Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Sucedeu a este bispo na mitra do Rio de Janeiro, D. Frei Antônio de Guadalupe que, conseguindo do rei o alvará de 30 de setembro de 1733, ordenando a trasladação da Sé para a sempre desejada igreja da Santa Cruz, que deveria perder este título, pondo-se no altar-mor um painel da imagem de S. Sebastião, para que este ficasse sendo como até esse tempo, titular da catedral e também pertencendo esse templo ao padroado real, como pertenciam as catedrais todas das conquistas portuguesas, viu-se ainda embaraçado o novo bispo pela câmara, que opôs dúvidas a mudança da Sé.
Mas, nestas circunstâncias, o cabido mostrou que era homem, e que homem! Nada menos que Alexandre Magno. Lembrou-se do herói macedônio, do nó górdio e do famoso non interest quomodo solvatur.
Os meios legais são muito bonitos e dignos de todo o respeito, quando se trata de defender a causa própria. Mas em caso em que é preciso tomar a casa alheia, faz-se da lei gato e sapato, preconiza-se o encanto do poder da força e reputa-se o non interest quomodo solvatur à última expressão da sabedoria humana.
O cabido resolveu, pois, inopinadamente a questão, empregando, em vez do seu latim da Igreja, o recurso diplomático e político dos fatos consumados. Precedendo o consenso do bispo, o corpo capitular, que soube guardar a respeito do seu plano inviolável segredo, reuniu-se, na noite de 23 de fevereiro de 1734, na igreja de S. Sebastião do Castelo, e levando a imagem do santo padroeiro em procissão, avançou a marche-marche para a igreja da Cruz, tomou-a, como uma fortaleza que de assalto é conquistada, colocou S. Sebastião no altar-mor, achou-se de improviso dono da casa, rezou suas orações e depois debandou-se e pôs-se ao fresco.
E... talvez não acreditem. Mas é verdade.
E apesar de ter vindo a procissão morro abaixo e a marchemarche, não consta que um só dos ministros da Sé escorregasse, nem caísse nos valos, azinhagas e passos do Castelo.
Depois de um ataque de surpresa, tão bem sucedido, os ministros da Sé naturalmente respiraram com suavidade, disseram talvez, como Mac-Mahon disse no alto de Malakoff: “A fortaleza é nossa. Agora nem todo o poder do mundo nos arrancará daqui!” E descansaram por algum tempo.
Os bons exemplos devem ser seguidos, imitemos, pois, o venerando cabido.
Descansemos um pouco, por nossa vez.
IV
No nosso último passeio vimos como o cabido da Sé do Rio de Janeiro, para cortar um nó górdio com a espada de Alexandre, improvisara uma procissão e a marche-marche entrara na igreja da Santa Cruz, e dela tomara conta, par droit de conquête, em nome de S. Sebastião, que ficou ocupando o altar-mor do templo com o mais completo desapontamento das irmandades da Cruz e de S. Pedro Gonçalves, que a essa conquista se opunham.
Tendo sido esta interpresa efetuada de noite e a pas de course, não me foi possível então dar-vos conhecimento da igreja para onde ficara desde aquele momento transferida a catedral do Rio de Janeiro. Agora, porém, que é dia claro e não temos pressa, conversarei com os meus companheiros de passeio a respeito desse templo, começando por contar-lhes a sua história antiga.
O domínio espanhol não somente foi uma calamidade política para Portugal, como também expôs todas as colônias deste reino aos ódios, vinganças e ataques dos inimigos da Espanha.
Corsários e piratas insultaram e saquearam algumas povoações do litoral do Brasil, e tornou-se, por isso, indispensável fortalecer as cidades nascentes desta grande colônia.
Na cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro levantaram-se diversos fortes no princípio do século décimo-sétimo. Não sei ao certo em que ano, talvez no primeiro governo de Martim de Sá, isto é, de 1602 a 1608, foi construído um fortim junto do mar, na praia que ficava quase fronteira à ilha que depois se chamou das Cobras, e que a princípio se chamara da Madeira, porque, diz Gabriel Soares, dela se tira muita, a qual serve aos navios que aqui se recolhem, de consertar as velas.
A esse forte deu-se o nome de Santa Cruz, e Martim de Sá no seu segundo governo, que se estendeu do ano de 1618 a 1632 (contadas as administrações interinas, que por ausência dele exerceram alguns), o fez construir mais regularmente ou de novo (diz Pizarro), com despesa da sua fazenda.
O mesmo monsenhor Pizarro informa que o fortim da Santa Cruz fora levantado por ordem régia, e parece-me extraordinário que o rei desse ordem e não desse dinheiro para essa obra, donde concluo que a renovação foi que correu por conta da fazenda particular de Martim de Sá.
Baltasar da Silva Lisboa fala de um forte da Candelária, guarnecido por esse mesmo tempo. Não tenho idéia desse forte, e chego a pensar que é o mesmo de Santa Cruz, de que o autor citado não faz menção.
Pouco tempo durou o fortim de Santa Cruz. O abandono deixou
que o mar o destruísse e entulhasse. Também a obra não podia aumentar o número
das maravilhas do mundo, porquanto, apesar do seu título de fortaleza, resistiu
tão fracamente aos embates das ondas, que sobre as suas ruínas, já em 1628, se
tinha levantado uma capela.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.