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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- Sr. Daniel, eu não pedi a sua opinião. 

O Daniel abaixou a cabeça. 

- Onde está sua mãe? perguntou a moça a uma das crianças.

- Estou aqui, senhora dona. 

- Já sabe o que fez este cavalo mal-educado? 

- Vi, sim senhora. Foi como da outra vez a cachorrinha com os pintos! 

- É verdade! Fiquei depois tão arrependida de a ter trazido! 

Mrs. Trowshy atalhou em francês, com um olhar de exprobração: 

- Allez! Vous l’avez fait exprès, par méchanceté! 

- Mais non! Disse a Guida sorrindo; e voltou-se para continuar a conversa com a mulher.

- Sabe? A Sofia depois daquela travessura quase morreu!

- De quê, gentes! 

- Quis morder o cavalo de um moço que passava, e levou um coice que a atirou da montanha abaixo.

- Jesus! 

- Foi bem feito para não ser tão travessa. Ainda está de cama. 

- É como o meu companheiro. Vive ali espichado, que não se levanta mais.

- Ah! Seu marido está doente? De quê? 

- Ninguém sabe; depois que o peixe lhe fugiu da rede, começou assim a desandar. 

- Onde está ele? Chame-o. 

- Qual! Não pode consigo. 

- Chame sempre. 

O Simão a custo arrastou-se até a porta da choupana. 

- O senhor amanhã há de levar peixe em nossa casa. Olhe lá. 

- O peixe conhece as minhas tarrafas! É à toa. 

- Verá. Eu sou muito feliz; obtenho tudo que desejo. Basta que eu lhe encomende o peixe, para o senhor tirar a rede cheia. 

- Mas é castigo, senhora. 

- Castigo de estar aí deitado, sem fazer nada, enquanto a pobre da mulher de amofina de trabalhar.

- Mas ele está doente! acudiu Gertrudes. 

- Doente de manha! 

Guida lançou o cavalo contra o pescador, que, vendo-se ameaçado pelas ferraduras de “Edgard”, arrancou-se à prostração para recuar de um salto, com uma rapidez aliás desnecessária, porque a mão firme da moça obrigara o cavalo a girar sobre os pés. 

- Não vê como ele salta? disse Guida soltando uma risada. Que vergonha! Curtindo a preguiça enquanto os filhos e a mulher não têm o que comer! 

A moça chamou o menino mais velho: 

- Venha cá, menino. Amanhã tome a rede e vá pescar, já que seu pai de nada serve. 

O pescador deu no ar um safanão; apanhou a tarrafa ao canto e foi resmungando estendê-la na cerca ao lado da choupana; Daniel chegou-se a ele para tratar a respeito da louça quebrada; e a Guida despedindo-se partiu com a mestra. 

Ricardo do interior da choupana ouvira todas as palavras da moça, e por várias vezes enfiando os olhos entre as fendas da taipa, estudara a expressão daquela fisionomia encantadora, que lhe aparecia então como uma espécie de mito. Havia com efeito nas ações e nas palavras da moça alguma coisa de estranho e confuso, que escapava à compreensão do jovem advogado, aliás espírito profundo e observador. A volubilidade do pensamento, saltando dos gracejos infantis às coisas mais sérias; o estouvamento que se notava em certas ocasiões, para logo ceder à reflexão; e finalmente as liberalidades com que ela desculpava suas travessuras, davam a essa fisionomia moral um caráter vago e indeciso. 

Era um espírito leviano ou sensato? Era um bom ou mau coração? Ou seria acaso uma e outra coisa: a luta perigosa da alma na transição da infância à juventude? Nessa crise surgem as paixões, que sopitam às puras crenças e as ilusões da inocência. Se a alma tem para ampará-la a educação e os germes de sã , oral, sai triunfante da luta: a virtude coroa a inocência. Se porém o coração não é defendido nem pelo princípio, nem pelo exemplo, sucumbe; e a flor da mocidade quando brota da infância, vem já eivada. 

À noite, quando conversavam esperando o sono, Ricardo disse a seu amigo: 

- Sabes, Fábio! Aquela Guida assim mesmo não é tão má, como nós pensávamos.

- Por quê?! 

(continua...)

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