Por José de Alencar (1860)
JORGE - Por que, Elisa?
ELISA - Não sei!... Há certas coisas que... Não posso explicar... Mas só ao senhor as diria!
JORGE - Tem razão, Elisa! Se há poder sublime é o da alma.
ELISA - Será talvez por isso... Eu conheço que é impróprio vir aqui! Porém ontem a desgraça me arrastou sem consciência do que fazia! Hoje foi a gratidão que me trouxe.
JORGE - Uma vez por todas, Elisa. Não tem que me agradecer.
ELISA - Oh! Sr. Jorge!
JORGE - Não, Elisa. O que fiz foi por egoísmo. Não defendia a minha felicidade? E se alguém deve ser grato, não sou eu?
ELISA - O que o senhor chama a sua felicidade, não é também a minha? Fui eu que a dei ou que recebi?...
JORGE - Deu-a.
ELISA - Recebi-a com a honra e a vida de meu pai. Bem vê que a gratidão me pertence e a mim só!
JORGE - De modo algum!
ELISA - Não ma roube!... É a minha única riqueza.
JORGE - E o amor, Elisa?
ELISA - Esse não me pertence! É seu!... Bem o sabe! Adeus.
JORGE - Até logo, então?
ELISA - Até logo, sim... Onde está Joana?
JORGE - Joana? Lá dentro... saiu... creio.
ELISA - Ainda hoje não a vi!... Desde ontem à tarde!...
JORGE - Esteve ocupada talvez.
ELISA - Ralhe com ela para não ser ingrata!... É verdade!. O que ficou de me dizer ontem?...
JORGE - Depois, Elisa!
ELISA - Também o senhor hoje vai deixando tudo para depois. Quando se realizarão todas as suas promessas?...
JORGE - No dia em que se realizarem as minhas esperanças.
ELISA - Ah!... Tem bem que esperar!
JORGE - Não há de ser tão má.
CENA II
Os mesmos e JOANA
ELISA - Aqui está ela!
JORGE - Joana!
JOANA - Meu nhonhô!... Como está?... Dormiu bem?... Não teve nenhum incômodo, não?... Ai, que já não podia!... Passar tanto tempo sem ver meu nhonhô! Adeus, iaiá.
ELISA - Estou muito agastada contigo!... Onde é que andaste?
JOANA - Eu! Aí mesmo, iaiá.
ELISA - Mas chegaste de fora... Ainda não tinhas visto Sr. Jorge hoje?
JORGE - Ainda não.
ELISA - O senhor ainda não saiu!...
JOANA - Não vê, iaiá... Sim! eu fui ontem de tarde... Aproveitei, como o tempo estava bom... Fui lavar uma trouxa de roupa numa chácara em Santa Teresa.
ELISA - Por isso é que não te vi mais ontem?
JOANA - Foi, iaiá... Foi por isso mesmo!... Mas nhonhô está triste! não fala com sua mulata.
JORGE - Já te falei, Joana. Estou esperando pelo doutor!
JOANA - Não tarda, nhonhô... Vem sem falta. Não se agonie.
ELISA - E eu não quero que me encontre aqui!
JOANA - Iaiá já vai?... Então quando é o dia!
ELISA - Que dia?... Começas com as tuas graças!
JOANA - Ora, isso é uma coisa tratada. Não é, nhonhô?
JORGE - Só falta o que tu sabes, Joana!
ELISA - O quê?... Não me dizem?
JORGE - É um segredo!
JOANA - Iaiá quer saber?
ELISA - Quero, sim!... É a meu respeito?
JOANA - Escute, iaiá... No ouvido. É o vestido que está se fazendo.
ELISA - Mentirosa!... Cuidas que eu acredito?
JOANA - Se eu é que hei de cosê-lo com estas mãos!
ELISA - Antes disso tens muito que coser.
JOANA - O enxoval! Não é, iaiá?
ELISA - Joana! Por tua causa não hei de vir mais aqui. (Sai.)
CENA III
JOANA e JORGE
JORGE - Como te tratou aquele homem, Joana? Não imaginas quanto me arrependi... Entretanto se não o fizesse, quem sabe o que aconteceria!
JOANA - Não tenha cuidado, nhonhô! Joana vive em toda a parte... O que tem é que sente um aperto de coração quando não pode ver seu nhonhô!
JÓRGE - Também eu! Toda a noite não pude sossegar... Faltava-me alguma coisa.
JOANA - Deveras!... Nhonhô sentiu que sua Joana se fosse embora!... Como nhonhô é bom! Como quer bem à sua Joana!
JORGE - Pois duvidavas?
JOANA - Então eu não sei que nhonhô me estima!
JORGE - Muito!... E o doutor que não chega!
JOANA - Não pode tardar. Enquanto nhonhô espera, eu vou endireitar isto... Como há de estar tudo numa desordem!
JORGE - Decerto!... não estando tu aqui...
JOANA Por isso eu hoje, logo que acordei, pedi a Nosso Senhor Jesus Cristo, primeiro pela vida e saúde de meu nhonhô, de iaiá D. Elisa, do Sr. Gomes, do Sr. doutor; depois prometi à Nossa Senhora uma camisinha bordada para seu menino Jesus dela, o que está na igreja do Sacramento, se não deixasse dar nove horas em S. Francisco de Paula sem que eu viesse ver meu nhonhô, tomar a benção a ele e fazer seu serviço para que não sentisse a falta de sua Joana.
JORGE - E sou eu que hei de cumprir a tua promessa.
(continua...)
ALENCAR, José de. Mãe. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7546 . Acesso em: 21 jan. 2026.