Por Bernardo Guimarães (1883)
— Julgas isso ! . . . peor para elle. Declararei que Rozaura é minha filha, e como pae tenho o direito de reclamal-a. Si nem assim quizer cedela, lhe direi que tenho certeza de que nasceu de mãe livre, o que tratarei de provar perante os tribunaes, ainda que para isso seja preciso despender tudo quanto possuo.
— Mas sinhá Adelaide! . . . coitada !
— Não tocarei no nome de Adelaide; minha bocca jamais revelará quem é a mãe de minha filha, salvo no caso que isso seja absolumente necessario.
— Permitta Deus que não seja.
— Neste caso é bem triste a collisão em que me verei, — entre a honra de uma mulher, que amei, que amo ainda, e a liberdade de minha filha Que partido posso eu tomar?
A propria Adelaide, creio eu, não hesitará em confessar sua falta, si assim fór preciso para arrancar sua filha ao captiveiro.
—É assim mesmo, nhÔ Conrado; é uma lastima; mas tenho fé que Deus não ha de permittir que isso seja preciso.
Lucinda voltou para a casa contentissima pelo feliz resultado da commissão de que se havia encarregado. Ao ver que Conrado nenhum rancor guardava contra Adelaide, e que pelo contrario só tinha para com ellas palavras de affectuosa ternura e de triste e saudosa recordação, seu coração nadava em jubilo. Apressou-se em communicar tudo á sua senhora, que nasceu de mãe livre, o que tratarei de provar perante os tribunaes, ainda que para isso seja preciso despender tudo quanto possuo.
— Mas sinhá Adelaide! . . . coitada !
— Não tocarei no nome de Adelaide; minha bocca jamais revelará quem é a mãe de minha filha, salvo no caso que isso seja absolumente necessario.
— Permitta Deus que não seja.
— Neste caso é bem triste a collisão em que me verei, — entre a honra de uma mulher, que amei, que amo ainda, e a liberdade de minha filha Que partido posso eu tomar?
A propria Adelaide, creio eu, não hesitará em confessar sua falta, si assim fór preciso para arrancar sua filha ao captiveiro.
—E assim mesmo, nhÔ Conrado; é uma lastima; mas tenho fé que Deus não ha de permittir que isso seja preciso.
Lucinda voltou para a casa contentissima pelo feliz resultado da commissão de que se havia encarregado. Ao ver que Conrado nenhum rancor guardava contra Adelaide, e que pelo contrario só tinha para com ellas palavras de affectuosa ternura e de triste e saudosa recordação, seu coração nadava em jubilo. Apressou-se em communicar tudo á sua senhora, que sentio acudirem-lhe aos olhos lagrimas de enternecimento, e estremeceu em sua consciencia de honesta e leal esposa, receando que se ateassem de novo debaixo das cinzas as mal extinctas chammas de seu primeiro amor.
Si bem que contente e esperançada pelo modo por que as cousas se ião encaminhando, bem mal dormida passou Lucinda essa noite, atormentada pela incerteza de achar ou não viva Nha-Tuca, esperando com a mais viva impaciencia o alvorecer do dia.
CAPITULO IX
Na missa.
O mesmo acontecia a Conrado, que passou uma noite agitadissima. A revelação que Lucinda acabava de fazer-lhe, parecia-lhe um sonho, e punha-lhe o espirito quasi em delirio. A's tristes recordações do passado vinhão juntar-se agora as apprehensões do futuro, e toda a noite passou elle a cogitar nos meios mais convenientes e efficazes que deveria empregar para fazer reconhecer sua filha como livre de nascimento, sem comprometter a reputação de Adelaide. Volvendo tambem ás vezes suas vistas para o passado, enxergava nesse estranho acontecimento um castigo da providencia, que assim punia o orgulho, fatuidade e dureza desse homem, que tanto blazonava de branco e fidalgo do mais puro sangue, fazendo que sua baeta até a edade de quatorze annos vivesse na
humilhante condição de escrava até por fim ser vendida como tal á sua propria mãe para servir de mocamba a uma irmã sua.
Conrado em vão se deitava procurando conciliar o somno pela leitura de algum livro; não conseguia achar distracção alguma ás vivas preoccupações que lhe agitavão o espirito. Levou quasi toda a noite a passear por todas as salas e corredores de sua vasta habitação, consultando a miudo o relogio e a contar essas horas que para elle se escoavão com desesperadora lentidão. Assim esperou elle o fim dessa noite angustiosa, que, apezar de correr o mez de novembro, pareceu-lhe mais longa do que uma noite de junho.
Emfim alvoreceu bella e risonha a aurora desse dia que tão anciosamente aguardava, e que tão decisiva influencia tinha de exercer sobre seu destino e sua futura felicidade. Era um domingo. A uma noite brusca chuvosa havia succedido um dia limpo e sereno. O sinos das diversas egrejas dobravão e repicavão alegremente, e o povo, que acudia ás missas matinaes, começava a cruzar por todas as ruas da cidade. O coração de Conrado expandio—se em palpites de prazer e de esperança.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.