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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

- Mano! Não gosto destas graças! 

- Um beliscão, menina! 

- Você ia dizer outra coisa. 

- Ou é você que queria ouvir outra coisa? 

- Está bom; me deixe. 

  Desta vez agastada, Linda afastou-se, voltando as costas ao irmão. 

  Acompanhou-lhe Afonso o movimento com um ar galhofeiro; e aproximando-se devagarinho, nas pontas dos pés, enlaçou de repente em um abraço o corpo gentil da moça. 

- Ai da pombinha! Como está tão jururu! Quem foi que arripiou sua pena, minha rola? Prrru!... Coitadinha! Deixe ver o biquinho! 

  Estas palavras eram o mote das carícias que fazia o Afonso à irmã, alisando-lhe os cabelos castanhos que a brisa espalhara, amaciando-lhe a mimosa cútis da face, e por fim puxando-lhe o botão de rosa dos lábios, que faziam um delicioso biquinho vermelho, apinhados como estavam com o gracioso amuo. 

  Não se podia, com efeito, achar mais justa imagem da formosa menina, do que essa que espontaneamente acudira ao espírito poético do rapaz. Naquele momento com a fronte reclinada, as espáduas ligeiramente curvas, pelo recato, as mão recolhidas ao seio, parecia-se com a juruti quando arrufa a doce e macia penugem. 

  À medida porém que a envolvia a carícia do irmão, ia ela outra vez acetinandose; o talhe delicado esbeltava-se ao natural; as longas pálpebras franjadas erguiam-se desvendando os grandes olhos pardos cheios de uma ternura ebriante; e finalmente o botão de rosa da boca gentil enflorava-se com sorriso encantador, que derramava sobre o formoso semblante da menina uma luz de leite. 

  Só não sabe o que isto é, quem não admirou a espécie de cútis mais delicada, tez suave de bonina bebendo os orvalhos da manhã. 

  Tinha a beleza de Linda um doce alumbre de melancolia, que não era tristeza, pois coavam-se através dos inefáveis contentamentos de sua alma; era sim matiz, que lhe aveludava a graça e influía-lhe um mavioso enlevo. Irmã das flores que vivem nos recessos da floresta, onde se coalham em sombra luminosa os raios filtrados pelo crivo das folhas, respira essa beleza o perfume casto da violeta e da baunilha. 

  Não se admira a mulher que a possui, porque não exerce a fascinação esplêndida das formosuras que cintilam; mas adora-se de joelhos, porque ela tem a santidade do amor. 

  Afonso era o retrato da irmã. Pareciam-se como gêmeos e gêmeos tinham nascido. Mas nele a gentileza era um fogo de artifício; a índole jovial, que herdara do pai, lhe estava constantemente a brincar no gesto prazenteiro e nas cascatas do riso cordial e folgazão. 

  Era tal a parecença dos dois irmãos, que um dia, havia tempos, Afonso lembrouse de fazer uma travessura. Vestiu-se com roupas da irmã, e tomando uns ares hipócritas, saiu ao encontro de Berta que vinha visitar Linda, como de costume. A moça, cuidando ver a amiga, correu abraçá-la, e cobriu-a de uma chuva de beijos, que lhe foram pontualmente retribuídos. 

  Foi depois de ter a seu gosto recebido as carícias da moça, e comido-lhe a beijos o saboroso encarnado das faces, que o brejeiro tirando a capelina da irmã, apresentou a sua cabeça de rapaz, desordenada da basta madeixa, que ondulava pelas espáduas de Linda, quando ela a trazia solta no passeio da manhã. 

  Descobrindo o engano, Berta não se agastou e riu-se gostosamente com o rapaz, da peça que lhe pregara ele; mas desde aí, não beijou mais a Linda sem primeiro olharlhe no rosto e os cabelos, para certificar-se que era ela mesma, e não o brejeiro Afonso.  

Depois tornou-se impossível a confusão, porque não só o talhe do moço hasteouse com a têmpera viril, como o fino buço começou a assombrear-lhe o lábio superior e as faces. 

 

XI 

No tanquinho 

 

 Depois da pequena pausa que tinham feito, apressaram os dois irmãos o passo, a fim de ressarcir a perda do tempo, que pouco tinham para o passeio até a hora habitual do almoço. 

(continua...)

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