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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

O Bitu, de que fala a cantiga, era um crioulo apaixonado das bebidas alcoólicas, e soldado do corpo dos Henriques. Trajava o clássico calção, capote de pano verde e chapéu de três pancadas. Vivia de duas indústrias, uma pública e outra misteriosa. A pública era muito simples. Andava cantando pelas ruas e fazendo dançar um boneco de molas que levava na mão. Os apreciadores deste precursor dos italianos de realejo pagavam-lhe a habilidade com alguns vinténs. Como, porém, o Bitu fosse muito engraçado, chamavam-no para o interior das casas as famílias que queriam divertir-se, ouvindo-o cantar e tagarelar, e daí nascia a facilidade com que esse original exercia a sua segunda indústria, que consistia em prestar-se a ser mensageiro de amor.

Que imoralidade! Que corrupção de costumes – dirão talvez, escondendo o rosto, certos homens muito sérios e perdidamente pudibundos do nosso tempo.

Alto lá! Não sou dos que têm saudades das coisas do século passado, e nem mesmo da nossa primeira época neste século. Mas também não apóio as injustiças com que alguns as julgam.

Atualmente nós temos um número muito maior de Bitus do que havia no Rio de Janeiro no fim do século passado e no princípio do atual, e a diferença que se nota entre um e outros é que os Bitus do outro tempo eram mais rudes e mais farroupilhas, e os de agora são civilizados e até mesmo um pouco fidalgos.

Dantes, as intrigas de amor e os namoros teciam-se às ocultas, e o seu segredo era um sinal de respeito à sociedade. Hoje namora-se e escrevem-se cartas de amor à face do público e sem vergonha nenhuma.

Temos na atualidade excelentes Bitus que se fazem portadores de cartas de amor a tantos réis por linha.

A civilização desregrou-se neste ponto de modo tal que transformou a nobre filha de Gutenberg em mensageira de amores! Os namorados e namoradas não têm mais trabalho em arranjar bons e fiéis Mercúrios. As nossas gazetas diárias publicam com sublime dedicação quantos bilhetinhos amorosos lhes querem levar.

Temos – Gazetas-Bitus – que fazem perfeitamente o que fazia com rudeza o Bitu de outro tempo.

O que eu mais lamento no Bitu é a nódoa com que ele manchou com o seu indigno proceder a nobre farda que lhe dava o título de soldado de Henrique Dias, de soldado de um desses corpos que herdaram o nome daquele valente guerreiro e herói esclarecido, que desde o princípio até ao fim da guerra holandesa no Brasil, batalhou sempre denodada e valorosamente contra o estrangeiro invasor, sem que por isso merecesse de D. João IV o menor galardão, o mais insignificante prêmio, quando esse rei, mil vezes ingrato com ele, premiou e agraciou, depois de terminada a guerra a todos os chefes portugueses e pernambucanos.

D. João IV não tolerou talvez a idéia de ornar o peito daquele negro com uma medalha de honra! Esqueceu-se ou não pensou que no peito daquele nobre negro não haveria medalha, por mais estimada que fosse, que deixasse de ficar mais honrada.

Mas deixemos o indigno Bitu e o digníssimo Henrique Dias, e vamos tratar de fazer ponto final em nossas observações sobre o morro do Castelo.

O receio de novos e mais terríveis desmoronamentos, e o empenho de dar mais beleza à cidade e de libertá-la de uma colossal muralha que não a deixa ser francamente banhada pelos ventos do mar têm feito com que por vezes se haja projetado e tratado de organizar empresas destinadas a demolir o morro do Castelo.

Dizem que foram ingleses os que primeiro, e ainda no tempo do rei, conceberam tal idéia, e o povo rude, a gente menos sensata, pensava então que os espertalhões ingleses queriam demolir o morro para enriquecer-se com os tesouros deixados pelos jesuítas em vastos e profundos subterrâneos.

A magnitude da empresa, a necessidade de estudos completos sobre a utilidade e condições da obra e, sobretudo, a falta de dinheiro, têm impedido a demolição do morro histórico.

E até hoje não me consta que alguém se tenha posto em campo, defendendo o morro do Castelo, senão o Sr. Varnhagen, que, na sua História Geral do Brasil se mostrou armado de ponto em branco e de lança em riste, declarando e sustentando que a demolição do morro do Castelo tornaria a cidade do Rio de Janeiro mais monótona e menos fresca do que se em suas encostas se plantassem árvores, destinando-as para passeio público da cidade.

Mas o Sr. Varnhagen não tem conseguido fazer prosélitos. Nem ao menos os frades barbadinhos italianos se lembram de erguer a voz para impedir a destruição da igreja de S. Sebastião e para defender as suas elásticas propriedades do morro.

Que têm com isso os barbadinhos. Se for demolido o Castelo, sempre há de haver para eles um suave asilo. Os barbadinhos italianos arranjam-se em qualquer cantinho, até porque sabem o segredo de transformar em poucos anos um pequeno cantinho em um grande cantão.

O que vai ao morro do Castelo é a anemia da praça. Não se faz fogo por falta de pólvora.

E no entanto, como a ameaça da demolição é a espada de Dâmocles, que continua sempre suspensa sobre o morro desarmado, o governo não compreende obras sérias para impedir um desastroso desmoronamento, que, aliás, está muito na ordem das coisas possíveis, e se contenta em mandar especar aquele colosso.

Ah! Muita coisa neste menino-velho, chamado Brasil, anda por espeques!

(continua...)

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