Por Machado de Assis (1866)
Dois dias depois cumpriu Luís Pinto a palavra dada na casa do comendador, foi à Rua das Mangueiras. Vestiu-se mais apurado que de costume; contemplou-se repetidas vezes ao espelho, não por vaidade, aliás justificável, porque ainda era um bonito homem, mas para ver se havia ainda em suas feições um resto da primeira mocidade. Madalena recebeu-o com muita afabilidade. Estava com ela um menino de seis anos, seu filho; e, além dele, havia uma senhora idosa, tia de seu marido, que a acompanhara até à corte e ficara a residir com ela. A conversa versou sobre coisas gerais; mas por mais indiferente ou insignificante que fosse o assunto, Madalena tinha a arte de o tornar interessante e elevá-lo. Passaram as horas naturalmente depressa; Luís saiu satisfeito dessa primeira visita.
A segunda verificou-se dali a cinco ou seis dias; Madalena porém não estava em casa, e este desencontro, aliás fortuito, pareceu enfadá-lo. Encontrou-a em caminho, na Rua dos Arcos, com o filho pela mão.
— Venho de sua casa, disse ele.
— Sim? acudiu a viúva. Eu fui visitar umas amigas de outro tempo.
— De seis anos.
— De dez.
— Ainda se lembra do passado? perguntou Luís Pinto, dando às palavras uma entoação particular.
— Minha memória não esquece as afeições, respondeu ela naturalmente. Luís cumprimentou-a e seguiu. A resposta da viúva não dizia talvez tudo: ele, contudo, deu-se por satisfeito em ter-lhe feito a pergunta.
O passado de que ele falava, como já a leitora terá suposto, era um namoro travado entre os dois antes do casamento de ambos. Não foi namoro ligeiro e sem raízes, antes passatempo que outra coisa; foi paixão séria e forte. O pai de Madalena opunha-se ao consórcio e declarou-se mortal inimigo do moço; empregou contra ele todas as armas de que podia dispor. Luís Pinto afrontou tudo; para vê-la de longe, colher um sorriso, amargo embora e desconsolado, atravessava audazmente a chácara em que ela morava, sem embargo dos espias que o dono da casa ali punha. Ia a todos os teatros e reuniões onde houvesse esperança de a ver, mantinham correspondência, sem embargo de todas as precauções paternais. Madalena mostrou-se firme durante todo esse tempo; e pela sua parte usou de todas as armas que lhe inspirava o coração: os rogos, as lágrimas, a reclusão, a abstinência de alimentos.
Nessa luta, que se prolongou por dois anos quase, venceu o pai de Madalena. A moça casou com o noivo que lhe apresentaram, um sujeito honrado e bom, que naquela ocasião era a mais detestável criatura do mundo. Luís Pinto suportou o golpe como poderia suportá-lo um coração que tantas provas dera de si. Casou mais tarde. O tempo distanciou-os; perderam-se completamente de vista.
Tal era o passado. Não o pode haver mais pejado de recordações, umas tristes, outras deliciosas; e a melhor maneira de apagar as tristes, e dar corpo às deliciosas, era reatar o fio quebrado pelas circunstâncias, continuando, após tanto tempo, o amor interrompido, desposando-a, enfim, agora que nenhum obstáculo podia haver entre os dois. Luís foi à casa de Madalena no dia seguinte ao do encontro. Achou-a a ensinar a lição ao filho, com o livro sobre os seus joelhos.
— Deixa-me acabar esta página? perguntou ela.
Luís Pinto fez sinal afirmativo; e a mãe concluiu a lição do filho. Enquanto ela meia inclinada, ia acompanhando as linhas do livro, o oficial de marinha observava à luz do dia aquelas feições que tanto amara dez anos antes. Não era a mesma frescura juvenil; mas a beleza, que não diminuíra, tinha agora uma expressão mais grave. Os olhos eram os mesmos, dois grandes olhos negros e cintilantes. Eram os mesmos cabelos castanhos, e bastos, o pescoço de cisne, as mãos de princesa, o talhe esbelto, a graça e a morbideza dos movimentos. A viúva trajava com simplicidade, sem atavios nem arrebiques, o que dava-lhe à beleza um realce austero e certa gravidade adorável. Luís Pinto embebeu-se todo na contemplação do quadro e da figura. Comparava a donzela frívola e jovial de outro tempo à mãe desvelada e séria que ali tinha diante de si, e as duas fisionomias confundiam-se na mesma evocação.
A lição acabara; Madalena dirigiu-se ao capitão-tenente com a familiaridade de pessoas conhecidas, mas ainda assim com o acanhamento natural da situação. A conversa foi curta e salteada. Era natural falarem do passado; contudo, evitavam roçar o pensamento — a frase ao menos — pelos sucessos que romperam o vínculo de seus destinos.
— Acha-me velho, não é? perguntou o oficial ao ouvir um reparo de Madalena acerca da mudança que o tempo fizera nele.
— Mais velho, não, respondeu ela sorrindo; menos moço, talvez. Não admira, também eu perdi o frescor dos primeiros anos.
— A comparação é malfeita; eu entro pela tarde da vida; a senhora está em pleno meio dia. Não vê estes cabelos grisalhos? Verdade é que a vida não me foi de rosas; e os desgostos, mais do que os anos...
— A cor dos cabelos não prova nada, atalhou a moça como se quisesse interromper alguma confissão. Meu pai, aos vinte e oito anos, tinha os cabelos brancos. Caprichos da natureza. Pretende voltar à Europa?
— Não pretendo; provavelmente não voltarei mais.
— Aquilo é tão bonito como dizem?
(continua...)
ASSIS, Machado de. O pai. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1866.