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#Romances#Literatura Brasileira

O Cortiço

Por Aluísio Azevedo (1890)

— Abusam, porque tenho de olhar pelo negócio lá fora...

— Comigo aqui é que eles não fariam cera. isso juro eu! Entendo que o empregado deve ser bem pago, ter para a sua comida à farta, o seu gole de vinho, mas que deve fazer serviço que se veja, ou, então, rua! Rua, que não falta por ai quem queira ganhar dinheiro! Autorize-me a olhar por eles e verá!

— O diabo é que você quer setenta mil-réis... suspirou João Romão.

— Ah! nem menos um real!... Mas comigo aqui há de ver o que lhe faço entrar para algibeira! Temos cá muita gente que não precisa estar. Para que tanto macaqueiro, por exemplo? Aquilo é serviço para descanso; é serviço de criança! Em vez de todas aquelas lesmas, pagas talvez a trinta mil-réis...

— É justamente quanto lhes dou.

— ... melhor seria tomar dois bons trabalhadores de cinqüenta, que fazem o dobro do que fazem aqueles monos e que podem servir para outras coisas! Parece que nunca trabalharam! Olhe, é já a terceira vez que aquele que ali está deixa cair o escopro! Com efeito!

João Romão ficou calado, a cismar, enquanto voltavam. Vinham ambos pensativos.

— E você, se eu o tomar, disse depois o vendeiro, muda-se cá para a estalagem?...

— Naturalmente! não hei de ficar lá na cidade nova, tendo o serviço aqui!...

— E a comida, forneço-a eu?...

— Isso é que a mulher é quem a faz; mas as compras saem-lhe da venda...

— Pois está fechado o negócio! deliberou João Romão, convencido de que não podia, por economia, dispensar um homem daqueles. E pensou lá de si para si:

“Os meus setenta mil-réis voltar-me-ão à gaveta. Tudo me fica em casa!” — Então estamos entendidos?...

— Estamos entendidos!

— Posso amanhã fazer a mudança?

— Hoje mesmo, se quiser; tenho um cômodo que lhe há de calhar. É o número 35. Vou mostrar-lho.

E aligeirando o passo, penetraram na estrada do capinzal com direção ao fundo do cortiço.

— Ah! é verdade! como você se chama?

— Jerônimo, para o servir.

— Servir a Deus. Sua mulher lava?

— É lavadeira, sim senhor.

— Bem, precisamos ver-lhe uma tina.

E o vendeiro empurrou a porta do fundo da estalagem, de onde escapou, como de uma panela fervendo que se destapa, uma baforada quente, vozeria tresandante à fermentação de suores e roupa ensaboada secando ao sol.

CAPÍTULO V

No dia seguinte, com efeito, ali pelas sete da manhã, quando o cortiço fervia já na costumada labutação, Jerônimo apresentou-se junto com a mulher, para tomarem conta da casinha alugada na véspera.

A mulher chamava-se Piedade de Jesus; teria trinta anos, boa estatura, carne ampla e rija, cabelos fortes de um castanho fulvo, dentes pouco alvos, mas sólidos e perfeitos, cara cheia, fisionomia aberta; um todo de bonomia toleirona, desabotoando-lhe pelos olhos e pela boca numa simpática expressão de honestidade simples e natural.

Vieram ambos à boleia da andorinha que lhes carregou os trens. Ela trazia uma saia de sarja roxa, cabeção branco de paninho de algodão e na cabeça um lenço vermelho de alcobaça; o marido a mesma roupa do dia anterior.

E os dois apearam-se muito atrapalhados com os objetos que não confiaram dos homens da carroça; Jerônimo abraçado a duas formidáveis mangas de vidro, das primitivas, dessas em que se podia à vontade enfiar uma perna; e a Piedade atracada com um velho relógio de parede e com uma grande trouxa de santos e palmas bentas. E assim atravessaram o pátio da estalagem, entre os comentários e os olhares curiosos dos antigos moradores, que nunca viam sem uma pontinha de desconfiança os inquilinos novos que surgiam.

— O que será este pedaço de homem? indagou a Machona da sua vizinha de tina, a Augusta Carne-Mole.

— A modos, respondeu esta, que vem para trabalhar na pedreira. Ele ontem andou por lá um ror de tempo com o João Romão.

— Aquela mulher que entrou junto será casada com ele?

— É de crer.

— Ela me parece gente das ilhas.

— Eles o que têm é muito bons trastes de seu! interveio a Leocádia. Uma cama que deve ser um regalo e um toucador com um espelho maior do que aquela peneira!

— E a cômoda, você viu, Nhá Leocádia? perguntou Florinda, gritando para ser ouvida, porque entre ela e a outra estavam a Bruxa e a velha Marciana.

— Vi, Rico traste!

— E o oratório, então? Muito bonito!...

— Vi também. É obra de capricho. Não! eles sejam lá quem for, são gente arranjada... Isso não se lhes pode negar!

— Se são bons ou maus só com o tempo se saberá!... arriscou Dona Isabel.

— Quem vê cara não vê corações... sentenciou o triste Albino, suspirando.

— Mas o número 35 não estava ocupado por aquele homem muito amarelo que fazia charutos?... inquiriu Augusta.

(continua...)

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