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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— São contos largos, amigo Arnaldo, que levariam muito tempo, e eu já sinto cá pelo estômago uns repiques de fome que estão chamando ao almôço. 

— Guarde lá seu segrêdo, Aleixo Vargas; e que não lhe coma a língua. Quanto ao almôço descanse. Aquí temos no meu farnel para quebrar o jejum. 

— Sempre o conhecí precavido, rapaz. Não é à-toa a fama que você tem e que eu bem experimentei, quando cheguei a êste excomungado sertão. 

— Não é tanto assim. Alí está você, Aleixo Vargas, que é uma barra. Não foi debalde que lhe puseram o nome de Moirão. 

— Ah! isso cá de pulso, não se fala: que ainda não encontrei homem para mim, nem touro tão pouco. Eu dizia, rapaz, era acêrca da ligeireza, que, a ser verdade o que se conta, não há por toda esta ribeira quem lhe deite poeira nos olhos. 

— De que serve a ligeireza, se não é para fugir? A fôrça é melhor, não lhe parece, Aleixo! 

disse o rapaz a sorrir. 

— Sem dúvida. A fôrça é tudo neste mundo; disse o Aleixo entufado de sua jactância. 

— Também eu penso assim; ainda que todos os dias vê-se um caroço de chumbo deitar ao chão o homem mais valente, e uma broca derrubar o tronco mais grosso. 

Moirão levantou os ombros desdenhosamente: 

— São casos que acontecem. 

Arnaldo foi à sua malhada no jacarandá e tornou com o alforge em que tinha as provisões. Consistiam em carne de vento, farinha e queijo do sertão. 

O mancebo foi expedito na refeição e comeu com a rapidez a que o havia acostumado sua vida agreste. O Moirão, porém, almoçou pausadamente, como quem se desempenha de negócio grave; e de vez em quando conversava com uma borracha de vinho que trazia à cinta e era a sua inseparável. 

— Não molha a goela, rapaz? Olhe que esta farinha assim à sêca é uma bucha capaz de entalar até um jacaré. 

— Eu prefiro o vinho cá de minha terra! 

Proferindo estas palavras a sorrir, Arnaldo bebeu dois ou três goles d’água numa cabaça onde guardava sua provisão e com isso rematou o almôço. 

Aleixo fez uma careta de nojo à cabaça, e para dar tônico ao estômago, que se lhe tinha embrulhado com a vista d’água, escorropichou o odre na garganta. 

 

VIII – Dois amigos 

 

Concluira Moirão sua grave ocupação e acendendo o cachimbo preparava-se a fazer o quilo com igual pachorra. 

Recostou-se afinal ao tronco da árvore, soltando uma baforada de fumo que o envolveu como uma nuvem densa. 

— Então, Arnaldo, como foi isto por cá, amigo? Sêca muita, já se sabe! Olhe, digam vocês o que quiserem, isto não é terra de cristão. 

— De cristão é que ela é, Aleixo Vargas; pois ao cristão ensinou o divino mestre a paciência e o trabalho. Para quem não serve a minha terra é para aqueles que não aprendem com ela a ser fortes e corajosos. 

— Pois é coisa que se aprenda, morrer de fome e de sede ainda mais? 

— Tudo aprende o homem, quando não lhe falta coragem. O cavalo dêste sertão de Quixeramobim caminha o dia inteiro, come um ramo de juá, e só bebe água quando encontra a cacimba. Aonde há mais valente campeão? 

— Eu cá prefiro andar pelo meu pé, mas em terra capaz, a empoleirar-me no tal bicho que só tem pele e ossos. 

Arnaldo não respondeu, e Aleixo continuou a envolver-se em um turbilhão de fumaça que dava-lhe o aspecto de um éolo pintado na tabuleta de alguma taverna clássica. 

Depois de breve pausa o sertanejo reatou o fio da conversa. 

— Ora, Aleixo, que somos amigos há tanto tempo e nunca experimentei as minhas fôrças com você. 

— Para que isso? Perguntou Moirão com sua habitual fatuidade. 

— Bem sei que não posso medir-me com você; mas queria saber até onde chega meu 

pulso. Talvez não seja lá dos mais fracos e ninguém está mais no caso de julgar do que o barra dêste sertão. 

A ponta de ironia que acerava o sorriso do mancebo era tão sutil, e o tom afável da palavra a envolvia de modo que Moirão não podia percebê-la, ainda que fosse dotado de maior perspicácia do que lhe tocara em quinhão. 

— Isso lá é verdade. Ainda não encontrei homem que não derrubasse: uns torcem mais, outros menos; porém no fim de contas lá vão todos ao chão rebolindo que é um gôsto. 

— Vamos a ver se eu sou dos que torcem mais, disse Arnaldo com volubilidade. 

— Então quer mesmo, rapaz? Chegue cá, e pendure-se a êste braço; com as duas mãos, não faz mal. 

Moirão arregaçou a manga da camisa, e descobrindo um braço grosso e musculoso como a perna de uma anta, fincou o cotovêlo no tronco do angico. 

— Queda de braço, não, disse Arnaldo: há de ser queda de corpo. 

— Ah! Você quer tirar lérias comigo, rapaz? 

(continua...)

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