Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

“Por território do bispado do Rio de Janeiro foram demarcados os limites desde a capitania do Espírito Santo até ao Rio da Prata, correndo a costa do mar, e nessa correspondência toda a terra central a topar com a do domínio espanhol, não obstante qualquer outra separação ou desmembração da Província do Rio de Janeiro anteriormente feita, etc.”

Monsenhor Pizarro, que isto informa, acrescenta depois:

“Mas apesar da explicada demarcação, continuou a capitania de Porto Seguro, sita na latitude austral de 16º40’ e longitude de 34º45’, a compreender-se no termo divisório, etc.”

O primeiro bispo nomeado para o Rio de Janeiro foi Frei Manuel Pereira, homem de tantas virtudes como ilustração. Mas depois de sagrado, renunciou a sede em 1640, porque o serviço da pátria e a confiança do soberano o chamaram a exercer altas funções políticas, como secretário de Estado e um dos plenipotenciários que, com o duque de Cadaval e o marquês de Fronteira, assinaram o tratado de 7 de maio de 1861, celebrado com a Espanha sobre a colônia do Sacramento.

Na igreja de S. Domingos, em Benfica, no reino de Portugal, fizera Frei Manuel da Cruz construir uma capela dedicada ao taumaturgo português S. Gonçalo, e aí mandara abrir uma sepultura para descanso do seu corpo. A 6 de janeiro de 1685, morreu com S. Gonçalo na boca e nos braços, como diz Pizarro, e foi sepultado na cova que para si preparara.

Apesar de ter sido político e diplomata, isto é, cultor de duas artes que são às vezes não pouco diabólicas, Frei Manuel da Cruz deixou fama de bem-aventurado. Diz-se que ao ato do ofício da sua sepultura assistira um formoso jovem que a todos admirara, e que misteriosamente desaparecera ao recolher-se o caixão ao jazigo, sem que o conhecessem nem a família, nem os amigos do finado. Acreditou-se que o jovem era S. Gonçalo.

Recomendo aos políticos da minha terra esta tradição. Façam-se devotos de S. Gonçalo todos eles. Creiam que precisam muito de um zeloso advogado no Céu, porque, pelas obras que têm feito no Brasil, ou eu me engano muito, ou, a não valer-lhes a intercessão de algum santo, irão direitinho para o Inferno.

Renunciada a mitra por D. frei Manuel Pereira foi nomeado bispo do Rio de Janeiro o padre José de Barros de Alarcão, natural de Leiria, o qual, tendo a sua eleição confirmada pelo Santo Padre Inocêncio IX, a 19 de agosto de 1680, tomou posse da mitra por seu procurador Padre Sebastião Barreto de Brito, vigário da freguesia de N. S. da Candelária, a quem coube o governo eclesiástico, até que ele chegou à cidade de S. Sabestião do Rio de Janeiro no 19 de junho de 1682, e fez a sua entrada solene no dia 13 do mesmo mês.

Não existe documento algum que ateste positivamente a época em que se instituiu o corpo capitular do bispado do Rio de Janeiro. O Bispo D. frei Antônio de Guadalupe, falando da origem do cabido no prelúdio dos estatutos que lhe deu a 21 de setembro de 1736, diz que ele fora instituído a 19 de janeiro de 1685, e o cabido em uma representação que dirigiu ao rei em 1733, firmou a criação da Sé na era de 1684. Felizmente, porém, a crítica de Monsenhor Pizarro faz-nos escapar a esta dúvida, ensinando-nos que, em 1684, o Bispo José de Barros Alarcão nomeara os sujeitos dignos de ocupar os benefícios da nova Sé, e que a instituição do corpo capitular se realizara no dia 18 de janeiro de 1685.

A corporação catedral foi criada com cinco dignidades, a saber: deão, chantre, tesoureiro-mor, mestre-escola e arcediago, seis cônegos de prebenda inteira e dois de meia prebenda, um subchantre, quatro capelães, quatro moços de coro, um organista, um mestre de capela, um sacristão, um porteiro da maça, um cura e um coadjutor, e pela provisão de 1º de março de 1689 teve mestre de cerimônias.

Esta moderníssima organização do corpo capitular foi sendo pouco a pouco modificada, aumentando-se sempre o seu pessoal, que se elevou nos modernos tempos ao número que se apreciara em um quadro que apresentarei daqui a pouco.

As côngruas estabelecidas primitivamente aos ministros da Sé foram também muito moderadas e dão idéia da vida barata daqueles tempos. A provisão de 18 de novembro de 1681, em que o príncipe regente D. Pedro determinou o número dos ministros de que se havia de compor o corpo capitular, regulou as côngruas cumpetentes, arbitrando-as assim: côngruas, do deão, 100$; a cada uma das dignidades, 80$; a cada um dos cônegos de prebenda inteira, 60$; a cada um dos de meia prebenda, 30$; a cada um dos capelães, 25$; ao subchantre, 10$; a cada um dos moços de coro, 12$; ao sacristão, 25$; ao porteiro da maça, 10$; ao mestre da capela, 40$; ao organista, 25$; ao cura, 73$920; ao coadjutor 25$, e finalmente ao mestre de cerimônias, por ordem de 1º de março de 1689, 10$.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...173174175176177...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →