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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Eu, ao menos, declaro a todos o nome do autor que fala por mim. É o meu distinto e velho amigo o Sr. Manuel de Araújo Porto Alegre quem vai descrever a igreja da Cruz. Copio textualmente o que esse artista e poeta escreveu há alguns anos.

“Cabe-me hoje a descrição da igreja da Santa Cruz dos Militares, que pertence a época imediata à da arquitetura jesuítica, mas que se encosta mais ao estilo clássico do que os outros templos onde a escola borromínica alardeou toda a pompa caprichosa de suas combinações grotescas e que hoje fazem as delícias das borboletas parisienses. E que reconquistaria de novo o trono das artes, se um grande número de abalisados mestres não se opusessem à torrente devastadora e inconstante da moda.

“Propensa ao classicismo, a igreja da Cruz é o templo que possuímos de uma arquitetura mais regular. As linhas que entram na ordenação da fachada, sem ter o peso das da Candelária, nem o recurvado dos fastígios do Carmo, de S. Francisco de Paula e de S. Pedro, conservam uma agradável harmonia em suas proporções. As áreas são bem calculadas, os ornatos distribuídos com uma inteligente economia, e as proporções das ordens, seus perfis e ligações bebidos nas obras dos mestres italianos do século atrasado, que, pretendendo realizar a grande palavra de Buonaroti, quando criou o novo Capitólio, caíram nesses desvarios preconizados por Maderna e Bernini, tendo em completo esquecimento as obras de Paládio, Bramante e Samovino.

“Se compararmos a fachada da igreja da Cruz com as modernas de S. José e do Sacramento, veremos uma retrogradação horrorosa nos modernos tempos, e o quanto a arquitetura perdeu nestes dois edifícios que parecem sair da mesma forma bastarda e insignificante.

“As obras do tempo da colônia têm um caráter mais grandioso. Havia mais gosto. Ao menos elas caminhavam com o tempo e com as idéias artísticas dominantes. Mas hoje que houve uma revolução completa, um retrocesso às idéias clássicas, um apurado estudo da antiguidade, e no momento em que o mundo civilizado tinha reconhecido como uma verdade eterna que o preceito de Paládio, que recomenda a simplicidade das linhas, a aplicação da harmonia grega a todos os edifícios, a esse consórcio da arte gráfica profana com a sagrada, a esse caráter de solidez, a essa beleza de contornos, aparecem de pedra e cal esses templos construídos por habilíssimos pedreiros e riscados por homens apenas possuidores de longínquas tradições, que, sem serem borromínicos, nem gregos, são uma verdadeira monstruosidade sem gosto e sem poesia.

“Na igreja do Carmo há dois portais de um trabalho esquisitíssimo, e o que deita para o beco dos Barbeiros é uma obra maravilhosa naquele estilo. E impossível será que o cinzel do escultor possa talhar o mármore com maior morbidez e graça do que ali se acham. Estas duas portas seriam consideradas como dois monumentos perfeitíssimos da arte borromínica em toda a sua pompa e em qualquer parte da Europa.

“Não sabemos a quem o provedor da ordem dos militares, o Coronel de Artilharia José da Silva Santos, encomendara o risco (da igreja da Cruz). Mas unicamente ao certo é que a obra de talha e as estátuas externas são da mão do insigne Valentim.

“O alpendre olórico da sua fachada é uma obra bem acabada. A mistura do granito e do mármore é feita com inteligência e gosto, e os ornatos externos da escola borromínica são muito bem acabados, principalmente os da porta principal.

“No interior da igreja se acha toda a pompa e magnificência do gênio de Valentim. O mesmo cinzel da capela-mor de S. Francisco de Paula. O partido tomado na distribuição das linhas gerais é felicíssimo, principalmente as das portas laterais depois da tribuna do coro, que são ornadas e distribuídas com muito gosto.

“A igreja da Cruz, situada na rua Direita, no quarteirão mais nobre e movediço da cidade, será por longo tempo um ornato desta, e um testemunho de que os homens do século passado tinham mais gosto para as artes do que os do século atual. Com raras exceções, tudo o que fazemos hoje é destituído de grandeza e de poesia.”

Esta descrição do templo da Santa Cruz dos Militares foi publicada no Ostensor Brasileiro. Mas, embora tenham passado não poucos anos depois que ela viu a luz da imprensa, julgo-a tão suficiente, e tanto respeito o mestre que a fez, que não me atrevo a acrescentar-lhe palavra.

A imperial irmandade da Santa Cruz dos Militares, no seio da qual fundiu-se a de S. Pedro Gonçalves, é desde muito tempo uma instituição que desempenha dignamente um duplo fim católico. Porque não só atende com esmero e brilhantismo a todas as condições do culto externo, como socorre filantropicamente as viúvas e famílias dos militares irmãos finados, pagando-lhes pensões da quarta e terça parte dos soldos que estes venciam.

(continua...)

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