Por Lima Barreto (1905)
A lógica do jesuíta não foi suficiente para demover aqueles rudes. De manhã, no dia seguinte, logo ao romper d’alva o chefe veio ao padre:
— Voltai, reverendo, voltai sobre os vossos passos. E a intimação feita a berros pelo ajuntamento todo foi tão peremptória e enérgica que o jesuíta no dia seguinte retomava o caminho pelo qual jornadeara quatro longos meses.
A volta durou mais da metade que a ida. Foi penosa, mas, de esforço em esforço, a missão chegou afinal ao ponto de partida.
O alvoroço da invasão do Rio enchia a vila. Apesar de já se ter dado há meses, as notícias não eram seguras.
Padre Jouquières recolheu-se ao Colégio, onde dias depois recebeu um dos estudantes do Colégio do Rio que tomara parte nos encontros.
— Onde foi o desembarque? indagava um outro jesuíta ao rapaz.
— Na Guaratiba. Marchou oito dias; e eu me gabo de haver sido um dos primeiros a atacá-lo.
— Onde?
— Na lagoa da Sentinela, com Bento do Amaral Gurgel. É bravo o Bento, meus padres! Com dois deles não haveria franceses capazes.
— E não o combatestes mais? interrogou o padre Jouquières.
— O francês desceu por Mata-Cavalos, frei Meneses o atacou no Desterro e nós, com o Bento, esperamo-lo pelas ruas...
— Não se deteve Duclerc em parte alguma? continuou a interrogar o jesuíta francês.
— Qual, padre, vinha que nem um raio. Na Rua d’Ajuda parou...
— Em que lugar?
— Numa casa, onde entrou...
— Que casa?
— Não me recorda agora...
Espere... Foi na casa do Almoxarife Albernaz, casa essa que foi destruída por uma bala do Castelo.
— E o almoxarife e a mulher onde param?
— Albernaz morreu na explosão do paiol da Alfândega e...
— E a mulher?
— A mulher foi morar na Rua do Vaz Viçoso, próximo à casa do tenente Gomes da Silva, onde hoje habita Duclerc.
O antigo marquês fez-se pálido, depois rubro. A custo continha a cólera. Compreendeu o modo por que os dois lhe ludibriavam; e antes que os seus interlocutores percebessem o seu estado d’alma, disse pausadamente:
— Amanhã irei para S. Sebastião. Padre, fazei preparar as malas para a madrugada.
Correio da Manhã - quinta-feira, 25 de maio de 1905
OS SUBTERRÂNEOS DO MORRO DO CASTELO
A atenção pública acha-se agora, mais que nunca, presa à descoberta das galerias do morro do Castelo; as explorações criteriosamente iniciadas e levadas a efeito pelo Dr. Pedro Dutra de Carvalho têm dado os melhores resultados e já se vai afirmando no espírito dos mais cépticos a crença de que no bojo da imensa mole de argila alguma coisa existe de precioso, senão os tão falados apóstolos de ouro, pelo menos armas do tempo, objetos de culto, móveis, instrumentos de suplício, todo um belchior secular, que poderá fornecer ótimos instrumentos para a reconstituição de uma época histórica.
A terceira galeria descoberta, já conhecida por galeria dos capuchinhos, está explorada numa extensão de oitenta e tantos metros.
Visitamo-la ontem, acompanhados do amável engenheiro que dirige os trabalhos.
O ponto inicial é uma pequena sala de forma trapezoidal, de teto em abóbada de berço; esta sala comunica-se com uma outra galeria secundária, ao que parece, destinada à prisão.
A passagem da sala para esta galeria faz-se por um pequeno orifício que mal dá passagem a um homem.
A galeria principal estende-se em linha reta num percurso de sessenta metros; aí desvia-se para a direita, estando, porém, esta derivação obstruída.
No ponto justo em que termina a parte reta da galeria, existe uma grande pedra que se supõe ser uma porta disfarçada; esta pedra ia ser hoje removida.
Os trabalhos têm sido executados com alguma morosidade; a atmosfera subterrânea é abafada, quentíssima.
Dificilmente pode um homem trabalhar, pela exigüidade do espaço.
O terreno aí é pegajoso, denotando a presença de hidrato de alumínio.
Têm sido encontrados diversos objetos curiosos nas escavações, entre os quais salienta-se um grande candelabro de ferro, que alumiava a pequena sala a que nos referimos acima.
É também interessante uma grande botija azul, em que se vê gravado, como breveté, um sino.
Além desses objetos encontraram-se ossos humanos, balas esféricas, um cano de garrucha, um grosso tubo de ferro, uma chave, etc., objetos estes que se acham expostos em nossa redação.
Correio da Manhã - sexta-feira, 26 de maio de 1905
OS SUBTERRÂNEOS DO MORRO DO CASTELO
D. Garça
IV
O Encontro
O jesuíta chegara ao Rio de Janeiro com a alma despedaçada pelo ciúme, numa sede horrível de vingança.
(continua...)
BARRETO, Lima. O subterrâneo do Morro do Castelo. Brasília: Ministério da Educação, Domínio Público, s.d. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?co_obra=16831 . Acesso em: 08 maio 2026.