Por Aluísio Azevedo (1887)
Chegaram pouco antes do crepúsculo. O sol acabara de retirar-se, mas a terra ainda palpitava na luz. As aves iam-se chegando aos seus penates; toda a natureza se aninhava para dormir; só as vadias das cigarras continuavam espertas, a cantar, fazendo sobressair o seu interminável lá menor dentre os pacatos bocejos da mata que se espreguiçava ali mesmo, a dois passos da casa, tranqüila e submissa somo um animal doméstico. Magdá sentiu-se ternamente impressionada pelo taciturno aspecto do casarão que, lá naquelas alturas, se lhe afigurava um velho mosteiro ignorado. A circunstância da hora também contribuiu para isso; aquela hora sem dono, que não pertence ao dia nem à noite — era dela; chamou-a a si, como se recolhesse um enjeitado, e tomou-lhe carinho. Era o momento predileto para as suas concentrações e para seus êxtases: em tudo descobria a essa hora o carpir de uma saudade; cada moita de verdura ou cada grupo de árvores tinha para a filha do Conselheiro suspiros e queixumes de amor. Parecia-lhe a terra, nesse lamentoso e supremo instante em que o sol morre, se vestia de luto e chorava a perda do esposo que além se afogava, em pleno horizonte, atirando-lhe de longe os seus últimos beijos de fogo. Magdá ouvia então os abafados soluços da viúva e sentia-lhe o frio orvalhar do pranto.
— Bem, minha filha, vamos para cima, que já cai sereno.
Ela havia escolhido para seus aposentos uma sala e dois cômodos do andar superior. O quarto da cama era quadrado, muito singelo, uma verdadeira cela, em que o inseparável crucifixo de marfim assentava ao ponto de impressionar; tinha uma só janela, essa mesma gradeada de ferro e sem vista, porque ficava justamente de fronte de uma grande pedreira em exploração. O Conselheiro teve de contrariar a filha para dar a estas salas um pouco de conforto e elegância.
— Para que? dizia ela, não é preciso! em qualquer parte a gente vive e morre...
Como estava transformada! Ainda assim notava-se-lhe nas maneiras a mesma correção fidalga e nos gestos a fina escolha e apurada sobriedade, que dantes a distinguiam tanto entre as suas amigas. D. Camila foi também para o andar de cima, fazendo-se acompanhar por uma corte de santos de várias espécies, tamanhos e virtudes. Além dos escravos, levaram apenas uma criada branca, para tratar de Magdá.
Instalados, o Conselheiro tomou um homem para arranjar o jardim e ocupou os seus negros na reparação da chácara, acompanhando ele próprio o serviço, na esperança de despertar igual desejo no ânimo da filha.
Mas qual! Ela, desde o momento que se enterrou ali, parecia até mais desanimada, mais triste e metida consigo. Agora dava para não ir à mesa e fechar-se no quarto, comendo pedacinhos de pão de instante a instante, roendo queijo seco, chupando frutas ácidas e mastigando goiabas verdes. E sempre a cismar.
O pai embalde protestava contra isto; embalde lhe dizia que ela estava-se preparando para uma séria irritação do estômago; embalde queria arrastá-la par a mesa nas horas da comida; embalde lembrava passeios pela manhã ou ao cair da tarde, a pé, a cavalo, de carro, como ela escolhesse. Era tudo inútil: Magdá continuava agarrada ao quarto — cismando.
— Então, ao menos, que acordasse mais cedo, fosse para baixo conversar com ele na chácara; tomar leite mungido na ocasião; ver o pombal que se estava fazendo; dar uma vista-d’olhos pelo galinheiro e pela horta.
Magdá prometia, resmungava: — Que sim, que sim, porque não? Do outro dia em diante estaria de pé logo ao amanhecer!
Mas, no dia seguinte, quando iam chamá-la ao quarto, à uma hora da tarde, respondia de mau humor:
— Deixem-me em paz! Oh!
— Nesse caso vamos de novo para Botafogo! Exclamou afinal o Conselheiro, perdendo a paciência. — Eu, se vim enfurnar-me aqui, foi na esperança de fazer-te mudar de regime e com isso alcançar-te algumas melhoras! Vejo, porém, que é muito pior a emenda que o soneto!
Ela teve um tremor de músculos, e ficou muito impressionada com o tom quase áspero que o pai pusera nestas palavras.
— Não sei que desejam de mim!... disse.
— Desejo que fiques boa. Aí tens tu, o que desejo!...
— Só parece que julgam que me faço doente para contrariar os outros! Se estivesse em minhas mãos, seria mais agradável a todos; não me ponho melhor e bem disposta, porque não posso!...
— Está bom, está bom, balbuciou o Conselheiro, acarinhando-a, arrependido por não ter sido tão amável desta vez como das outras. — Não vás agora afligir-te com o que eu disse... Aquilo não teve a intenção de magoar-te...
Ela prosseguiu em tom infeliz e ressentido: — Se vim para cá, foi porque me trouxeram... não reclamei nada... Não me queixei de coisa alguma... Sinto-me aqui perfeitamente... dou-me até muito bem, e só peço e suplico que não me contrariem; que me deixem em paz pelo amor de Deus; que não me apoquentem; que...
Vieram os soluços e Magdá principiou a excitar-se.
— Então, minha filha, que tolice é essa?
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O homem. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7408 . Acesso em: 18 mar. 2026.