Por José de Alencar (1860)
JOANA - Não, meu senhor. Se eu ficar lá, o que Deus não há de permitir, não... eu virei buscar os meus trapinhos. Agora!... Se eu os levasse... Era como se não tivesse mais de voltar para o poder de meu nhonhô!... E Joana não poderia!
PEIXOTO - Bem! Eu cá mandarei.
CENA XII
Os mesmos e JORGE
JORGE - Desculpe se os fiz esperar.
PEIXOTO - Não manda mais nada ao seu serviço?
JORGE - Tenho apenas uma súplica a fazer-lhe.
PEIXOTO - Que diremos?
JORGE - Durante o tempo que esta... que Joana vai estar em sua casa.
PEIXOTO - Que é minha escrava, quer o senhor dizer.
JORGE - Peço-lhe que a trate com doçura. Está habituada a viver comigo, mais como uma companheira do que...
PEIXOTO - Escusa pedir-me isto. Sou bom senhor. O caso é saberem levar-me. Anda, mulata! Vamos.
JOANA - Já?!... Me deixe dizer adeus a meu nhonhô.
PEIXOTO - Pois dize lá o teu adeus... E nada de choramingas.
JOANA - Meu nhonhô, adeus! Sua escrava vai-se embora!
JORGE - Joana!
JOANA - Não chore, nhonhô. É por hoje só. Não é?
JORGE - Eu te juro.
JOANA - Oh! Se não fosse, nhonhô me deixava ir?
JORGE - Decerto que não!
JOANA - Mas se o Sr. doutor não vier amanhã?
JORGE - Se ele faltar, meu Deus!
JOANA - Não há de faltar, não. Sr. doutor é homem de palavra...
JORGE - E quando por qualquer acaso sucedesse... Ainda tenho forças para trabalhar.
JOANA - Oh! meu nhonhô! Não é por mim que tenho medo de ficar lá. Deus é testemunha... Mas quem há de tratar de meu nhonhô quando sua Joana não estiver aqui?... Quem há de preparar tudo para que não lhe falte nada? E se nhonhô cair doente?!... Meu Jesus!... Que dor de coração só de pensar nisso!
JORGE - Consola-te, Joana. Algumas horas depressa se passam.
JOANA - É assim mesmo, nhonhô... Mas que saudades que Joana vai ter... Ela que nunca saiu de junto de seu senhor... nem um dia... Que nunca se deitou sem lhe tomar a bênção! Nhonhô também há de ter saudades de sua escrava?...
JORGE - Perguntas, Joana.
JOANA - Oh! Eu sei que nhonhô há de ter!... Mas não fique triste, não.
JORGE - Joana, não me faças perder a coragem... Deste modo não terei ânimo.
JOANA - Está bom, nhonhô. Olhe: Joana não chora mais! Está se rindo. Amanhã ela estará aqui outra vez, servindo seu nhonhô... E iaiá D. Elisa, Sr. Gomes... todos contentes!
PEIXOTO - Se continuamos assim, não saio daqui hoje! É uma choradeira que nunca mais se acaba.
JORGE - Não zombe destas lágrimas, senhor! Joana me criou! Nunca nos separamos. É toda a minha família! Ela e um amigo que tive hoje a felicidade de ver. Amor de mãe que não conheci, amor de irmã que não tive, tudo concentrei nela!
PEIXOTO - Mas é preciso que terminemos com isto.
JORGE - É justo... Joana! Adeus! Até amanhã!
JOANA - Até amanhã!... Sim, meu nhonhô!... Mas se eu lhe pedisse...
JORGE - O quê? Dize...
JOANA - Não... Para quê... Incomodar o nhonhô?
JORGE - Pode... O quê?
JOANA - Nhonhô à tardinha... Quando se recolhesses... Podia passar...
JORGE - Compreendo... Eu irei ver-te, minha boa Joana.
JOANA - Que alegria que Joana terá!
PEIXOTO - Não posso mais. Psiu! Mulata! segue-me!
JORGE - Não lhe fale assim!
PEIXOTO - Ora, essa! É minha escrava. Posso fazer dela o que quiser.
JORGE - Usurário!... Não me obrigue a fazer uma loucura!
JOANA - Nhonhô, não se altere.... Vamos, meu senhor. Estou pronta.
PEIXOTO - Passa! Anda...
JOANA - Nhonhô!... Lembre-se de sua escrava.
JORGE - Meu Deus!
ATO QUARTO
Em casa de JORGE, a mesma sala.
CENA PRIMEIRA
JORGE e ELISA
ELISA - Sr. Jorge!...
JORGE - Ah! bom dia, Elisa!... Seu pai?
ELISA - Está inteiramente calmo. Saiu... Disse-me que daqui a pouco lhe viria agradecer.
JORGE - Ele já sabe?
ELISA - Contei-lhe tudo!... Não devia?
JORGE - Fez bem. Que respondeu ele?
ELISA - Sorriu, Jorge!
JORGE - Aprovou portanto...
ELISA - Parece...
JORGE - Só nos falta para sermos felizes...
ELISA - O quê?... Não me responde?
JORGE - Não posso agora! Depois saberá, Elisa.
ELISA - Deve ser alguma coisa que lhe pesa! Está inquieto!
JORGE - É engano!... Não tenho motivo de inquietação.
ELISA - Quer ocultar de mim, que lhe contei todos os meus pesares?
JORGE - Nada oculto... São recordações... O espírito humano é assim... Inquieta-se, possuise de um vago temor, quando maior razão tem de alegrar-se.
ELISA - Pois eu o deixo... Já que não posso desvanecer, não quero perturbar essas recordações.
JORGE - É uma queixa injusta. Fique!
ELISA - Oh! Não... Não posso demorar-me... Não devo! Quis unicamente agradecer-lhe... Na presença de meu pai não teria ânimo.
(continua...)
ALENCAR, José de. Mãe. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7546 . Acesso em: 21 jan. 2026.