Por Euclides da Cunha (1909)
Mesmo no Acre propriamente dito, onde a densidade maior das árvores de borracha permite a abertura de 16 "estradas" numa légua quadrada, toda esta área capaz de sustentar, de acordo com a unidade agrícola corrente, cinqüenta famílias de pequenos lavradores, requer a atividade de oito homens apenas, que lá se espalham e raramente se vêem. Calcule-se um seringal médio, de duzentas "estradas": tem cerca de 15 léguas quadradas; e este latifúndio, que se povoaria à larga com 3.000 habitantes ativos, comporta apenas a população invisível de 100 trabalhadores, exageradamente dispersos.
É a conservação sistemática do deserto, e a prisão celular do homem na amplitude desafogada da terra.
Ante estes lineamentos de um quadro social tão anômalo, não é apenas opinável a letalidade do Acre. O que ressalta, irreprimível, é o conceito de uma salubridade capaz de garantir tantas existências submetidas a tão imperfeito regime. Acredita-se até que as características tropicais meramente teóricas, se reduzem aos paralelos de baixas latitudes, de 8º a 11º, que interferem a região; e aquilatando-se a influência moderadora sem dúvida exercida pela estupenda massa de florestas, que a circulam e a invadem, chega-se a concluir que ulteriores observações meteorológicas, mal iniciadas agora, talvez lhe apaguem nos mapas a isoterma de 25 graus que a esmo lhe traçaram.
Porque a despeito do incorreto e do vicioso do povoamento e da vida, a sociedade recém-chegada aclima-se e progride.
Ao mais incurioso viajante que perlustre o Purus não escapa a transformação lenta e contínua.
O primitivo explorador vai, afinal, ajustando-se ao solo, sobre o qual pisou durante tanto tempo indiferente. As suas barracas desafogam-se nas derrubadas; e já nas praias, que as vazantes desvendam, já nos "firmes", a cavaleiro das cheias, se delineiam as primeiras áreas de cultura. Os tristonhos barracões cobertos de folhas de ubuçu, transmudam-se em vivendas regulares, ou amplos sobrados de pedra e cal. Sebastopol, Canacori, S. Luís de Cassianã, Itatuba, Realeza, e dezenas de outros sítios do Baixo-Purus; Liberdade e Concórdia, nos mais longínquos trechos, com as suas casas numerosas, que se arruam às vezes ao lado de pequenas igrejas, ampliam-se em verdadeiras vilas. São a imagem material do domínio e da posse definitiva.
A evolução é, deste modo, tangível.
Delatam-na até os nomes originais, extravagantes alguns, mas eloqüentes todos, das primitivas e das recentes fundações. Na terra sem história os primeiros fatos escrevem-se, esparsos e desunidos, nas denominações dos sítios. De um lado está a fase inicial e tormentosa da adaptação, evocando tristezas, martírios, até gritos de desalento ou de socorro; e o viajante lê nas grandes tabuletas suspensas às paredes das casas, de chapa para o rio: Valha-nos Deus, Saudades, S. João da
Miséria, Escondido, Inferno... De outro um forte renascimento de esperanças e a jovialidade desbordante das gentes redimidas: Bom Princípio, Novo Encanto, Triunfo, Quero ver!, Liberdade, Concórdia, Paraíso...
À medida que se sobe o rio a renascença se acentua. Passada a confluência do Acre vai-se, em vários trechos, entre as estâncias que se defrontam ou se ligam às margens, como se percorresse cultíssima paragem há muito descoberta. Nada mais do tosco e do brutesco dos primitivos abarracamentos.
Em Catiana, em Macapá, como nas demais a montante, até à última, Sobral, com a minúscula plantação de cafeeiros que lhe bastam ao consumo, nota-se em tudo, da pequena cultura que se generaliza, aos pomares bem cuidados, o esforço carinhoso do povoador que aformoseia a terra para não mais a abandonar.
E os homens são admiráveis.
Vimo-los de perto; conversamo-los.
Guardamo-lhes os nomes e os apelidos bizarros — do opulento CabocloReal, da Cachoeira, ao gárrulo Cai N’água das cercanias do Chandless; do velho João Amarelo, que fundou Catai, e leva ainda, sem titubear, pelos torcicolos das "estradas", os seus setenta anos trabalhosos, ao destemeroso Antônio Dourado, da Terra Alta, impecável atirador de rifle, cujos lances de ousadia nas arrancadas de 1903, com os caucheiros, são uma página vibrante de bravura.
Considerando-os, ou revendo-lhes a integridade orgânica a ressaltar-lhes das musculaturas interiças, ou a beleza moral das almas varonis que derrotaram o deserto — e recordando as circunstâncias lastimáveis, que os rodearam nos primeiros dias do povoamento ou que ainda os rodeiam, porventura minoradas — não se lhes explicam as existências vigorosas sob regime climatológico tão maligno e bruto como o que se fantasiou no Acre.
Não vinga, ademais, o argumento de que o sertanejo nortista, ou mais incisivamente, o jagunço, dotado da abstinência pastoral e guerreira do árabe, se tenha apercebido para o novo habitat, sob a disciplina inexorável das secas, além de haver-se deslocado seguindo mais ou menos os paralelos do torrão nativo
(continua...)
CUNHA, Euclides da. À Margem da História. 1909. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16624. Acesso em: 17 jun. 2026.