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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Admira que até hoje o governo não tenha mandado examinar os subterrâneos do antigo colégio dos jesuítas. É caso este em que a curiosidade não pode pecar por exagerada.

Sinto não poder levar os meus companheiros de passeio ao fundo dos tais subterrâneos, e conto que o governo tratará em breve de fazer brilhar a luz de um escrupuloso exame nesse mundo escuro e desconhecido que os jesuítas deixaram por baixo do seu colégio do Rio de Janeiro.

Agora, meus amigos, agora que não se pode mais dizer de nós que fomos a Roma e não vimos o papa, rematarei este passeio, conversando ainda alguns momentos convosco a respeito do morro do Castelo.

Semelhante às antigas e prestigiosas instituições que, arraigadas aos costumes dos povos e defendidas pelos interesses e pelas tradições de classes privilegiadas, resistem à força potente da civilização e do progresso e à influência destruidora do tempo, e só pouco e pouco se vão desmoronando, agora pelo triunfo pacífico de novas idéias, logo pelo impulso violento de uma revolução política, o morro do Castelo, firmado em sua imensa base, tem até hoje zombado de não sei quantos projetos e planos de arrasamento com que o ameaçam desde muitos anos; e apenas vai sofrendo escavações parciais determinadas pela conveniência de alguns particulares que se utilizam do seu barro, ou cedendo ao ímpeto das tempestades e das águas, desmorona porções de sua terra com espanto e bem fundado susto dos habitantes da cidade.

Desses desmoronamentos houve dois principais que a memória do povo conserva até hoje tristemente lembrados.

O primeiro ocorreu em abril de 1759. Mas nem causou desgraças tão lamentáveis, nem foi tão considerável como o segundo. O povo teve então menos terror do desmoronamento do morro do que da inundação extraordinária da cidade.

Eis aqui a lembrança desse acontecimento exatamente como a perpetuou Baltasar da Silva Lisboa nos seus Anais do Rio de Janeiro.

“As trovoadas ocasionavam na cidade grandes inundações. Em 4 de abril de 1756, depois de uma hora da tarde, choveu tão grossa e copiosa chuva, precedida de veementes convulsões do ar e espantosos furacões, por três dias sem interrupção, que o temor e o susto se apoderou de tal sorte do ânimo dos habitantes, que desde a primeira noite muita gente desamparou as casas, as quais caíram, fugindo sem tino para as igrejas. Desde então, as águas cresceram por tal maneira que inundaram a rua dos Ourives e entraram pelas casas dentro, por não caberem pela vala. No dia 5 do dito mês, saindo o Santíssimo da Sé, o sacerdote que levava o Senhor foi descalço, e bem assim os irmãos da irmandade do Santíssimo. Todo o campo parecia um lagamar. Vadeavam-se as ruas de canoas, e no dia 6 uma navegou desde o Valongo até à Sé (que estava na igreja do Rosário dos pretos) com sete pessoas.”

O segundo e terrível desmoronamento do morro do Castelo aconteceu em fevereiro de 1811.

No dia 10 de fevereiro desse ano, pelas onze horas da manhã, começou a cair uma violenta chuva, que continuou incessante por sete dias. As ruas e casas ficaram inundadas. A rua da Vala conservou-se durante todo esse tempo com cinco palmos d’água, e no campo de Santana (hoje da Aclamação), navegavam canoas. O príncipe regente ordenou que se conservassem abertas as igrejas, onde, apesar da inundação, rezavam os padres e os fiéis.

É facil compreender o susto da população, que falava tremendo, em um novo Dilúvio.

E pior do que tudo isso, em um desses tristíssimos e amargurados dias correu uma das abas do morro do Castelo, ficando soterradas muitas casas da rua da Misericórdia e no beco, hoje rua do Cotovelo, e morrendo sepultadas em vida famílias inteiras.

A esta inundação formidável deu-se então o nome de água do monte, e essas duas palavras água do monte resumiram também nas conversações populares a história toda do fatal desabamento.

A família real portuguesa já estava nesse tempo no Rio de Janeiro, e o príncipe regente, receoso de maiores desgraças em alguma nova água do monte, mandou arrasar uma muralha que havia no Castelo, sobranceira à cidade.

O povo ocupou-se muito com o sinistro acontecimento. Mas depois de lamentá-lo e de chorar as vítimas, inventou até uma rude cantiga, que se refere à água do monte.

É a célebre cantiga do Bitu, que principia assim:

Vem cá, Bitu, vem cá!

E cuja segunda estrofe é a seguinte:

Que é do teu camarada?...

Água do monte o levou. Não foi água, não foi nada, Foi cachaça que o matou.

(continua...)

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