Por José de Alencar (1875)
E o latagão derreou-se novamente no tronco do angico, despedindo de si um rôlo de fumo tão grosso, que parecia o da chaminé da herdade.
— Suponha você, Aleixo, que em vez de camaradas éramos dois sujeitos que se traziam de ôlho e que aproveitavam esta ocasião de se descartarem um do outro. Moirão começou a cantarolar um mote de sua composição:
Quando eu vim de minha terra
Eu era Aleixo pimpão;
Agora fiquei Moirão
Aquí neste pé de serra.
Debalde tentou Arnaldo cativar a atenção do minhoto: êle embrulhava-se lá na sua cantiga; não queria ouvir.
— Bem; já vejo que você não é meu amigo.
— Donde tirou isto? perguntou Moirão tornando ao sério. Olhe, rapaz, que eu não sou homem de dar nem tomares, e quando trato um tal de amigo, é devéras. Aquí neste sertão ninguém ainda se benzeu com êste nome senão um, que se chama Arnaldo Louredo; e ando por aquí já há uns pares de anos.
— Se fosse amigo verdadeiro de Arnaldo, não lhe recusaria o que êle pede.
— Fale-me neste tom, rapaz, que já o entendo. Então é sério?
— É um favor.
— Pois faço-lhe o gôsto.
Aleixo meteu o cachimbo em um esgalho. Apoiado fortemente sôbre o grosso ramo da árvore, a qual estremeceu com seu pêso, estirou os dois braços, que alongaram-se como os arpéus de um guindaste, para abarcarem o corpo delgado de Arnaldo.
Mas o sertanejo escapou-lhe ao arrôcho e galgando os ramos superiores da árvore, suspendeu-se a um deles, trançando os pés. Então deixou-se cair a prumo, agarrou o adversário pelas axilas, e com uma fôrça que não se esperava de seu talhe franzino arrancou o colosso do galho em que se apoiava.
Um instante o rapaz embalançou o corpanzil sôbre o precipício, onde parecia que iam ambos despenhar-se. Afinal, receando que o pêso enorme lhe rompesse os músculos, escanchou o latagão no ramo do angico.
Moirão segurou-se automaticamente à árvore. Sua fisionomia, de ordinário simplória, tinha nessa conjuntura uma expressão idiota. O êxito da luta o deixara estupefato. Por algum tempo ficou na mesma posição, imóvel e basbaque.
Até que arrancou-se a essa pasmaceira com um arremessão.
— Foi êste diabo! exclamou, batendo com a chanca no tronco do angico. Onde é que já se viu pegar um cristão queda de corpo em cima das árvores? Isto é para bugios ou caboclos, que tanto vale, pois são da mesma raça. No chão era outra coisa, rapaz.
— Experimentemos no chão. Não custa, disse Arnaldo com indiferença.
Desta vez o empenho era de Aleixo que ardia por tomar a desforra da surpresa. Prontamente escorregou pelos galhos e tronco da árvore até o chão. Saltando no meio de uma clareira, calcou os pés no solo com fôrça, e com o corpo rijo como o poste de que tomara o nome, disse:
— Ande agora para cá, rapaz, que há de ver o que é um barra.
Aleixo tinha razão. Em terra firme não havia fôrça de homem que o pudesse abalar, quanto menos tirá-lo do lugar. O mais vigoroso touro do sertão, êle o sustentava sem toscanejar, pela ponta do laço de couro cru.
As largas chancas do colosso pareciam fincadas no chão como as grossas raízes de uma gameleira, e o corpo obeso e direito figurava uma ponta de rochedo, que surdia da terra.
Arnaldo caminhou para o colosso e erguendo os braços entregou-se àquele grilhão vivo.
A fina compleição do talhe foi o que livrou-o de ser logo esmagado no arrôcho. Enquanto Moirão, cerrando-o ao peito, buscava estringí-lo como as rôscas de uma serpente, o mancebo colava-se ao adversário para atenuar a violenta pressão.
Apenas Aleixo acochou o corpo do outro, suspendeu-o aos ares, como faria com um toro de pita; porém ao mesmo tempo os dois braços do sertanejo esticaram-se para logo se retrairem rapidamente, e os punhos, como dois malhos de ferro brandidos por molas rijas, bateram no crânio do minhoto.
Uma nuvem de sangue cobriu os olhos do colosso que vacilava. Arnaldo amparou-o para que não tombasse e reclinando-o com uma solicitude para estranhar naquela circunstância, deitou-o de supino sôbre a relva.
Ao cabo de poucos instantes, Moirão tornou do desmaio, mas para cair no pasmo em que o deixara a primeira luta. Desta vez, porém, estava realmente assombrado. O que lhe acontecera não era coisa dêsse mundo; andava aí uma influência sobrenatural. Quem o derrubara não fôra seu camarada, o Arnaldo, mas a própria pessoa do demo na figura do rapaz. Nem haveria meio de persuadí-lo que êle, Aleixo, fôra vencido duas vezes numa queda de corpo, tão expeditamente, e ainda mais por um magriço. Eram artes do Tinhoso.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.