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#Comédias#Literatura Brasileira

As Asas de um Anjo

Por José de Alencar (1860)

Carolina – A mim?... Tu pensas...

Helena – Não nos disse outro dia no hotel?

Carolina – Disse que amava outra Carolina, que não sou hoje.

Helena – Cuidas que por uma mulher preferir outro homem, aquele que ela desprezou deixa de amá-la? Como te enganas!

Carolina – Então acreditas?

Helena – Agora mesmo ele aqui esteve: e me falou de ti com um modo...

Carolina – Que te disse?

Helena – Confessou que estava arrependido do que fez; que deseja ver-te para mostrar que sempre te estimou e ainda te estima.

Carolina – Não é possível, Helena. Se Luís me estimasse não me falava com tanto desprezo.

Helena – Ora, Carolina, se tu amasses um homem que se casasse com outra mulher, o que farias?

Carolina – Tens razão.

Helena – Espera.

Carolina – Mas ele te disse que me queria ver? Voltará?

Helena – Creio que sim.

Carolina – Meu Deus!

Helena – Que mal faz que tu lhe fales? Se ele te ofender, entre para dentro; se quiser amar-te, faz o que entenderes; mas não esqueças o Pinheiro.

Carolina – Sei o que devo fazer.

Helena – Se precisares de mim, chama-me.

Carolina – Me deixas só?

Helena – Ao contrário, vê quem está aí.

CENA VI (Luís e Carolina)

Carolina – Luís!

Luís – Não me recusou falar, Carolina. Eu lhe agradeço.

Carolina – Por que recusaria?

Luís – Depois do que se tem passado, não era natural que desejasse fugir à presença de um importuno?

Carolina – Qual de nós, a primeira vez que nos encontramos depois de uma longa ausência, repeliu o outro?

Luís – A repreensão é justa, eu a mereço. Mas não creio que venho ainda lembrarlhe um passado que todos devemos esquecer, e acusá-la de uma falta de que outros talvez sejam mais culpados. Venho falar-lhe como irmão; queres ouvir-me?

Carolina – Fale; não tenho receio.

Luís – Todos nós, Carolina, homens ou mulheres, velhos ou moços, todos sem exceção, temos faltassem nossa vida; todos estamos sujeitos a cometer um erro ou praticar uma ação má. Uns, porém, cegam-se ao ponto de não verem o caminho que seguem; outros se arrependem a tempo. Para estes o mal não é senão um exemplo e uma lição: ensina a apreciar a virtude que se desprezou em um momento de desvario. Estes merecem, não só o perdão, porém muitas vezes a admiração que excita a sua coragem.

Carolina – Não, Luís; há faltas que a sociedade não perdoa, e que o mundo não esquece nunca. A minha é uma destas.

Luís – Está enganada, Carolina. Se uma moça que, levada pelo seu primeiro amor, ignorando o mal, esqueceu um instante os seus deveres, volta arrependida à casa paterna; se encontra no coração de sua mãe, na amizade de seu pai, na afeição dos seus, a mesma ternura; se ela continua a sua existência doce e tranqüila no seio da família; por que a sociedade não lhe perdoará, quando Deus lhe perdoa, dando-lhe a felicidade?

Carolina – Nunca ela poderá ser feliz! A sua vida será uma triste expiação.

Luís– Ao contrário, será uma regeneração. Em vez da paixão criminosa que a rouba de seus pais, ela pode achar no seio de sua família o amor calmo que purifique o passado e lhe faça esquecer a sua falta.

Carolina – É verdade, então, Luís?... Helena não me enganou!

Luís – O quê?... Não sei...

Carolina – Ainda me ama!

Luís – Eu?...

Carolina – Não era de si que me falava?

Luís – Não, Carolina; falava do Ribeiro.

Carolina – Ah! Era dele!...

Luís – É o único que tem direito de amá-la.

Carolina – Pois eu não o amo.

Luís – Não creio.

Carolina – Juro-lhe.

Luís – É impossível.

Carolina – Amanhã não duvidará.

Luís – Amanhã?... Que vai fazer?

Carolina – Há de saber.

Luís – Carolina, eu lhe peço, não dê semelhante passo; ele é ainda mais grave do que o primeiro. Compreendo que uma menina inexperiente sacrifique-se à afeição de um homem; mas nada justifica a mulher que renegar aquele a quem deu sua vida.

Carolina – Então não posso deixá-lo!

Luís – Não! Uma mulher deve sempre conservar a virgindade do coração e guardar pura sua primeira afeição. Respeita-se o consórcio moral de duas criaturas que se unem apesar do mundo e dos prejuízos que as separam; respeita-se a virtude ainda quando ela não reveste as fórmulas de convenção. Mas despreza-se a mulher que aceita qualquer amor que lhe oferecem.

(continua...)

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