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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

Francisco José da Costa, vai em vinte e dois anos. Não se recomenda por gentileza, posto que lhe sobejem graças estimáveis. Basta-lhe os olhos negros e a tristeza, a palidez e o nunca sorrir-se. É poeta; mas as suas estrofes não se imprimem; são lágrimas; e desconhecidas, porque ninguém o viu chorar. Estuda desde os treze anos com inteligência precoce. A mente de seu pai era faze-lo frade em ordem pobre; mas o mocinho esperava que o seu estudo lhe valesse formatura gratuita em Coimbra.

Mudadas as instituições políticas, e falecido seu pai, Francisco aceitou as sopas oferecidas por seu cunhado, merceeiro escasso de posses, e sempre infeliz nas empresas comerciais. José Maria dos Santos, como não tivesse filhos, prometia cortar pelas precisões domésticas para formar o cunhado na escola médico-cirúrgica do Porto. Esta dependência mortificava o estudante, não por índole rebelde à gratidão, senão que via sua irmã afadigada no labor da costura para auxiliar as despesas no Porto.

Joana era a mais doce e resignada criatura que ainda a Providência deparou no seio de uma família mal sorteada dos bens deste mundo. Seu marido tinha quarenta e seis anos, e ela vinte e três. Não distinguireis entre a filha extremosa e consorte desvelada. Acariciava-o e respeitava-o como a pai. Não sabemos que grau marcava a temperatura do seu amor de esposa: o certo é que José Maria, golpeado de reveses no seu negócio, dizia que Deus o compensava sem medida, premiando-o com o oiro do coração de sua mulher, em exemplo de paciência, suprema riqueza do pobre, moeda sagrada com que se negoceia o céu.

Francisco adorava sua irmã; todavia, para estar triste, escondia-se dela. Joana queria que todos agradecessem a Deus, quando se levantavam com saúde, e se ajuntavam à volta da mesa do almoço. Se via triste o marido ou irmão, dizia: “Sois ingratos ao Senhor. Se um de nós adoecesse, e a doença fosse mortal, com que saudades nos lembraríamos destes dias tão quietos, tão felizes! Pensai na tristeza da família onde morreu um irmão; pensai na casa onde há fome e frio, e dizei-me se não é ingratidão e pecado uma tristeza causada não sei porque!”

Quem primeiro revelou a Francisco o amor de Ângela foi Joana. Acabou de lhe contar a confidencia da fidalga, e disse:

― Agora, Francisco, é necessário que vás para o Porto, embora a aula se abra em outubro. Deixa que o tempo desfaça esta criancice da D. Ângela. Eu disse-lhe o que devia: mas ela respondeu-me que havia de ser tua esposa, se a tu amasses. Já viste inocência assim? Eu fiquei espantada a olhar para a menina, e de repente passou-me pelo espírito uma nuvem negra. Deus me livre que tu, meu querido irmão, não pudesses vencer-te, se chegasses a imaginar possível casar com a filha do general Noronha, com a sobrinha de D. Beatriz, tão soberba da sua fidalguia!

Francisco escutou sem assombro e sem interrompê-la a extensa revelação de Joana. Passados momentos de serena reflexão, disse:

― Eu sabia isso...; ainda assim, dás-me uma triste novidade.

― Sabia-lo? Por quem?!

(continua...)

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