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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Concordo. Mas por enquanto conversemos. Eu servirei o chá. E Violante colocou a mesinha do chá entre duas cadeiras, e passou uma chávena ao companheiro. — O senhor declarou que me queria falar com franqueza... a ocasião não pode ser melhor. Podemos conversar à larga.

— Porque a senhora faz de mim um juízo que eu não mereço; supõe­me o mais leal dos homens, e eu não passo de um grande velhaco.

— Está gracejando!

— Afianço­lhe que não, infelizmente. E para meu castigo, vou dizer­lhe tudo: A primeira impressão que recebi em sua presença, foi muito diversa da que a senhora se persuade. Calculei ter defronte dos olhos uma mulher escandalosa, amiga das aventuras, e grande conhecedora de todos os segredos do amor; pensei vaidosamente comigo mesmo que a tinha impressionado e que podia em breve colher os saborosos frutos dessa fortuna. A senhora, porém, desviou logo semelhante presunção, narrando­me com muito talento uma história, na qual figurava minha família, e pedindo­me que a acompanhasse por toda a parte, como seu protetor, seu amigo, seu irmão... Não é verdade que, se me confiou tão delicado papel, foi porque lhe inspirei a mais cega das confianças?

— Justamente.

— Pois declaro­lhe que a não merecia. Quando aceitei o espinhoso disfarce de seu marido, foi ainda na esperança de alguma venturosa ocorrência; a senhora, porém tem desenvolvido uma tal dignidade, tem se portado com tal circunspecção, que eu, confesso­lhe, estou envergonhado, e para meu castigo falo­lhe com esta franqueza. Se soubesse que noites tenho passado em um alcova junto à sua! que lutas tenho travado comigo mesmo, para manter o ar grave e as maneiras reservadas a que me condenam as circunstâncias desde que nos achamos a sós! Cheguei algumas vezes a odiá­la! pareciame que a senhora zombava de mim; que me havia lesado nos meus direitos, e que a rispidez da sua conduta era um roubo feito à minha felicidade!

— O senhor amava­me então?

— Não! não era amor; apenas a desejava com todo o ardor do meu temperamento brasileiro. O que então me arrebatava não era o seu caráter nem as suas virtudes, mas sim a cor dos seus cabelos, a transparência da sua pele, o fogo dos seus olhos e a frescura do seu hálito. Não a amava, tanto que a desejava para minha amante. Depois que conheci, porém, todos os tesouros de bondade, que a senhora escondia sob as aparências de uma mulher leviana; depois que compreendi tudo quanto há de franqueza e lealdade nos seus sentimentos; quando descobri a sua abnegação, a sua coragem e a castidade de sua alma, amei­a, amei­a conscienciosamente, com entusiasmo e com honra! A senhora, se quiser, fará parte de minha família — eu serei seu marido!

— Gaspar, disse Violante, segurando­lhe as mãos, eu te amo também; há muito! sempre! Amei­te primeiro na casta figura de teu pai, que foi o bom anjo da minha infância; amei­te nos teus folguedos de criança, nos teus progressos de estudante e nos teus estouvamentos de rapaz. Amei­te quando te vi estendido na rua, quando depois te vi ao meu lado, e amo­te agora com toda a segurança de minha dignidade. Todavia, tenho um juramento a cumprir... Eu só serei tua, esposa ou amante, amiga ou escrava, no dia em que Paulo Mostella cair debaixo deste punhal!

E com os olhos incendiados de cólera, os lábios trêmulos, brandia o afiado estilete que ela trazia sempre consigo, desde que empreendera vingar­se.

— Mas eu não exijo tanto, contraveio Gaspar. Posso esquecer o passado. Tenho plena confiança em teu caráter e de nada mais preciso para fazer de minha legítima esposa.

— Não se trata do que exijas tu, nem do que tu não queiras; trata­se unicamente daquilo que eu jurei ao meu próprio coração. Um homem ultrajou­me. Eu tenho de vingar­me dele. Ou ele morrerá ou eu me matarei!

Gaspar, mais tarde, empregou ainda todos os esforços para dissuadir Violante daquelas sinistras idéias de vingança, mas a oriental abanou a cabeça, com a calma de quem se sente firme na sua resolução, e disse, sorrindo tristemente para o companheiro:

Cala­te, meu amigo! Tu ainda me não conheces... eu sou inabalável no meu ódio. é um temperamento de família; meu pai já era assim e ligou­se à minha mãe, porque encontrou nela a mesma rigidez de sentimentos. Nasci de duas tempestades, que me concentraram no coração todos os seus raios, todos os seus vendavais, todos os delírios do céu e do inferno. Meu pai morreu na guerra e minha mãe na miséria — foram igualmente fortes; um lutou contra a maldade dos homens e outro, contra a maldade de Deus. Deles eu só herdei além do caráter, este punhal. É um punhal de família, que passará, com a minha morte, às mãos de meu filho.

Gaspar, à vista daquelas palavras e do ar resoluto da oriental, tomou o partido de a não contrariar e deixar que as cousas corressem a mercê do tempo.

Por essa ocasião, um dos homens encarregados de espreitar os rastros de Mostella, comunicou à Violante que este, em companhia da esposa, havia tomado passagem num paquete brasileiro da linha costeira.

— Prepara as malas, disse ela ao criado; partiremos hoje mesmo.

(continua...)

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