Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

— Perdi a amante, que devia ser minha esposa, murmurou comsigo; mas o céo teve piedade de mim e preservou-me a filha, que hoje ou amanhã terei a ventura de acolher em minha casa, e apertar em meus braços.

Como era por demais cedo para ir á casa d" major, Conrado tratou de vestir-se para ir á missa da Sé, que os sinos annunciavão, e isto não só para matar o tempo, que tão lento lhe corría, como tambem a fim de implorar a protecção do Áltlssimo para o bom exito do melindroso negocio em que se achava tão vivamente empenhado.

Tendo entrado na egreja, depois de feita uma curta oração, começou a passear olhares indifferentes pelos diversos grupos de mulheres que se achavão sentadas pela nave á espera da missa. Subito deo com os olhos em um grupo que fixou-lhe a attenção. Compunha-se elle de uma senhora ainda moça, alta, esbelta e formosa, de quatro galantes creanças e de ulna rapariga, que lhes servia de mocamba, tão branca e tão linda, que si não fôra o trajo mais simples e modesto, c a posição, que occupava atráz do grupo, a tomarieis segurament,e por uma irmã mais velha dos outros meninos.

Com aquella vista Conrado estrcmcceo e sentio calafrios; na mãe de familia reconhecera immediatamente Adelaide; mas toda a sua attenção a principio concentrou-se na mocamba. Era Rozaura; não podia haver a menor duvida, era sua filha ; era ella, que alli estava servindo de escrava á sua mãe e a seus irmãos Durante toda a missa o mancebo não arredou os olhos daquelle interessante grupo, que representava para sua alma um passado cheio de saudosas e amargas recordações, e um futuro cheio de anciedade e inquietação.

Rozaura trajava um singelo vestido de chita fina, azul-claro, apertado á cintura por uma fita côr de rosa; os cabellos negros e lisos no alto da cabeça, presos por uma fita da mesma cor, descião-lhe soltos pelos hombros caracolando em abundantes e luzidios cachos. A mantilha de lã escura, que trazia em volta do pescoço, em razão da frescura da manhã, ainda mais fazia sobresahirem as linhas harmoniosas de seu busto encantador. De joelhos, com a cabeça inclinada, os braços cruzados por baixo dos seios, só lhe faltavão as azas para que a julgasseis um serafim em altitude de adoração.

Conrado a contemplava cheio de enlevo e orgulho, ao mesmo tempo que se lhe confrangia o coração ao considerar que por um singular capricho da sorte essa tão linda creatura, tendo nascido livre, estava reduzida á escravidão, e era captiva de sua mãe. Não ha expressões que possão interpretar em toda a sua intensidade as vivas emoções que assaltárão o espirito do mancebo, ao ver diante de si, ajoe-

lhadas ante o altar de Deos, a amante, que o céo lhe destinara para esposa, e que lhe arrancarão dos braços para entregal-a a outrem, e a filha, que logo ao nascer escapára aos braços maternos para ser por meio da mais abominavel machinação reduzida ao captiveiro.

Os olhos de Conrado ião de Rozaura a Adelaide, e de Adelaide a Rozaura, e confrontando as feições de uma e de outra não poude deixar de reconhecer a notavel semelhança que entre ellas existia. Já nenhuma duvida lhe restava no espirito; a voz da natureza acabava de confirmar de um modo irrefragavel as supposições de Lucinda, e lhe bradava dentro d'alma : é tua filha.

Ainda nada tinha sido revelado a Rozaura a respeito do seu nascimento e verdadeira condição, e nem convinha que o fosse, emquanto esse facto não estivesse verificado por meio de provas evidences e irrecusaveis. Por isso Adelaide, posto que em sua consciencia já tivesse

plena e intima convicção de que Rozaura era sua filha, continuava ainda a tratal-a como escrava, si bem que com o mesmo mimo e carinho que prodigalisava aos outros filhos. As duas mulheres corn a attenção concentrada nos actos religiosos não olhavão em derredor, e por isso não notarão a presença do homem que com tanta persistencia as observava.

Terminada a missa, Conrado esperou que ellas sahissem, e as foi acompanhando cm certa distancia até sumirem-se a seus olhos, dobrando o angulo• da Rua Direita com a de S. Bento, na qual residia Adelaide. Desejaria nunca mais perder de vista aquellas duas mulheres, ás quaes seu destino se prendia por laços de tanto affeito e de tanto mysterio. Mas não era chegada ainda a occasião, e Conrado, que morava na Rua Direita, entrou em casa unicamente para ganhar tempo, e para não fazer uma visita demasiado matinal, esperou que soassem dez horas.

As dez horas e um quarto entrava elle na loja do senhor Moraes.Estava este sentado no mostrador e quasi sósinho, pois o unico caixeiro, que alli existia, estava quasi sumido a um canto entre fardos e rolos de fazenda a olhar para as prateleiras. Depois de se terem cumprimentado

friamente como pessoas que apenas se conhecião, Conrado declarou a Moraes que desejava ter com elle uma conversação particular. Moraes o levou a um gabinete no fundo da loja.

— Consta-me, disso Conrado, — quc va possue uma linda cscravinha que comprou a um senhor... não me lembra agora o nome.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1718192021...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →