Por José de Alencar (1872)
- E como vão agora? Têm sido mais felizes?
- Qual, meu senhor! O quebranto não nos deixa. A pescaria... não se fala; depois que Simão caiu de cama, ainda eu fui deitar a rede com o pequeno; mas é à toa! As bananeiras enfezaram de uma vez. Se não fossem uns pintos... Que para bem dizer não foram os pintos, mas a cachorrinha. Se não fosse isso, a gente já estava morta de fome.
- Então sucedeu-lhe alguma coisa boa? Sinal de que a fortuna está voltando.
- Foi boa e foi má; porém no final de contas saiu pelo melhor. Imagine o senhor que a muito custo eu tirei uma ninhada de pintos, que estavam-se criando muito espertinhos. Sempre eram uns cobrinhos... Mas um dia apareceu aqui uma moça a cavalo, bem vestida, com uma velha gorda e mais um português que é um espirro de gato. Eles já tinham passado na véspera e estiveram falando com o pequeno. Então salta do colo da moça uma cachorrinha, e vai-se aos pintos e mata a todos, um por um.
- Uma cachorrinha branca felpuda, que tem brincos de ouro?
- Isso mesmo. O senhor conhece? É muito bonitinha; mas também nunca vi uma demoninha assim.
- Então matou-lhe os pintos?
- Um por um. E a moça ria que era um gosto, dando estalinhos nos dedos; mas depois que a cachorrinha acabou de matar os pintos, então a senhora ficou muito zangada e ralhou bastante com ela. Disse que tinha pena do que sucedera, e mandou entregar a Simão um dinheiro para pagar os pintos. Foi dinheiro que chegou para a gente viver até agora.
- E depois? A moça?
- Esteve atirando no capim umas moedinhas de prata; a cachorrinha de aposta com os pequenos corria para apanhar: aquele que achasse ganhava. Uma vez o Pedrinho quis tomar da cachorrinha; mas ela ia mordendo-o na mão. Se não fosse a moça que acudiu tão depressa com o chicotinho!
Enquanto Ricardo conversava com a Gertrudes, e o Simão ouvia mergulhado no mesmo torpor, dois meninos e uma menina, acocorados a um canto, cochichavam entre si. A penúria tinha apagado naquelas crianças a vivacidade natural da infância. Havia no seu gesto e semblante um espasmo de tristeza, que afligia.
Enfiando a vista pelo buraco da parede, as crianças se agitaram com certa curiosidade tímida, despertada por alguma coisa que tinham visto. O rumor de passos de animais indicava a chegada ou passagem de pessoas a cavalo.
- Mamãe! disse uma das crianças.
- A moça!... acrescentou a outra.
Gertrudes reclinou-se, para estender a vista pela abertura da porta. Ricardo imitando seu movimento reconheceu Guida, acompanhada pela habitual comitiva.
O moço ergueu-se contrariado.
- Adeus. Voltarei depois.
- Não quer ver a moça? Ela é bem bonita.
- Já a conheço; e por isso não quero que me encontre aqui. Sairei pelo fundo.
- Mas então o melhor é ficar aqui dentro porque ela não se apeia.
Nisto a Gertrudes que se chegara à porta voltou ao moço:
- Ora, está vendo! Que artes desta moça!
A Guida tinha dirigido “Edgard” para o lugar onde estava a secar a mesquinha louça da pobre gente, e o elegante cavalo divertia-se em espedaçar desdenhosamente com a pata cada um dos pratos.
Os meninos assistiam à cena admirados; Guida ria-se como uma criança; a inglesa despedia da garganta uma cascata de “ohs!” e o Sr. Daniel impassível estava mentalmente calculando o custo da louça quebrada.
Ricardo viu esta cena pelas fendas da choupana. Quando não houve mais nada a quebrar, Guida, sofreando com força o cavalo, exclamou com um fingido assomo de mau humor:
- Este cavalo é insuportável! Está sempre fazendo destas! Não posso mais aturá-lo!
A mãozinha afilada virou o chicote com força. “Edgard” saindo se sua habitual impassibilidade, começou a pinotear, o que espalhou a mestra, o português e as crianças cada um para seu lado. O resultado dessa escaramuça foi atirar ao chão a vara da roupa, que o lindo isabel despeitado pisou acabando de esgarçar com os cascos aqueles andrajos.
- Tome, Daniel, dê a esta gente: é para pagar o estrago que fez o cavalo.
A Guida tirara de uma carteirinha de tartaruga uma nota de cinqüenta mil-réis.
- Mas agora me lembro: talvez eles não tenham louça para comer hoje. Mande o moleque comprar!
- Não é muito, senhora?
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.