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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Principiou então para eles uma existência bastante singular. À bordo, nas estações, nos hotéis, em qualquer lugar enfim onde pudessem ser observados, apresentavam o exemplo mais completo e invejável da felicidade conjugal; eram mutuamente meigos, unidos, bem casados. Um não aparecia sem o outro, viviam juntos, como se desfrutassem com efeito a mais saborosa das luas­de­mel. Cada um deles trazia no dedo uma aliança, e na medalha do relógio ou do broche o retrato do consorte.

Contudo, não se descuidavam um só instante do principal objeto da viagem; conseguiram apanhar o encalço do fugitivo, e Violante desenvolveu nas suas pesquisas uma tal sagacidade e finura de raciocínio, que fariam o desespero do melhor polícia.

Paulo tinha passado do Brasil para a República Argentina, depois para o Chile, depois para a Bolívia e afinal para o Peru.

Gaspar, ao fim de alguns meses, já não podia suportar aquela vida airada. Estava sempre em vésperas de viagem e gastava os dias a tomar informações sobre o perseguido. Ora, fossem lá descobrir o homem das calças pardas! Vivia prostrado de tanto viajar; além disso a ausência completa de estabilidade impedia que ele se correspondesse com a família.

Uma vez, estava então no Chile, descobriu nos correios de S. Tiago uma carta de seu pai. O pobre velho queixava­se amargamente do procedimento do filho, dizia ter­lhe já escrito duas longas cartas, das quais não recebera respostas, havendo aliás em uma delas lhe dado a participação do casamento de Virgínia, irmã mais moça de Gaspar.

Este acabou por fazer justiça à palavra do coronel, pedindo­lhe que lhe escrevesse para o Chile e lhe comunicasse o nome do marido de Virgínia.

Mas, pouco depois disto, Gaspar teve de seguir com Violante para o México, ficando na ignorância do nome do cunhado. Estava completamente resolvido a voltar para o Brasil; agora, porém, uma nova dificuldade se lhe antolhava: é que já não tinha ânimo de separar­se da suposta esposa. A convivência criara entre eles uma tal reciprocidade de estima, que os dois acabaram por se tornar indispensáveis um para o outro.

Viviam na mais feliz intimidade, mas particularmente separados para todos os efeitos conjugais. E isto apoquentava em extremo o pobre moço. Por várias vezes se viu ele em situações bem ridículas, que o levavam ao desespero; uma ocasião, por exemplo, tinham de pernoitar no único hotel que havia no lugar, e só existia no quarto uma cama para os dois. Violante não hesitou em aceitá­lo, a despeito dos sinais negativos que fazia o falso marido por detrás do estalajadeiro.

E logo que ficou a sós com ele, disse­lhe:

— O senhor se tem portado tão bem para comigo, que seria fazer­lhe uma injustiça suspeitar do seu caráter ou recear a sua conduta...

— Mas é que não devemos abusar, respondeu Gaspar, um pouco contrariado. O sacrifício tem limites! Ora essa!

— Que sacrifício?.

— Que sacrifício?! pergunta­me a senhora. Acaso merecerá outro nome o que faço, desde que a acompanho embrulhado no incômodo disfarce de seu marido!... Poderá a senhora calcular o que é viver com uma mulher encantadora, ver nos outros o ar de inveja causado por uma felicidade que não

existe, afetar os confortos do amor satisfeito e completo, e não obstante, sofrer o mais cruel isolamento que se pode impor a um homem da minha idade!... Confesso­lhe, minha senhora, que se há alguma virtude no meu procedimento, ela me tem custado enormes sacrifícios!

Violante ouviu­o com certo ar de satisfação.

— Vamos! disse ela afinal, repreendendo­o. Seja bom para mim, como foi seu pai. Lembra­se de que um miserável abusou da minha fraqueza e zombou da minha boa­fé. Sou uma pobre mulher que deseja ter dignidade, e o senhor, se possui alguma cousa do caráter daquele a quem devo a vida, não se negará certamente a ajudar­me. Por quem é! já agora conclua a delicada tarefa, a que, com tanto cavalheirismo, se dedicou.

Gaspar aproximou­se dela, com estas palavras:

— Minha amiga, vou falar­lhe com toda a franqueza.

— Está dito! respondeu Violante; proponho até que passemos a noite a conversar. É um excelente meio de ficarmos recolhidos, sem nos ser necessário recolher à cama.

E fecharam­se no mesmo quarto.

Era uma sala vasta, confortável, cheia de trastes. Gaspar traçou no chão uma linha com o pé, e disse rindo:

— Esta linha separa­nos. Cada um tem de contentar­se com o espaço que lhe toca, e não pode meter o pé no terreno alheio; todavia, se a senhora quiser estar mais à vontade, é meter­se na cama, fechar os cortinados, e ficará completamente abrigada contra qualquer olhar meu, involuntariamente indiscreto...

— E o senhor, nesse caso, como tenciona acomodar­se?

— Ah! Eu me arranjarei nesta poltrona. Não lhe dê isso lástima, porque já estou habituado a tais situações. Só peço licença para, depois que a senhora já esteja recolhida, tirar a sobrecasaca e os sapatos.

(continua...)

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