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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

— Uma velha bem velha é preferivel a uma moça bem moça, quando são igualmente ricas, se se trata de casamento : é preferível, porque a velha naturalmente não exclue a moça, e esta naturalmente èxclue aquella.

— Sim; uma moça tem uma longa vida diante de si, e não morre nem á força de bailes e de theatros, e nem á força de ceias e de vigilias ; e portanto uma moça quer dizer um casamento sem viuvez, isto é, um dote só !... Chama-se a isto meia fortuna. A uma noiva bem velha carrega-se de brilhantes, leva-se incessantemente ao theatro e aos bailes, e lá dáse-lhe sorvetes quando o calor é mais intenso, trata-se de cercal-a de mil fingidos cuidados ; na mesae de noite principalmente, pede-se lhe que coma muito, e de muitos pratos, e ás duas por tres vem uma boa indigestão, leva o diabo a velha, fica uma pingue herança, e vai-se procurar então a moça rica : chama-se a isto dous dotes — uma fortuna inteira. — Não ha nada como uma velha bem velha e bem rica!..

E portanto o bicho, o animal ainda mais feio do que o gigante Adamastor, a alma do outro mundo, a macaca enfeitada, não é isso, não ; não é : pelo contrario é um anjo Até aqui a solidariedade.

A divergencia nos detalhes era muito natural.

O Sr. Antônio pensa que casando com D. Violante ganhará tanto como se quebrasse duas vezes : vê avultar o seu credito na praça, premedita organisar uma empreza de lucros problematicos para os accionistas, e seguros para si, e suspira, lembrando-se dos gozos e das glorias de capitalista.

O Dr. Ambrosio vê-se deputado ; dá sota e basto na Camara; arranja empregos para os parentes, e duas ou três sinecuras para si; não vota em opposição nem pelo diabo, e com uma consciência em leilão, e com uma bocca aberta e capaz de engulir o mais monstruoso dos pães de ló da mesa do orçamento, alto e bom som de clara que é um homem independente, porque tem uma fortuna de trezentos contos.

O Sr. Claudino imagina-se jogando o Zansquenet tres noites por semana, e parando contos de reis em todas as damas ; e outras tres noites vê-se cercado de jovens espirituosas que o admirão, que o festejão, que o amão, e que o fazem atraiçoar a sua velha.

E quem paga tudo isto... as glorias do capitalista — a independencia do estadista — as orgias do dissoluto... é a fortuna de trezentos contos de reis de D. Violante.

Ah !... se as velhas tivessem juizo!...

A meditação dos três sublimes calculistas tinha durado meia hora.

Hão-de talvez pensar que foi pouco tempo para tão longas reflexões.

Ora !... em menos de meia hora também um deputado ou um senador escreve em cima da coxa uma emenda ou um artigo additivo, que põe em desordem a administração publica, ou em largo tributo o suor do povo.

Defronte dos tres calculistas, D. Violante cuidadosae attentaos observava, provocando a cada momento a vaidosa sobrinha, que nem sequer tolerava a idéa de uma lucta seria com sua velha tia.

Pobre moça! acreditava mais no seu espelho do que no cofre de ouro de D. Violante.

_ Menina! disse a velha; quem já teria ido dizer aos teus tres pretendentes que eu sou solteira e possuo trezentos contos de reis?...

— Porque, minha tia ?

— Ora porque!... não vês como elles me estão devorando com os olhos ?...

— Estão admirando a sua touca, minha tia, respondeu a moça sorrindo.

— A touca, e também os oculos, embora ; mas qualquer dos três morre já de amores por mim.

Clemência olhou para Violante, e vendo a seriedade com que ellafallava, não poude conter uma risada.

— Ah! tu zombas de mim, infeliz vaidosa? pois bem : eu queria poupar-te ainda esta noite ; uma vez porém que me desafias, juro-te que te has de retirar do baile com o desespero no coração.

— Que vai então fazer ?...

— O que tu fazes ; corresponder aos requebros e cumprimentos dos teus tres namorados.

— Minha tia... veja o que faz... não se exponha ao ridiculo...

— Que ridiculo! a riqueza é uma cousa muito seria, minha sobrinha, e ninguém, ri de um cofre de ouro, ainda mesmo que elle faça caretas.

— Já vio algum cofre fazer caretas ?...

— Tola, o cofre de ouro sou eu ; e quem te vai roubar os tres namorados não é a velha, é o seu dinheiro.

— Minha tia faz umaidéa dos homens...

— Amais justa que é possível : o mundo ou a sociedade, Clemência, transformou-se em um immenso mercado, onde tudo se compra e principalmente maridos.

— Ah! meu Deus !

— É verdade : não dansas hoje com aquelles senhores?...

— Danso : a terceira quadrilha com aquelle que está calçando as luvas...

Era o Sr. Antônio.

— A quarta com o que está roendo as unhas...

Era Claudiano...

— E a quinta com aquelle que está com as mãos sobre a barriga.

Era o Dr. Ambrosio : o futuro estadista, o homem de bossa politica, que já então afagava a barriga!!!

(continua...)

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