Por Aluísio Azevedo (1891)
— Oh! Bem te compreendo, natureza pérfida e sedutora! bem compreendo os teus embustes! És pior ainda que a tua rival, a sociedade! Mas em vão te enfeitas com as tuas galas e com os teus sorrisos de amor! Não me seduzirás, pântano de lama coberto de flores! Não me corromperás, porque tenho na alma bastante energia para governar os meus sentidos, e tenho o meu coração cercado por uma muralha de fé! Atira-me aos pés o ouro do teu sol, atira-me o perfume das tuas flores, o mel dos teus frutos, o mistério dos teus crepúsculos, a música das tuas florestas, os deslumbramentos das tuas auroras! tudo será baldado! Hei de resistir a todas as tuas provocações! hei de lutar contra todos os inimigos da minha pureza, e, ou cairei morto, ou hei de suportá-los a todos, um por um!
E sentindo-se arrebatado no delírio da sua fé, bradou como um louco:
— Venham! Venham filhos do inferno! Podem vir todos, que me encontrarão armado e de pé firme!
Em seguida atirou-se de novo aos pés da Virgem e começou a rezar fervorosamente.
Quatro horas depois foi surpreendido pelo velho Ozéas, que lhe bateu no ombro.
Ângelo voltou para ele os olhos desvairados.
— Amanhã, disse aquele, partiremos de madrugada para Monteli.
— Estou às suas ordens, meu pai.
CAPÍTULO XI
Ângelo ameaçado
Era a antecâmara da formosa Alzira rigorosamente posta ao caprichoso gosto da época.
Guarneciam-na móveis de madeira, esculpida e pintada de branco, com arabescos de ouro, que variava entre o fusco e o luzente, formando torturados desenhos de ornato. Pombas aos pares e anjinhos rechonchudos serviam de adorno às guarnições das portas. Sobre peanhas e cantoneiras havia jarras de Sevres, com pinturas assinadas, em que se viam pastores enfeitados de fitas azuis e cor-de-rosa, na cinta, nos joelhos, no pescoço e nos tornozelos, tocando avena e flauta, ao lado de roliças raparigas de saia curta listrada com sobressaia de tufos de seda clara, chapéu de palha, coberto de flores, uma corbelha enfiada no braço, sapatinhos quase invisíveis, e um dos peitos à mostra, branco e levemente rosado, como trêmula gota de leite sobre uma pétala de rosa.
As cortinas de estofo alvadio, adamascado de prata, eram arrepanhadas ao meio por grandes florões de penas multicores.
Os espelhos tinham cercaduras de florzinhas de porcelana, primorosamente acabadas e coloridas com muita arte. Era uma recordação do luxo de Luís XIV. Em cima do fogão, dourado quase todo, havia um grande relógio de Boule, tirado por leões de ouro, entre várias lâmpadas e espevitadores também de ouro.
Nas paredes, forradas de uma tapeçaria azul celeste, destacavam-se suavemente, por cima das portas e contornando os móveis, desenhos do mesmo azul um pouco mais escuro, representando alegorias pastoris.
Prendiam a tapeçaria cordões de arame de prata entrançando, com grandes nós de espaço a espaço, terminando em amplas borlas do mesmo metal, que afinavam admiravelmente com os bordados das cortinas.
O tapete era felpudo e azul sombrio, à moda dos voluptuosos tapetes da Turquia. Os batentes das portas eram forrados de veludo cor de pérola e fechavam como tampas de estojo.
Alzira, ainda em penteador, estendida negligentemente num divã fofo e rasteiro, fumava uma dourada cigarrilha oriental, e acompanhava distraída as espirais do fumo com as pálpebras semicerradas.
O relógio marcava meio-dia. Ela acabava de levantar-se do leito, onde fizera a sua refeição da manhã; uma pequena xícara de chocolate e dois biscoitos de Reims.
Um rico dominó de seda negra, arremessado sabre uma cadeira, e uma meia máscara caída sobre o tapete, diziam que nessa madrugada se recolhera ela depois de um baile; e um pobre lenço de rendas preciosas, que jazia a um canto estraçalhado em tiras, denunciava todo o frenesi de tédio com que a linda condessa, à volta do baile, entrara nos seus aposentos.
Mas agora, sozinha no perfumado e tépido remanso da sua antecâmara, parecia já esquecida dos aborrecimentos da véspera, alheia a tudo que a cercava, e só entregue e abandonada, voluptuosamente, à memória do venturoso sonho dessa manhã.
Pensava em Ângelo. Via o em meio dos esplendores da igreja, cercado de ávidos olhares, surgindo, todo paramentado de ouro, dentre uma nuvem de incenso.
Via-o, formoso e cândido, de braços abertos, defronte do altar, com os olhos virginais voltados para o céu. Via o trêmulo sorrir da sua boca de anjo, via o melancólico balancear dos seus negros cabelos de meridional. Tinha-o todo inteiro e todo vivo defronte da sua alma, pela primeira vez enamorada; tinha-o ali, defronte dela, com a sua misteriosa palidez de flor de estufa; tinha-o com aqueles lábios tão divinos e tão puros, com aqueles gestos donairosos e tranqüilos, com aquela voz embriagadora, que parecia sair de uma garganta de cristal e sândalo.
Tinha-o todo inteiro, e sentia-lhe até os perfumes do damasco da sua vestimenta, o aroma do seu hábito e o bálsamo dos seus cabelos.
E Alzira espreguiçou-se com um profundo suspiro, de olhos fechados e lábios entreabertos, dilatando o pescoço, como se procurasse alcançar com a boca a sombra de uma outra boca fugitiva.
E deixou-se cair sobre a almofada do divã, suspirando de novo, inconsolável na sua deliciosa mágoa de amor.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.