Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
No capítulo IV do tomo II das Memórias de monsenhor Pizarro, encontra-se na pág. 237 uma nota que se refere à origem da igreja de Santa Cruz dos Militares. Eu, porém, prefiro oferecer aos meus companheiros de passeio a notícia do princípio que teve a imperial irmandade da Santa Cruz dos Militares, oferecida à mesa administrativa desta no ano de 1856 por um irmão, e prefiro, porque esta notícia é evidentemente mais positiva e mais completa.
Ei-la, aí vai, portanto:
“No lugar em que se acha a majestosa igreja de Santa Cruz da imperial irmandade dos militares, existia, no ano de 1611, um pequeno forte denominado Santa Cruz, que fora mandado construir no ano de 1605 pelo capitão Martim de Sá, governador do Rio de Janeiro, para defesa desta cidade. O forte Santa Cruz, que foi em seu princípio dentro do mar, achava-se já fora dele e totalmente arruinado no ano de 1623, e nessa época os oficiais e soldados da guarnição da Cidade do Rio de Janeiro o pediram e alcançaram do mesmo Governador Martim de Sá para ali edificarem uma capela onde fossem sepultados. Concluída a capela no ano de 1628 com a invocação de Santa Vera Cruz, os oficiais e soldados seus proprietários se reuniram em irmandade religiosa, concorrendo os oficiais superiores com 100 rs., os subalternos com 50 rs., e os soldados com 20 rs., mensais para as despesas do culto. Sendo extraordinários os trabalhos e sacrifícios desses beneméritos, que, incumbidos da defesa da pátria, empregavam os momentos de sua folga na construção de um templo onde eternamente descansassem à sombra do divino emblema da nossa redenção. Na capela de Santa Vera Cruz, com permissão da irmandade dos militares, festejavam os comerciantes e navegantes a S. Pedro Gonçalves. No ano de 1681, a irmandade de Santa Vera Cruz, apesar de seu zelo e sacrifícios, viu-se exaurida de meios que suprissem a todas as despesas da sua capela e resolveu ceder metade dela aos festeiros de S. Pedro Gonçalves, com a obrigação de concorrerem com metade de todas as despesas ordinárias, e das obras que fossem necessárias, e assim concordaram e confirmaram por escritura pública lavrada pelo tabelião José Correia Ximenes, em 18 de março de 1682, sendo Governador do Rio de Janeiro o General Duarte Teixeira Chaves, e juiz da irmandade dos militares o capitão Manuel da Costa Cabral.
“Teve a irmandade militar de Santa Vera Cruz o primeiro compromisso em 12 de julho de 1700, sendo juiz da irmandade o General Artur de Sá e Meneses, Governador do Rio de Janeiro. Continha vinte artigos sobre sufrágios e disposições administrativas.
“Por carta de sesmaria dada pelo General Francisco de Távora, Governador do Rio de Janeiro, em 12 de fevereiro de 1716, confirmada por el-rei o Sr. D. João V, em carta régia de 3 de outubro de 1722, e mandada cumprir pelo General Aires de Saldanha de Albuquerque, governador do Rio de Janeiro, em 9 de setembro de 1723, foi concedida à irmandade militar de Santa Vera Cruz toda a terra que então existisse, e aquela que o mar fosse deixando em toda a largura do terreno que ocupava a capela desta irmandade. Achando-se arruinada a primeira capela de Santa Vera Cruz, a irmandade dos militares intentou edificar uma igreja mais sólida e regular, e para isso convocaram os festeiros de S. Pedro Gonçalves, a fim de concorrerem com metade das despesas na forma contratada. Porém, como já não existiam os instituidores daquela festa, os que então haviam recusaram a proposta, e não continuaram a festejar o seu padroeiro. A irmandade dos militares havia adquirido alguns prédios por compras que fizera e por dádivas que tivera de alguns devotas, e edificado outros conjuntamete com os festeiros de S. Pedro Gonçalves, ao lado e fundos da capela.
“Não podendo por mais tempo conservar-se a capela de Santa
Vera Cruz, em razão de sua antiguidade e fraca construção, deliberou a
irmandade dos militares, em sessão de 20 de janeiro de 1780, que a mesma
irmandade tomasse sobre si a nobre empresa de construir um novo templo e nisso
empregar todos os seus recursos, e sendo convocados os festeiros de S. Pedro
Gonçalves para deliberarem sobre a posse dos prédios que possuíam em comum,
resolveram os festeiros que a parte que tinham nos prédios cediam e davam à irmandade
dos militares, ficando esta obrigada a fazer anualmente uma festa a S. Pedro
Gonçalves, cuja imagem teria altar em a nova igreja. Com a primeira pedra,
lançada no 1º de setembro de 1780, deu-se princípio ao novo templo, conforme o
risco e direção do Brigadeiro José Custódio de Sá e Faria, sendo juiz da
irmandade o Coronel José da Silva Santos, e protetor o vice-rei Luís de
Vasconcelos e Sousa. Concluída a atual igreja da irmandade dos militares, foi
sagrada a 28 de outubro de 1811 com a invocação da Santa Cruz, havendo nesse
dia uma missa solene a que assistiu S. A. R. o Sr. D. João, príncipe regente,
que houve por bem aceitar o título de protetor da irmandade, da quel era juiz o
Marechal-de-Campo João de Barros Pereira do Lago Soares de Figueiredo Sarmento.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.