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#Romances#Literatura Brasileira

Memorial de Aires

Por Machado de Assis (1908)

A gente pouca e as relações estreitas deram azo a que no fim da noite falássemos todos do hóspede vindouro. Ai vem o afilhado que eles tiveram por esquecido, quase ingrato, esse outro meio filho que ajudaram a criar e a amar. Aguiar e a mulher deram explicações pedidas, contaram episódios de infância, histórias de graça, de esperteza, algumas de manha, mas a manha das crianças só enfada em ação; recordada, deleita, como outras coisas idas. Uma das senhoras presentes quis lembrar alguns atos de carinho e dedicação de D. Carmo acerca do pequeno, mas a boa velha esquivou-se depressa, e apenas ouvimos um ou dois. Noite de família saí cedo, vim para casa tomar leite, escrever isto e dormir. Até outro dia, papel.

20 de junho

Telegrama da Paraíba do Sul: "O barão de Santa-Pia faleceu hoje de manhã". Vou mandar a notícia a mana Rita, e enviar cartões de pêsames. É caso de dar também os pêsames à gente Aguiar? Pêsames não, mas uma visita discreta e afetuosa, amanhã ou depois...

21 de junho

Aguiar vai à fazenda de Santa-Pia, em visita de pêsames a Fidélia; parte amanhã. D. Carmo fica. Foi o que ele me disse na Rua do Ouvidor.

— Já lhes mandei os meus, disse-lhe. Receba-os também, se a afeição que os liga a D. Fidélia pode justificar esta participação de desgosto...

— Ambos nós sentimos a dor que aflige a nossa boa amiga. Carmo queria ir comigo; eu é que lhe disse que não, que não vá; pode cansá-la muito a viagem assim rápida.

Lá vai o Aguiar enfraquecer da alegria do filho com a mágoa da filha; cá virá convalescer da tristeza da moça com a alegria do rapaz. Tudo se atenua assim neste mundo, e ainda bem. O pior é não serem filhos de verdade, mas só de afeição; é certo que, em falta de outros, consolam-se com estes, e muita vez os de verdade são menos verdadeiros.

21 de junho, à noite

Cá esteve hoje a minha boa mana; ia visitar a gente Aguiar, eu disse-lhe que vá comigo amanhã, e aceitou.

23 de junho

A mana e eu estivemos ontem em casa da boa velha Aguiar. Saí de lá mais cedo do que quisera; se pudesse, ficaria muito mais tempo.

Achamo-la entre alegre e triste, se esta expressão pode definir um estado que se não descreveu, ao menos, não posso. Recebeu-nos como sempre; ela sabe dar ao gesto e à palavra um afago sem intenção, verdadeiramente delicioso. Quando lhe falamos de Fidélia, disse da tristeza da amiga com outra tristeza correspondente, e referiu a partida do marido na manhã de ontem, sem aludir às obrigações que ele teve de interromper. Não tardou, porém, que lhe perguntássemos pelo afilhado e respondeu com satisfação grande. O resto da visita dividiu-se entre ambos, mas ao rapaz coube a maior parte da conversação, naturalmente por ser mais longa a ausência, maior a distância e inesperada a volta.

D. Carmo continuou a narração da outra noite, agora mais íntima, éramos três pessoas apenas. Não diria toda a primeira vida do pequeno, o tempo seria pouco, ela mesma o confessou, mas muita coisa principal disse. Era frágil, magrinho, quase nada, criaturinha de escasso fôlego. Não disse que se fez mãe; esta senhora não conhece a língua do próprio louvor, mas eu já sabia, e percebia-se do carinho da narração que devia ser assim mesmo. Rita arriscou esta reflexão rindo:

— As crianças não sabem o cuidado que dão, e esquecem depressa o que sabem.

— É preciso desculpar a Tristão o que é próprio de rapaz, acudiu D Carmo. Ele não é mau; esqueceu-se um pouco de nós, mas a idade e a novidade dos espetáculos explicam tudo. A prova é que aí vem ele ver-nos, e se lesse as cartas dele... Aguiar não lhe mostrou a última?

— Não, minha senhora, respondi; disse-me só o que continha.

— Talvez não dissesse tudo.

Cuido que quisesse mostrar-me as cartas do rapaz, uma só que fosse, ou um trecho, uma linha, mas o temor de enfadar fez calar o desejo. Foi o que me pareceu e deixo aqui escrito. Tornamos à viúva, depois voltamos a Tristão, e ela só passou a terceiro assunto porque a cortesia o mandou; eu, porém, para ir com a alma dela, guiei a conversa novamente aos filhos postiços. Era o meu modo de ser cortês, com a boa senhora. Custa-me dizer que saí de lá encantado, mas saí, e mana Rita também. Rita disse-me na rua:

— Há poucas criaturas como aquela.

— Creio, creio, é excelente... sem desfazer em você.

— Eu não, replicou Rita prontamente. Não me acho má, porém estou longe de ser o que ela é. Você repare que tudo naquela senhora é bom, até a opinião, que nem sempre é justa, porque ela perdoa e desculpa a todos. Eu não sou assim; acho muita gente má, e se for preciso dizê-lo, digo D. Carmo não é capaz de criticar ninguém. Algum reparo que aceite é sempre explicando; quando menos, calando.

24 de junho

(continua...)

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