança; casar-se-á quando for tempo, e o tempo está longe...
- Já sei, disse Carlota rindo, quer prepará-la bem... Aprovo-lhe a intenção. Mas nesse caso não lhe tire as bonecas.
- Já não as tem.
- Então é difícil impedir os namorados. Uma coisa substitui a outra. Augusta sorriu, e Carlota levantou-se para sair.
- Já? disse Augusta.
- É preciso; adeus!
- Adeus!
Trocaram-se alguns beijos e Carlota saiu logo.
Logo depois chegaram dous caixeiros: um com alguns vestidos e outro com um romance; eram encomendas feitas na véspera. Os vestidos eram caríssimos, e o romance tinha este título: Fanny, por Ernesto Feydeau.
Capítulo II
Pela uma hora da tarde do mesmo dia levantou-se Vasconcelos da cama.
Vasconcelos era um homem de quarenta anos, bem apessoado, dotado de um maravilhoso par de suíças grisalhas, que lhe davam um ar de diplomata, cousa de que estava afastado umas boas cem léguas. Tinha a cara risonha e expansiva; todo ele respirava uma robusta saúde.
Possuía uma boa fortuna e não trabalhava, isto é, trabalhava muito na destruição da referida fortuna, obra em que sua mulher colaborava conscienciosamente.
A observação de Adelaide era verídica; Vasconcelos recolhia-se tarde; acordava sempre depois do meio-dia; e saía às ave-marias para voltar na madrugada seguinte. Quer dizer que fazia com regularidade algumas pequenas excursões à casa da família.
Só uma pessoa tinha o direito de exigir de Vasconcelos mais alguma assiduidade em casa: era Augusta; mas ela nada lhe dizia. Nem por isso se davam mal, porque o marido em compensação da tolerância de sua esposa não lhe negava nada, e todos os caprichos dela eram de pronto satisfeitos.
Se acontecia que Vasconcelos não pudesse acompanhá-la a todos os passeios e bailes, incumbia-se disso um irmão dele, comendador de duas ordens, político de oposição, excelente jogador de voltarete, e homem amável nas horas vagas, que eram bem poucas. O irmão Lourenço era o que se pode chamar um irmão terrível. Obedecia a todos os desejos da cunhada, mas não poupava de quando em quando um sermão ao irmão. Boa semente que não pegava.
Acordou, pois, Vasconcelos, e acordou de bom humor. A filha alegrou-se muito ao vê-lo, e ele mostrou-se de uma grande afabilidade com a mulher, que lhe retribuiu do mesmo modo.
- Por que acorda tão tarde? perguntou Adelaide acariciando as suíças de Vasconcelos.
- Porque me deito tarde.
- Mas por que se deita tarde?
- Isso agora é muito perguntar! disse Vasconcelos sorrindo. E continuou:
- Deito-me tarde porque assim o pedem as necessidades políticas. Tu não sabes o que é política; é uma cousa muito feia, mas muito necessária.
- Sei o que é política, sim! disse Adelaide.
- Ah! explica-me lá então o que é.
- Lá na roça, quando quebraram a cabeça ao juiz de paz, disseram que era por política; o que eu achei esquisito, porque a política seria não quebrar a cabeça...
Vasconcelos riu muito com a observação da filha, e foi almoçar, exatamente quando entrava o irmão, que não pôde deixar de exclamar:
- A boa hora almoças tu!
- Aí vens tu com as tuas reprimendas. Eu almoço quando tenho fome... Vê se me queres agora escravizar às horas e às denominações. Chama-lhe almoço ou lunch, a verdade é que estou comendo.
Lourenço respondeu com uma careta.
Terminado o almoço, anunciou-se a chegada do Sr. Batista. Vasconcelos foi recebê-lo no gabinete particular.
Batista era um rapaz de vinte e cinco anos; era o tipo acabado do pândego; excelente companheiro numa ceia de sociedade equívoca, nulo conviva numa sociedade honesta. Tinha chiste e certa inteligência, mas era preciso que estivesse em clima próprio para que se lhe desenvolvessem essas qualidades. No mais era bonito; tinha um lindo bigode; calçava botins do Campas, e vestia no mais apurado gosto; fumava tanto como um soldado e tão bem como um lord.
- Aposto que acordaste agora? disse Batista entrando no gabinete do Vasconcelos.
- Há três quartos de hora; almocei neste instante. Toma um charuto.
Batista aceitou o charuto, e estirou-se numa cadeira americana, enquanto Vasconcelos acendia um fósforo.
- Viste o Gomes? perguntou Vasconcelos.
- Vi-o ontem. Grande notícia; rompeu com a sociedade.
- Deveras?
(continua...)
ASSIS, Machado de. O segredo de Augusta. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1868.