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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Por mim. Tinha-mo dito a minha alma. Eu pensava nela... – vê que doidice! – pensava em Ângela imaginando a felicidade do homem que ela amasse. Era uma inveja que me envergonhava, por isso ta não confessei. Até de mim a quisera eu esconder; mas o absurdo lutava com o absurdo, e não sei quem venceu... Um dia sonhei que a via chorando, e acordei a chorar. Deste este momento, senti que adorava Ângela. Isto foi há três anos, lembras-te? Fui para o Porto, e lá fiquei todo ano. Quando voltei e a vi, desejei morrer. Um dia entrou-me no coração a certeza de que era amado... Por quem? perguntas tu, Joana; e bem vejo que estás sorrindo da vaidade do teu pobre irmão!... eu te digo como foi... Estávamos na igreja matriz, nas trevas do sábado santo. Eu sabia em que teia de altar ela tinha ajoelhado; mas entrevia-lhe escassamente o vulto. Ao tanger da campainha, fez-se a claridade súbita no templo, e vi os olhos dela cravados nos meus, que se abaixaram respeitosos. Sabes tu que delírio de piedade me assalteou? Ajoelhei, quando todos se levantavam e davam boas-festas. Ajoelhei no maior sombrio da nave... e chorei. Aqui tens a revelação que os olhos de Ângela ensinavam à minha alma... Que pensas tu agora de mim? – prosseguiu o moço, após longa pausa de reconcentração. – Receias que eu apareça diante de Ângela com o colo erguido pela vaidade de ser amado? Cuidarás que eu principiei a acastelar ilusões por esse céu além, e a descer delas para o paradoxo dum casamento? Mal me conheces então, Joana! Vê se me compreendes isto... Acho sempre o teu espírito aberto a certas coisas confusas que eu digo, e não sei dizer mais inteligivelmente. Olha, minha irmã, eu não sei se o estudo envelhece o coração; figura-se-me que sim. A alma não; que essa é imortal, inalterável e inviolável à destruição do tempo. Em mim conheço o coração atrofiado, e a alma viventissima. Como homem de alma adoro Ângela, ilumino-a à luz que radia das minhas crenças em Deus. Como homem de coração não a sacrificaria, nem me sacrificaria. Impulso que me arroje a querê-la ouvir dizer que me ama não o sinto; desejo de encontrar aquela bela imagem, no silêncio do espaço em que a tenho visto nas minhas noites de vigília, entender os murmúrios que ressoam o seu nome, vesti-la das aéreas roupagens que sonhou a exaltada poesia do oriente, é isso, é isso o meu amar, o meu delirar, a minha inofensiva vertigem, que não tem nada que ver com o nascimento, nem com os haveres de Ângela. Não sei quem é, não conheço, não quero conhecer a filha do general Noronha, a rica herdeira, a fidalga que tem no seu paço de Gondar retratos de avós que fundaram a monarquia portuguesa. Quem eu conheço e adoro é uma mulher que se chama Ângela, que tem no rosto uma luz celestial, e essa luz ma representa de geração divina. Ali há sinal de origem mais alta. Eu vou buscar-lha no céu; não a procuro na fundação da monarquia. Porque receias tu, então, que eu perturbe o sossego da fidalga opulenta, se eu não lhe quero nem os brasões nem o oiro? Pode ela dar-me a alma sem lesar os seus pergaminhos nem declinar o direito de suceder nos castelos dos senhores feudais seus avós? Pode. Então, minha irmã, deixa ao pobre sonhador a sua inocente felicidade, e faz de conta que o defensor de Ângela não é o anjo da guarda, sou eu.

XI SONHOS E ESPERANÇAS

Como foi que a vigilância dos dois anjos-custódios de Ângela deixaram passar a primeira carta?

Denunciaremos à moral pública certa fragilidade do estudante.

O escrever-lhe não constava do programa; nem isso era mister para homem que se abastava com o ideal encontro no silêncio das noites estreladas. E, de feito, ele não escrevia cartas à imitação de umas que o vulgo mais seleto escreve, e suja e profana nas mãos encodeadas dum aguadeiro.

Francisco, no calado da noite, voltava contemplativo e vagaroso da costa marítima, ou descia dos pinhais cerrados de Agra. Aquelas noites estivas da gentilíssima Niana, que se reclina à beira-mar, sob um pavilhão de verdura, e se remira no espelho do seu Lima, são noites para poetas, e poetas se fazem ali súbito inflamados por tantas maravilhas da natureza, raro cumuladas num só paraíso. Debaixo de céu tão inspirativo, e terra tão espontânea de murmúrios, de músicas, de perfumes, de silêncios que se entendem e ouvem no coração, ali, onde não se faz mister a forma para adorar a idéia, é que o poeta de Ângela adorava idéia e forma também, apesar dos seus incorpóreos devaneamentos.

Na volta da montanha ou das ribas do mar, continuava os sonhos, à lâmpada do seu quarto, e escrevia-os, justamente num caderno com frontispício que dizia SONHOS.

O merceeiro viu, uma vez, a costaneira com o estranho título; abriu-a, leu duas linhas, fechou-a como os filólogos modernos em consciência deviam fechar os códices coptas, e disse à esposa:

― Teu irmão está ali, está doido. Escreve de dia os sonhos que tem de noite. Pobre moço!

Joana foi ver também. Leu e entendeu muito pela rama.

Aconteceu perguntar D. Ângela à sua mestra de bordar o que fazia o irmão, quando não lia.

― Escreve num grande livro em branco uma coisa chamada SONHOS – respondeu Joana.

A fidalga pediu, rogou e suplicou à costureira que lhos deixasse ver.

Joana hesitou muitos dias em denunciar a sua curiosidade a Francisco; todavia, importunada por Ângela, referiu ao irmão a sua imprudência.

Fraqueza congenial do homem! Teve o rapaz uns assomos de júbilo com os rogos de Ângela! Releu os seus SONHOS, deu o manuscrito à irmã, e disse-lhe:

― Pede-lhe que rasgue esses papéis depois de os ler.

Ângela pairava em regiões sobpostas à do seu espiritual adorador. Adivinhou mais do que percebeu. Decorou até o que não entendia.

Vem de molde o encher-se um vácuo importante desta história. A educação literária da filha de D. Maria d’Antas era igual à do capelão que lha transmitira. Escrevia com a ortografia do padre, quase nunca racional. Lia os livros de sua tia, que se prezava de perceber a Recreação filosófica do padre Teodoro de Almeida, e relia todos os anos o Feliz independente do mesmo congregado, o Belizário de Marmontel, e outros livros, cujas passagens notáveis andavam de memória na família.

Que montava isto? O amor de Deus infundiu a máxima ciência nos apóstolos ignorantes. O amor do homem arroteia e enfrutece, a súbitas, o mais maninho entendimento de mulher. Fenômenos do amor. O divino, florejando e aromatizando mártires e santos, ala os amados à glória. O humano com seus relâmpagos que abrasam, e perfumes que embriagam e asfixiam, despenha-se nos recôncavos do inferno, que neste mundo se chama o desesperar.

Ângela sentiu destecer-se o escuro de sua ignorância ao compasso da leitura noturna que fazia dos SONHOS. Aquele livro não lhe ensinava história, nem gramática, nem geografia, e outras coisas que, não sabidas, constituem a ignorância humana. O que ela aprendia era o Verbo, não o verbo que se conjuga; mas a palavra, o som que vibra, a corda virgem, a translucidação do sentir inexpressável, o definir da idéia confusa, a linguagem um tanto mística desta religião do amor que precisa revelação dos iniciados. Enfim, o Verbo.

(continua...)

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