Por Franklin Távora (1876)
— Mas, meu senhor — tornou Luisinha achando em si mesma coragem de que nunca se julgara capaz — , por tudo quanto é sagrado lhe peço que me deixe ir embora. É quase de noite, e, se me demorar mais tempo aqui, arrisco-me a encontrar algum malfeitor que me ofenda no caminho.
— Queres maior malfeitor do que eu ?
— Vosmecê não é um malfeitor. Vosmecê veio caçar por estas bandas, e, como me encontrou neste ermo, está-me metendo medo para divertir-se à minha custa. E creio até que havia de defender-me se alguém quisesse fazer-me mal.
— Certamente. Nenhum gavião seria capaz de tirar-me das unhas a minha formosa juruti. Ora, vem comigo; não tenhas medo. Atravessamos por este limpo, ganhamos a capoeira, subimos pela aba da serra e...
— Deus me livre ! — exclamou Luisinha assaltada por novos terrores.
— Olhe: se você não quiser vir por bem, vem por mal — disse o desconhecido.
— Por mal ? E onde está Deus ? — interrogou Luisinha, elevando todo o seu espírito aos pés daquele que está em toda parte para acudir aos atribulados que o invocam com sincera confiança. —Nem por mal nem por bem. Eu não vou com vosmecê ainda que me custe a própria vida. Eu sei que Deus me está ouvindo de dentro deste mato, de cima deste céu. Ele há de lembrar-se de mim.
Diante da firmeza na realidade admirável, com que a frágil moça respondeu à sua ameaça, o malfeitor sobresteve involuntariamente. Tornando logo em si, porém, continuou com certo disfarce de mau anúncio:
— Ora, menina, deixe-se de asneiras e vamos para diante enquanto o caso não fica mais sério. Se você é bonita, eu também não sou feio; assim, podemos ter filhos galantes como os têm os passarinhos no seio da solidão.
—Meu Deus, meu Deus, compadecei-vos de mim enquanto é tempo! — exclamou ela quase vencida de terror.
Então, à luz crepuscular que enchia a planície como uma neblina, lobrigou Luisinha um vulto que se dirigia para o lugar onde ela se achava com o malfeitor. Não foi preciso mais para que recrudescesse o seu valor que a ia desamparando.
— Cuidas que não vejo quem ali vem ? — perguntou o desconhecido, apontando o volto que, como vinha pelo rasto da moça, com pouco mais estaria com eles. — Eu podia agora mesmo meter-me contigo pelo mato adentro. Se tentasses gritar, tapava-te a boca, e ninguém saberia o teu fim. Mas quero ficar, para em vez de uma, levar em minha companhia duas mulheres para o mato, onde há grande necessidade desta fazenda.
— Estou aqui, minha mãe, estou aqui — gritou Luísa quase ébria de prazer pela sua salvação, que teve por indubitável desde que na mulher recém-aparecida reconheceu Florinda.
O malfeitor, porém, seguro de seu poder, nem se moveu, nem se alterou sequer; e para dar testemunho irrecusável de que não fazia caso do inesperado adjutório, chasqueou de Florinda, por se apresentar armada com um cacete e um facão.
Querendo Luisinha correr ao encontro da viúva que, tendo ouvido as palavras da rapariga, fora em seu socorro com gestos e meneios de louca, o desconhecido, cujos olhos cobriram de repente com uma expressão indescritível a pobre vítima, não lhe consentiu arredar o pé de junto de si.
— Não irás — disse rudemente, assentando a mão sobre o braço da moça com tanta força e violência, que a ela se afigurou que ele lhe tinha dado um golpe com o coice da arma.
Florinda passava por ser a mulher mais forte de toda aquela ribeira.
Ela derrubava grossas árvores a machado, abria roçados por empreitada, cortava na mata virgem lenha que vendia na povoação, e até tarrafava nas lagoas como um hábil pescador. Não se distinguia só nos serviços do campo, mas também em fazer excelentes tapiocas e ótimo arroz-doce, que eram as delícias dos matutos e sertanejos nas feiras.
Era curiboca, reforçada, não feia e de boa estatura. Acreditava na existência do diabo, no inferno e nas penas eternas como ainda hoje acredita a gente do campo e uma grande parte dos habitantes das cidades; mas em compensação tinha uma fé viva e fervorosa em Deus, e era de costumes irrepreensíveis, fé e costumes que desgraçadamente faltam a muitos dos que têm hoje aquela primeira crença.
Tendo ficado viúva, sem filhos, na flor dos anos, não se quis casar segunda vez, e nunca ninguém achou motivo de por em dúvida a sua honestidade. A Luisinha, a quem pouco depois de ter casado, tomou sob sua proteção, como já referimos, consagrava ela todos os seus afetos, e nela fazia consistir o seu orgulho, o seu prazer e a sua felicidade.
Não sendo de meias medidas quando se julgava ofendida, Florinda botou-se com todo o ímpeto, que trazia, ao desconhecido, o qual, sem soltar Luisinha, que se torcia ao aperto da mão de ferro que a segurava, rebateu o golpe do facão de Florinda com o cano do bacamarte. Com o choque o facão partiu-se, e a folha inteira foi cair dentro do poço, ficando na mão da curiboca o cabo imprestável da infame arma.
Florinda era prudente. Tanto que se viu desarmada, sobresteve, dominou a sua justa indignação, e, com voz masculina que lhe dera a natureza, assim falou ao malfeitor:
— Que quer vosmecê fazer com minha filha ?
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.