Por Machado de Assis (1866)
A boa velha era caprichosa; o marido era o tipo da obediência. Um dia acordou D. Angélica com a ideia de que o esposo devia usar suíças. Gaspar, que trazia a barba toda, desde que ela achou que era a única moda respeitável, ia ao barbeiro e punha abaixo metade do pêlo. Dous meses depois, Angélica adotava o sistema dos bigodes, por se ter namorado de um retrato de Napoleão III. O marido voltava para casa com uma faixa de soldado francês. Suspeitava-se que o corte das calças inexplicáveis de Gaspar era produção de D. Angélica.
Aqui temos, em duas palavras, a nova família de João das Mercês. Sabendo com que amor o tratavam, o nosso João imaginou que ia levar uma vida regalada. Infelizmente foi ilusão que durou pouco. Dona Angélica disse um dia à mesa que era preciso arranjar algum emprego para o sobrinho. Gaspar não se fez esperar. Foi dali a um cavalheiro com que andara na escola e que ocupava então o lugar de ministro da Guerra. Pediu-lhe um emprego. Gaspar foi notável durante toda a sua vida pelo aferro com que sempre acompanhara o ministério atual. Obteve o emprego.
João das Mercês obedeceu à intimação da sua tia e foi ocupar o lugar no Arsenal de Guerra, tendo obtido antes consentimento do pai.
Marianinha amava o primo, com toda a força de seus quinze anos. Era uma rapariga assaz bonita, assaz faceira, dotada de um excelente coração. João das Mercês, que era estouvado e mal educado, não deixava de ter igualmente um coração digno de apreço. Amavam-se estas duas criaturas com o aferro de um primeiro amor. Dona Angélica alimentava esta chama que, segundo ela, devia ser legitimada na igreja.
João das Mercês também nutria essas esperanças; e tratava de as comunicar à prima.
- Quando formos casados - dizia ele -, havemos de ser felizes.
- Casados?
- Sim.
- Quando há de ser?
- Um dia, quando eu tiver mais idade.
- Ah! Se fosse já!...
Gaspar ouviu um dia esta conversa, e não se pôde ter de furor.
- Casar! - exclamou ele -. Pois vocês já falam em casar? Onde é que se viu isto? Que diria tua mãe, quando souber que já a minha filha fala em casamento? E tu, meu pirralho, que ideias andas metendo na cabeça de tua prima? Ora esperem!
Marianinha tremia; João murmurava uma resposta ao tio, quando este chegando-se à porta gritou para dentro:
- Oh! Senhora D. Angélica!
- Que temos? - gritou de dentro a esposa de Gaspar.
- Queira vir ate cá - respondeu o marido com voz macia.
- Não me faltava mais nada! Venha cá você.
Gaspar fez um gesto de ameaça aos pequenos e foi ter com a mulher a que expôs o que acabava de ouvir.
- E que tem você com isso? - disse-lhe a mulher -. Se os pequenos gostam um do outro, fazem muito bem; e eu até estimo isso, porque já andava com ideias de os unir. Você veio atrapalhar tudo; ora vai, vai tranquilizar os pequenos.
Gaspar engoliu dificilmente a pílula. Atravessou o corredor como se passasse pelas forcas caudinas; e voltou à sala onde os namorados tremiam pelo desfecho da cena.
- O amor, meus filhos - disse ele -, é uma cousa santa, se vocês se amam com seriedade, sou o primeiro a aprovar esse sentimento que nos eleva aos nossos próprios olhos; o que eu combato, e que todos os bons pais devem combater, é o namoro sem fim, o passatempo indigno de jovens bem formados. Quando eu e a respeitável D. Angélica (aqui levantou muito a voz) nos amamos foi...
- Deixe-se de estar contando essas cousas aos pequenos - clamou de dentro a Senhora D. Angélica.
- Foi seriamente - continuou Gaspar em voz baixa.
Tudo favorecia os amores de João das Mercês; mas ele não contava com o destino.
André das Mercês, pai do nosso João, arrependeu-se um dia de ter posto o filho fora de casa, e foi ter com a irmã para obter a volta de João das Mercês. Dona Angélica opôs-se vivamente à saída do sobrinho. Disse francamente ao irmão que o seu projeto era insensato; que, já que tinha praticado um erro, devia aguentar com todas as consequências dele.
André era tão esturrado como a irmã; respondeu-lhe rispidamente; ela insistiu; insistiu; e depois de uma longa discussão em que ambos mostraram toda a solidez da respectiva língua, saiu André disposto a proceder violentamente.
Em caminho refletiu que não era conveniente dar um escândalo, e que podia alcançar tudo por bons modos.
"Talvez ela hoje estivesse de mau humor", pensou ele.
Encontrou o cunhado e expôs-lhe a questão.
- Meu amigo - disse-lhe Gaspar -, eu aprovo o procedimento de minha mulher, sem deixar de aprovar as suas louváveis intenções...
- Louváveis, tem razão - acudiu André -; o que eu quero é receber meu filho em casa. Assiste-me o direito...
- Não contesto.
- A mana está teimosa; mas se você intervier, pode ser que eu consiga alguma cousa...
- Acha então que eu...
- Sem dúvida, venha comigo.
- Vamos. Minha mulher atende muito ao que eu digo. Com duas palavras minhas estou que arranjarei tudo. O caso é que o senhor não estrague tudo com as suas insistências... Deixe-me falar só.
- Estou por tudo; eu não desejo brigar com ela.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O caipora. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1866.