Por Aluísio Azevedo (1890)
As cadeiras dos camaradas estendiam-se em quatro grandes semicírculos, pela sala negra, abafada, onde a voz ecoava longamente, não achando por onde sair. E reinava em tudo aquilo um pavor, que pesava na alma...
Já quase todas as cadeiras estavam ocupadas. Todos os camaradas vestiam túnica negra, com o símbolo vermelho ao peito.
Quando o Satanás entrou, a primeira pessoa que viu, foi d. Bias.
O fidalgo espanhol era a figura mais sinistra de toda a sala. Estava a um canto, encarapitado na cadeira, com os joelhos pontudos e salientando-se na túnica, e com um eterno movimento de queixos, como se estivesse murmurando uma oração. Quem o via, pensava que d. Bias estava rezando. Engano: d. Bias estava comendo biscoitos.
O Satanás parou e deixou cair pesadamente a mão sobre o ombro do carcereiro de Branca. D.
Bias ficou pálido como um cadáver, batendo os dentes e unindo as mãos, num gesto de súplica. Mas, o Satanás fez-lhe um sinal de ameaça e foi sentar-se no seu lugar.
Ah! não tardava muito, não tardava muito! Em breve a porta se abriria, e ele apareceria, confiado e calmo, sem esperar que daquela casa partisse a sentença da sua condenação. E quando d. Pedro - o poderoso - se visse diante daquele oceano de quinhentas cabeças, todas agitadas de ódios, todas regularmente e implacavelmente sacudidas numa negação absoluta de apoio, ele, Satanás, o fraco, o vencido, o cão rafeiro, exultaria na sua fraqueza e na sua pequenez...
Mas a hora aproximava-se. O acólito - Máximo Régulo - fora tomar o seu lugar no estrado. Um sino vibrou três pancadas, agudas e rápidas. Todos se levantaram. Um grande silêncio pesou na sala. A porta abriu-se de par em par. E, só, vestido como os outros, na túnica negra e simples de camarada, d. Pedro entrou serenamente empunhando a sua insígnia de Archonte Rei - um bastão de marfim, marchetado de ouro. A fisionomia do príncipe não revelava a menor agitação interior. Caminhou até à mesa.
- Deus te guarde, camarada! elevou-se a voz do acólito.
- Leve-te o diabo, traidor ! - soou no grande silêncio da sala apavorada a voz soturna dopríncipe.
E, antes que alguém tivesse tempo de voltar a si da surpresa, d. Pedro abriu a pasta que se achava sobre a mesa revolveu os papéis, guardou-os consigo.
E, erguendo o bastão, gritou:
- Saiam!
XI
ÀS CLARAS
Quando o príncipe saiu de dissolver a Sociedade Tenebrosa do Apostolado, onde penetrara com a mesma audácia de Cromwell no parlamento inglês, o Satanás foi acompanhá-lo, já precavido de respostas contra as naturais recriminações que devia receber, desejoso de não se desligar nunca daquele cuja queda vivia preparando.
D. Pedro, sombrio e taciturno, caminhando para o Paço, apressadamente, não lhe dizia sequer uma palavra. E os dous seguiam, como nas noitadas de sempre, um ao lado do outro, muito amigos para os raros transeuntes que os viam e que deles respeitosamente se afastavam.
E, chegados que foram a régia habitação, penetraram, como sempre, por uma porta escusa, situada por baixo do passadiço que ligava o palácio ao velho convento do Carmo.
Nada, enfim, parecia indicar qualquer alteração na vida de ambos. A mesma ceia, que os esperava todas as noites, estava servida num aposento contíguo, térreo e um pouco úmido, espaçoso e cheio de armários.
Sentaram-se.
Depois da primeira libação, d. Pedro encheu novamente os copos, e, erguendo o seu, disse, maliciosamente, com um sorriso triste de homem que assistiu ao despedaçamento das próprias ilusões:
- A tua amizade! Satanás.
- A nossa!
- Sim. À nossa. Eu acredito na reciprocidade de sentimentos entre nós. Liga-nos um mesmodestino. E já a velha feiticeira do Valongo tinha profetizado que algum dos dous devia morrer pela mão do outro.
E acrescentou:
- Mas, dize-me cá uma cousa! Por que me odeias tu?
- Senhor!
- Não. Não negues. Nem é próprio de ti, nem eu acreditaria nas tuas afirmações e nos teusprotestos.
O Satanás fez um gesto vago e incerto de significação.
- O teu ódio! continuou o príncipe, eu o tenho sentido de certo tempo a esta parte, pertinaz einsistente sobre mim. Eu o reconheci até no teu andar e na tua voz, por essas longas noites que temos vivido juntos derradeiramente.
- Qual, senhor! Eu sou novamente vítima de intrigas. O príncipe bem sabe que foi sempreinvejada a confiança que me dispensava. E agora, como das outras vezes, seja-me permitido esperar que eu saia desta aventura reabilitado, como sempre me tem acontecido, na sua estima.
- Bem vontade tinha eu que assim fosse. Tu não sabes como é triste e amargo o bruscodespedaçar das amizades longamente cimentadas. Tu não sabes como faz sofrer o espetáculo da ingratidão humana.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O esqueleto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7409 . Acesso em: 18 mar. 2026.