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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

— Hão de acabar.

— Olha, queres saber de uma coisa: o Xisto não vai.

— Corre isso.

— Pois eu lhe digo que sim. Está tudo preparado... Bastos ainda não deu o sim, mas quem vai é o Bentes.

— Ouviste dizer isto?

— O Manoel não te disse nada?

— Nada. E o Álvaro?

— Álvaro não diz coisa com coisa, mas ouço as conversas deles... Quem vai mesmo é o Bentes... Quem fez a Republica não foram eles? Então fizeram a Republica para os outros? Não achas?

— Certamente. Não nos tem adiantado nada. Os paisanos tomaram os lugares, os bons, e nos deixaram os ossos. Uma ova!

— Vê tu o que ganha o Álvaro. É soldo de um oficial, de um engenheiro? Qualquer civil aí, que não sabe o que ele sabe, ganha contos de réis! Não tem lugar nenhum!... É um desaforo!

— Mas Bentes quer?

— Bentes quer, mas tem medo. Sabes bem que quem o faz querer não é ele, é o Gomes.

— Os militares sempre provam bem.

— E são honestos!

— O que era preciso, minha filha, era melhorar também o montepio.

— De tudo isso, eles vão tratar; e agora é que são elas!

— Se o “velho” não quiser — como há se der?

— Contra a força não há resistência, Anita. Sabes bem disso.

O café foi servido e ambas deixaram um instante de conversar. Mme. Foirfable perguntou:

— Quem será o Ministro da Guerra?

— Não sei; mas Álvaro não pode deixar de ser promovido. Agora é por antigüidade e merecimento. O Supremo já disse... Queres ver o Almanaque?

— Não é preciso... Sei bem... Não vai ser ministro o Costa?

— Qual Costa? Costa está barrado.

— Não sabes nada?

— Nada.

— Se fosse o Manoel?

— Era bom... O Álvaro estava feito... Mas ele não quer lugar no ministério, quer civil.

— Isto arranja-se.

— Tudo vai ser militar.

Acabaram de tomar café e Mme. Forfaible ainda pediu que D. Anita se interessasse junto a Neves Cogominho pela nomeação de um parente. Como se fosse hora adequada, Mme. Forfaible dirigiu-se ao Senado. Não estava certa de obter, mas servia à amiga e podia ver o que havia. Não lhe foi difícil falar ao pai de Edgarda, que prometeu interessar-se; sobre política, porém, nada pode adiantar. Observou as fisionomias dos contínuos, dos solicitantes, dos jornalistas e parlamentares; notou o tom das conversas aos cantos da janela, e pareceu-lhe que havia alguma coisa de anormal. Esses rumores, esses cochichos, ela os ouvia desde muito tempo; mas agora, depois das revelações da amiga, Anita já sabia do que se tratava. Era preciso aproveitar. O marido devia esforçar-se por ser ministro e viu na coisa uma promoção.

Não tinha intenção de vir, mas as sombras, as vitrinas, a agitação da rua do Ouvidor atraíam-na como para um afago. Mergulhou nela sentindo a volúpia de um banho morno. Já pisava de outra forma, já olhava sem “morgue”; sentia-se bem no seu elemento. Não tardou a encontrar conhecimentos. Parou um pouco a falar com o poeta Albuquerque, um poeta curioso, só poeta nas salas, só conferencista nas salas, teimoso em sê-lo por toda a parte, mas mesmo os que o conheciam nos salões, não admitiam que o fosse fora deles. Mme. Forfaible gostava de falar com ele e gostava de seus versos, mas os compreendia melhor quando os recitava nas casas de família, entre moças e senhoras, de casaca ou “smoking”, com o seu grande olhar negro quase parado, sem fixar-se em nenhuma fisionomia.



(continua...)

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