Por Aluísio Azevedo (1891)
— Se a mulher é produto dos infernos... continuou ele a pensar; todos temos em nós um pouco de Deus e um pouco do demônio, porque todo o homem nasce, tanto do homem como da mulher. Não compreendo bem este fenômeno do nascimento... nunca mo explicaram... Mas sei que o homem nasce da mulher, como Jesus nasceu do ventre de Maria... Não mo explicaram, e todavia ensinaram-me a odiar a mulher... Por que?
Nisto, entrou na sombria cela um alegre casal de borboletas brancas, e começou a cruzar-se no ar, doudejando em volta da cabeça de Ângelo. Depois uma delas, enquanto a outra a perseguia, foi pousar tranqüilamente na amarelenta página da Bíblia, que ele conservava aberta e esquecida sobre os joelhos.
O presbítero pôs-se a fitá-la. A borboleta fugiu para o teto, à procura da companheira, e ele a seguiu com a vista.
— Um casal de borboletas!... disse consigo. Duas!... Um par!... E por que duas?... Por que andam juntas? Por que não veio uma só?...
Elas interromperam de novo o seu aéreo e irrequieto idílio, e foram pousar, uma ao lado da outra, na pequena cruz latina que encimava o oratório da Virgem. Ângelo continuava a pensar:
— Se o sexo é uma imundície condenada por Deus, por que Deus então fez as suas criaturas aos pares, e por que fez o sexo?... Por que os homens não continuam a nascer como Adão e Eva?... "Por castigo" diz a Escritura Sagrada... Logo, a procriação não é um bem, é um mal; logo, o mundo inteiro é um purgatório, e a vida um tormento!...
As borboletas começaram de novo a doudejar no espaço.
— E estas desgraçadinhas, interrogou Ângelo a si mesmo; estas também pecaram no Paraíso, para que Deus as obrigasse a viver e procriar?...
As borboletas, redobrando de impaciência' iam e vinham por toda a cela, à procura de uma saída.
O padre compadeceu-se delas e quis dar-lhes o ar livre. Foi abrir a janela, mas encontrou resistência; os gonzos oxidados não queriam acordar do seu ferruginoso sono de vinte anos. Ângelo empregou toda a força e conseguiu afinal abri-la.
Um jacto de luz alegre e cantante inundou a fria prisão. Um mundo de vida patenteou-se no ar, à doiradora claridade que vinha lá de fora. O presbítero correu às grades da janela.
— Que belo! Que belo! exclamou ele, defrontando com extensa paisagem que se descortinava aos seus olhos deslumbrados.
Estava a uns cem metros de altura. O ponto de vista era esplêndido. Primeiro, o grande parque do convento, todo cercado de altos muros; depois, as ruas da cidade, as praças e os jardins, e logo em seguida o Sena, coberto de barcos, e afinal as longínquas árvores do campo, que se perdiam suavemente nas tintas duvidosas do horizonte.
— Que belo! Que belo!
E vendo o casal de borboletas, que fugia espaço afora:
— Oh! Como vão ligeiras... Como brincam no espaço... Agora dizem um segredo... Voam de novo... Desaparecem...
Abaixando o olhar, descobriu sobre um telhado um casal de pombos que arrulhava.
— Como são lindos! pensou. Como são brancos e amorosos! Agora se beijam! Que belo! Que belo!
Na rua descobriu um homem de braço dado a uma mulher, levando ele um pequenito pela mão.
— São casados!... A criança parece com ambos!... Oh! agora conversam... ele tomou as mãos dela entre as suas; ela sorri, abaixa os olhos... São felizes!
Afastou-se bruscamente da janela. O espetáculo daquela tranqüila ventura fazia-lhe mal, e quase o irritava.
Não sabia dizer por que, mas num íntimo e profundo malquerer, contra tudo e contra todos, principiava a torturá-lo com uma dura e secreta agonia de inveja.
— São felizes! são felizes! soluçou de punhos cerrados e com o coração oprimido. E por que hão de eles rir e eu chorar! Qual é o meu crime?! Por que todos nesta vida tem uma companheira e eu não a posso ter?! Por que hei de ser só, eternamente só, quando a natureza deu um par a cada uma das suas criaturas?!...
Mas caiu logo em si, e derramando pela cela um olhar de quem desperta de traiçoeiro sonho, deu com a imagem da Virgem, que, de dentro do seu nicho de pedra, parecia lançar-lhe um triste sorriso de ressentimento.
— Não! bradou ele, atirando-se de joelhos e arrastando-se até os pés da Santa. Não estou só! nunca estarei só! Sou um padre e a minha esposa sois vós, Senhora amorosíssima, lírio celeste, perfeição dos céus! Perdoai-me se por um instante de delírio me esqueci do nosso amor!
E correndo à janela, bramiu, ameaçando lá fora, com a mão fechada:
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.