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#Romances#Literatura Brasileira

Clara dos Anjos

Por Lima Barreto (1922)

Entrou. Houve um estremecimento que percorreu os convivas, como um choque elétrico, Todas as moças, das mais diferentes cores, que, ali, a pobreza e a humildade de condição esbatiam e harmonizavam, logo o admiraram na sua insignificância geral, tão poderosa é a fascinação da perversidade nas cabeças femininas. Nem César Bórgia, entrando mascarado, num baile à fantasia, dado por seu pai, Alexandre VI, no Vaticano, causaria tanta emoção. Se não disseram: "É César! É César!" — codilharam: "É ele! É ele!"

Os rapazes, porém, não ficaram contentes, pressentindo essa satisfação das damas; e, entre eles, puseram-se a contar a biografia escabrosa do modinheiro.

Apresentado, por Lafões, aos donos da casa, e à filha, ninguém lhe notou o olhar guloso de grosseiro sibarita sexual que deitou para os seios empinados de Clara.

O baile continuou animado; Cassi, porém, não dançava e foi reforçar o terno de cavaquinho, flauta e violão, com o seu instrumento.

Dona Margarida, com o seu porte severo, olhava as damas, sentada ao sofá austríaco, tendo ao lado o filho. A polca era a dança preferida, e todos quase a dançavam com requebros próprios de samba. Os convidados que não dançavam se haviam espalhado por várias partes da casa. Joaquim, Lafões e Marramaque ouviam o doutor Praxedes explicar o que era um habeas corpus preventivo.

— Exemplifico — dizia o doutor Praxedes, erguendo a mão direita catedraticamente, com o indicador apontado para o teto. — É uma medida perfeitamente jurídica de profilática, porque...

Nisto acode o "doutor" Meneses, um velho hidrópico, com a mania de saber todas as ciências, vivendo na maior miséria, apesar de exercer clandestinamente a profissão de dentista.

— Doutor Praxedes — acudia o doutor Meneses — , não julgo a comparação própria. Cada ciência tem seu campo próprio...

A discussão tomava vulto e Joaquim se levantou. Sempre que ele fazia isto, Meneses seguia com os olhos o carteiro, a ver se ele ia até a cozinha mandar pôr a ceia. O sábio dentista viera à última hora, na esperança que a houvesse. Não lograra dinheiro para tomar um caldo. Joaquim, porém, aborrecido com a discussão, fora simplesmente até a sala de visitas convidar:

— Quem quiser tomar alguma coisa, comer biscoitos, é só vir cá dentro. Não façam cerimônia.

Toda vez que o anfitrião dizia isso, Meneses comia duas empadas e quatro sanduiches e bebia uma boa "talagada" de parati.

O dono da casa convidava Cassi especialmente; mas este não bebia, não gostava. Não era esse o seu prazer...

De uma feita, indo à sala, Joaquim convidou-o:

— Por que não canta, "Seu" Cassi?

Até ali, não se falara nisso, e, repinicando as cordas do violão, não deixava o famoso mestre violeiro de devorar sorrateiramente com o olhar lascivo os bamboleios de quadris de Clara, quando dançava.

Ninguém se atrevia a convidá-lo; todos esperavam que o dono da casa o fizesse. Feito o convite, ele respondeu cheio de uma cerimônia afetada:

— Estou sem voz: esfalfei-me muito ontem, no baile do doutor Raposo e...

Vendo que seu pai o havia convidado, Clara animou-se:

— Por que não canta "Seu" Cassi? Dizem que o senhor canta tão bem...

Esse — "tão bem" — foi alongado maciamente. Cassi concertou, com apurada pelintragem e com ambas as mãos, a pastinha oleosa; limpou, em seguida, os dedos no lenço e respondeu dengoso:

— Qual, minha senhora! São bondades dos camaradas...

Clara insistiu:

— Cante, "Seu" Cassi! Vá!

Ele, então, torcendo a cabeça para o lado esquerdo, cuja mão espalmada abria para o alto, e fingindo constrangimento, respondeu:

— Já que a senhora manda, vou cantar.

Marramaque, que tinha ouvido tudo, ficou espantado com o desembaraço da afilhada. Diabo! fez ele de si para si.

O violeiro, com todo o dengue, agarrou o violão, fez estalar as cordas e avisou:

— Vou cantar uma modinha velha, mas muito gentil e literária — "Na Roça".

Muitos circunstantes ficaram desapontados, porque já a conheciam; mas outros gostavam muito da modinha e aprovaram a escolha.

Cassi começou:

Mostraram-me um dia

Na roça dançando

Mestiça formosa

De olhar azougado...

Isto tudo era dito quase aos poucos, sem modulação alguma, enquanto o violão repinicava as mesmas notas, numa indigência musical, numa monotonia de sons, que dava sono. Quando chegava ao estribilho:

Sorria a mulata

Por quem o feitor

Diziam que andava

Perdido de amor

Por aí ele empregava o seu tic invencível de tocador de violão e cantor de modinha. Cantando, revirava os olhos e como que os deixava morrer. O cardeal de Retz diz, nas suas famosas Memórias, que Mme. de Montayon, ou uma outra qualquer duquesa, ficava mais bela quando os seus olhos morriam. Cassi talvez ficasse mais, se ele tivesse alguma beleza; entretanto, esse seu tic impressionava as damas.

(continua...)

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