Por Aluísio Azevedo (1887)
— É que eu não posso ouvir falar assim comigo!... bem sabem que estou nervosa! bem sabem que estou doente!
— Sim, sim, tens razão... Passou! Passou!
E o Conselheiro, deveras surpreso com aquelas esquisitices da filha, espantado por vê-la fazerse tão humilde, tão coitadinha, puxou-a brandamente para junto de si e afagou-a como se estivesse a consolar uma criança.
— Acabou! Acabou!
Magdá chorava com a cabeça pousada no colo dele.
— Então, então, não te mortifiques... Aqui ninguém faz senão o que for do teu gosto... Vamos, não chores desse modo...
Qual! o resultado foi passar pior esse dia e aumentarem as suas rabugices no dia imediato; — Que desejava morrer! — Acabar logo com aquela miserável existência! Que ali todos já estavam fartos de a suportar! Que todos se aborreciam com ela e procuravam meios e modos de contrariá-la, só para ver se a despachavam mais depressa! Que bem quisera recolher-se a um convento, mas não lhe deixaram! Pois antes tivessem consentido, porque agora até a própria criada parecia fazer-lhe um grande obséquio, quando era obrigada a ter um pouco mais de trabalho com ela.
No fim de contas apareceu-lhe de novo a tal febre de caráter especial; agora, porém, com delírios e movimentos luxuriosos, sobrevindo uma profunda letargia, contra a qual eram inúteis todos os recursos do médico.
Parecia morta. No fim de longas horas de esforços, o Dr. Lobão, já desesperado, teve, a contra gosto, de aceitar o conselho de um colega ainda moço e de idéias modernas — a compressão do ovário.
Efeito pronto: Magdá tornou a si depois da operação, livre já das impertinências e infantis rabugices, que tivera antes da febre. Voltara à sua habitual gravidade, às suas maneiras austeras de fidalga enferma; mas começou a sentir-se vagamente magoada nos melindres do seu pudor: queria parecer-lhe adivinhava que, durante a inconsciência da sua anestesia, o insolente do médico a devassara toda; sentia ainda nos lugares mais vergonhosos do corpo a impressão de mãos estranhas que os apalparam e comprimiram. E a idéia de que alguém a vira descomposta e que lhe tocara nas carnes, revoltou-a como imperdoável ultraje feita à sua honra e ao seu orgulho de mulher pura. Todavia não se achava com coragem de interrogar ninguém a esse respeito, e, foi tal o seu vexame, que a infeliz escondeu-se no quarto, a chorar de acanhamento e raiva.
— Oh! exclamou o doutor, enquanto o Conselheiro lhe deu conta disto: — Eu punha-a esperta e sã em pouco tempo, se me dessem carta branca para isso! A questão dependia toda do enfermeiro que lhe arranjasse! Aquelas lamúrias e aquelas lágrimas ir-se-iam logo embora com a primeira semana de lua de mel!
No entanto, Magdá continuava a sofrer: a tosse não a deixava senão quando ela se recolhia à cama; deitada não tossia nunca, mas, em compensação, aparecia-lhe uma espécie de asma. Agora, uma das suas manias era pôr-se à janela do quarto e aí permanecer horas e horas esquecidas, a ver o serviço da pedreira que ficava defronte, olhando muito entretida para os cavoqueiros, e ouvindo a toada que eles gemem quando estão minando a rocha para lhe tocar fogo. Parecia gostar de ver os trabalhadores; como se lhe aprazia aquela rica exibição de músculos tesos que saltavam com o peso do macete e do furão de ferro, e daqueles corpos nus e suados, que reluziam ao sol como se fossem de bronze polido.
E, quando alguém ia chamá-la para a mesa ou para conversar com o pai, respondia zangada, sem tirar os olhos da pedreira:
— Não posso ir! Deixem-me!
E se insistiam: — Ó senhores, que maçada! Não posso ir, já disse! Estou doente! Oh!
Depois do ataque de letargia, foram voltando pouco a pouco s esquisitices de gênio e os caprichos de crianças estragadas com mimos; quase nunca se desprendia do quarto e, nas poucas vezes que lhe surgia por lá alguma camarada dos bons tempos, por tal modo se mostrava seca e até grosseira, que a amiga tratava de abreviar a visita e saía sem a menor intenção de voltar.
Nem mesmo a própria criada queria já suportá-la, apesar de muito bem paga. "Pois não! Era uma impertinência todo dia! um rapelão por dá cá aquela palha! — Se a gente não ia logo correndo saber o que serrazina queria quando chamava — tome sarabanda! — Oh! Insuportável! Uma verdadeira fúria! De mais a mais a "barata velha" ultimamente também dera para ficar pior, e havia quase duas semanas que se não desgrudava da cama nem à mão de Deus Padre!"
Pobre velha! Consumia-se numa infernal complicação de moléstias; eram intestinos, era cabeça, eram pernas, era o diabo! Parecia uma decomposição em vida: fedia como coisa podre! Já se não alimentava pela boca; os seus gemidos eram arrotos de ovo choco, e os humores que ela expelia por toda a parte do corpo empesteavam a casa inteira.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O homem. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7408 . Acesso em: 18 mar. 2026.