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#Ensaios#Literatura Brasileira

O subterrâneo do Morro do Castelo

Por Lima Barreto (1905)

De repente, dois pavorosos blocos negros de pedra avançam pelas duas margens. O rio se adelgaça e a correnteza aumenta. Seguem-se barrancos de dois lados.

O fio d’água escorre entre dois diques abruptos. A mata vem até às margens. As últimas árvores se inclinam e as lianas pendentes rasam à superfície prateada, oscilando ao impulso da água que corre.

Chega a noite. Os quatro remeiros, em língua indiática onde se misturam vagas sonâncias portuguesas, entoam uma melopéia nostálgica. Os padres rezam; e as árvores da margem a que se dirigem, estremecem e farfalham ao sopro da brisa.

Abicados em lugar propício, armam uma tenda passageira; e passada a sombria noite, povoada de gênios e duendes, seguem caminho.

Assim dias e dias: e às vezes a chuva, moléstia, o cansaço retardam a rota sem termo preciso. Mais do que uma noite, demoram-se no ligeiro acampamento.

Os índios pescam e caçam pelos arredores com as suas primitivas armas. Não há mosquetes, nem espingardas. Uma missão não as usa. Conseguem dessa maneira refazer as escassas provisões. Pouco se falam. Cada qual, ante a augusta presença do deserto, recolhe-se dentro de sua alma.

Padre João medita e relembra o passado.

Recorda sua mocidade. Que grandeza não ameaçava ela! A chegada em

Paris... a sua primeira tragédia representada!...

Os elogios e as saudações que recebeu prometiam-lhe um destino seguro, feliz e alto.

Depois encontrou a condessa Alda, esposa do velho embaixador de Florença, o Conde Ruffo de Lambertini. Era uma maravilha de mocidade, de beleza e de graça.

Foi em Versailles que a viu pela primeira vez e logo se apaixonou. Duclerc, por esse tempo, chegou também à corte. O almirante Touville apresentou-o como um dos bravos da batalha do cabo de São Vicente que acabava de ganhar. Tanto ele como Duclerc cortejavam a condessa, que parecia hesitar entre dois amores.

Mas, ai! que foi ele próprio quem a desviou para o rival...

Um duelo cruel e injusto com o marinheiro atraiu-lhe a animosidade de Alda. Aos poucos, o escândalo que ele levantou, fez-lhe perder o valimento. Os amigos fugiam-lhe; o rei não o recebia mais.

Desgostoso, não encontrando saída para aquele angustioso momento, procurou a Ordem. Em breve preencheu os quatro votos...

A tarde vinha. Agora, subindo o rio mais largo, a canoa se move com dificuldade. Cava na superfície das águas um sulco profundo.

O jesuíta professo continuava agitando nas recordações.

Lembrava-se agora da entrevista que tivera com o Geral, em Roma.

— Que vos fez entrar para a Ordem, Marquês? perguntou-lhe o superior da Companhia.

— O amor, Eminência. O amor...

— Desanimaste dele?

—Sim; sou padre.

E em seguida relatou-lhe todo o seu sofrimento, a sua angústia e o seu desespero. Descreveu-lhe o nome, a posição e a beleza do objeto do seu amor.

O Geral ouviu complacentemente a sua narração e, ao retirar-se ele, lhe disse:

— Vossa Reverência vai para Lisboa. Esperará e verá então o quanto pode a Companhia.

Na capital do reino luso esperou. Dentro de um ano a condessa chegava em um navio da Companhia, que a resgatara aos piratas de Argel, dos quais fora prisioneira na embarcação a cujo bordo voltara de França em busca de sua terra. A tripulação trucidada e passageiros também, só ela escapara cativa.

Trazida secretamente do galeão Santo Inácio, da Ordem, desembarcava em São Sebastião figurando como esposa de Martim Gonçalves Albernaz, criatura da Companhia e despachado por El-Rei, almoxarife do paiol da Alfândega...

— Olá, meu padre, por aqui, falou uma voz da margem da qual se aproximaram.

O jesuíta e os companheiros ficaram surpreendidos. Naquelas alturas, tão boa linguagem portuguesa era para admirar.

Investigaram a margem. Em pé com a espingarda descansada no solo e inclinada a braço frouxo, havia um homem alto coberto de um largo chapéu. Era o chefe de uma bandeira, talvez. Saindo de moitas, um a um, foram-lhe aparecendo os companheiros. O jesuíta não tivera notícia daquela entrada. Por aquelas épocas era assim; um punhado de homens se juntavam e um belo dia seguidos de alguns índios e negros, partiam discretamente para o interior encantado. De algumas dessas correrias os povos guardavam memória, de poucas a história conservou o resultado, mas da maioria, nem os alvadios casos da sua gente, pelos tempos em fora, ficaram marcando nos valedos a grandeza do seu esforço. Apagaram-se.

O jesuíta estava em frente a uma dessas. Era pequena: quatorze paulistas e alguns índios e negros.

— Pois não, irmão, retrucou o padre ao bandeirante, vou em busca de almas para o purgatório. De que vos admirais?

— Padre, as cidades estão cheias de almas precisadas de vosso socorro.

Deixai-nos os sertões; quando eles se tornarem vilas, então sim, padre, obrai.

(continua...)

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