Por José de Alencar (1873)
Fincou bem os óculos no cavalete, encrespou o sobrolho sobre a testa, enfiou a carranca, e empinando-se no tamborete, esticou a folha de papel aberta a dois palmos do nariz.
Imediatamente a cara tabelioa decompôs-se toda, e embrulhou-se numa careta displicente, como uma bexiga assoprada, quando lhe falta o ar e se enruga.
O Ivo ficou frio.
— Sempre arranha no ofício; mas olhe, moço, esta letra casquilha e delambida pode servir lá para iluminações e grifarias; lá no foro não se admitem estas desenvolturas. Está entendendo?... Quer-se um talhe de letra corrida, e que seja composta e sisuda como se requer nas cousas de justiça. Uma escrita à-toa como esta, que aí todo o gato e sapato pode ler sem titubear, não vai bem nuns autos. Isto de papel forense, nem todos lhe metem o dente; é preciso ter prática. Faça-me uma letra pelo molde da minha, e vamos bem. É deixar correr a pena!
Ouviu o Ivo com espanto esta lição de caligrafia forense, e revoltado nele o sentimento do belo, ia protestar, quando pareceu-lhe que de novo entreabria-se a fresta da porta, e tanto bastou para dar-lhe a força de conter-se. Não eram aqueles gregotins, que o obrigavam a fazer e a decifrar, os elos que o prendiam à casa de Marta?
No dia seguinte tomou o Ivo conta da mesa de cedro em que o encontramos.
Ficava-lhe a dois passos a mesa de um outro escrevente, de nome Sabino, moço como ele, e que não se conformava com a presença desse intruso, pois vinha disputar-lhe o lugar de calouro do cartório, que ele até ali ocupara sem rival.
Tinha o Sabino vinte anos, e como esses vermes que se formam no coco, e tomam-lhe a feição e o gosto, parecia o rapaz um fato concebido e criado no cartório. Borrado de tinta e poento como uns autos, a cútis era de almaço amarrotado, os beiços arregaçados como as beiras do protocolo, e a cabeça arrepiada que nem as abas de baeta preta que desciam da mesa.
Quando se dirigia a seu canto, percebeu Ivo o olhar com que o examinava o colega, e conheceu que ia ter nele um amolador. Felizmente dividia-os um pano de prateleira, que interceptaria a espionagem.
XIII
UMA EDIÇÃO ANTIGA DO PRELADO MODERNO
Ao tempo destes acontecimentos, cuja importância talvez escape ao leitor indiferente, que não perscruta os arcanos da história, nem se ocupa do encadeamento dos fatos, ainda a leal cidade de São Sebastião não tinha bispo, e muito menos capelão-mor.
Mas por isso não deixava o povo fluminense de ser menos religioso, do que é hoje em dia; nem também de grassar pela recente colônia essa lepra social, que chamam com a maior propriedade de “lazarismo”, e que vai cada vez mais carcomendo a consciência da grande cidade imperial.
Era então administrada a igreja fluminense por uma simples prelazia criada desde 1557 por breve de Gregório III; e no ano de 1659 ocupava esse cargo o Doutor Manuel de Sousa e Almada, presbítero do hábito de São Pedro.
Nomeado por provisão de 12 de dezembro de 1655, tomara posse em julho de 1659, e sem apresentar o seu título de nomeação entrou a exercer a jurisdição eclesiástica na diocese, com aquele escândalo do abuso, que tão bem aclimatou-se cá na terra.
Era o Doutor Almada um padre às direitas. De mediana estatura e bem apessoado, envergava a batina e os hábitos talares com uns modestos ademanes que dão o cunho à elegância eclesiástica. Também não havia quem no altar fizesse com tanta graça uma genuflexão, nem suspendesse o sagrado cálice.
Doce e mansueto, sempre envolto em uma cordura que o vestia como sobrepeliz, o canônico doutor nunca se alterava. Assim deixou fama de sua grande afabilidade e prudência, do que se encontra notícia no almanaque histórico do Rio de Janeiro, interessante crônica de Duarte Nunes, tenente de bombeiros desta capital no fim do século passado. Felizmente ainda não havia a praga das gazetas; do contrário com a labutação de escrever notícias de incêndios, em louvor próprio, não teria o homem folga para esmerilhar antigualhas.
Voltando ao nosso doutor, havia quem dissesse que sob aquele bioco de alfenim que lhe açucarava o risonho semblante, dormia uma cólera fradesca, terrível em suas explosões; e tanto mais para temer quando, receosa do escândalo, ela subtraía-se a todas as vistas para estrebuchar em segredo, escondendo os seus esgares.
Destes acessos, parece que lhe ficava uma raiva fria e cruel, que ele embainhava no coração. Era como a brasa de ferro que se bate na forja, e da qual se tira a lâmina fina e buída do estilete.
(continua...)
ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.