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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Era déspota, como todos os vice-reis o foram, mas ativo e zeloso, desejava fazer o bem e distribuía a justiça com imparcialidade e retidão. Acontecia, porém, que a sua justiça chegava ao povo transformada em patronato, em arbítrio cruel e em abusos escandalosos que oprimiam os governados.

À força de muito sofrerem as vítimas desabafaram, queixando-se em alta voz, e o vice-rei descobriu enfim que o ajudante oficial da sala e outros subalternos mentiam à sua confiança, desvirtuavam as suas deliberações e ordens, e para satisfazer ambições e vinganças, flagelavam o povo à sombra do seu poder e em seu nome. Era a corte do vice-rei que ostentava os vícios e a desmoralização que se observa em quase todas as cortes. Mas o conde da Cunha não deixou impunes os aduladores e falsos amigos que o cercavam e, punindo-os severa e exemplarmente, acabou o seu governo com louvor e aplauso de todos, e... abençoado pelas moças.

D. Antônio Rolim de Moura Tavares, conde de Azambuja, sucedeu ao conde da Cunha no vice-reinado do Brasil, e não aprovando a mudança da residência dos vice-reis para o antigo colégio dos jesuitas, aproveitou as obras que aí se estavam fazendo para estabelecer, como de fato estabeleceu nessa casa, o hospital militar.

Até os primeiros anos do século décimo-oitavo os soldados da guarnição do Rio de Janeiro, das guarnições dos navios de guerra e os presos eram tratados em suas moléstias na Santa Casa da Misericórdia, que recebia, por isso, da fazenda real um conto de réis anualmente. Em cumprimento da carta régia de 21 de março de 1702, cuidou-se de criar um hospital dentro do chamado Quartel das Naus, que era na rua chamada dos Quartéis da Armada, na fralda do morro de S. Bento. Em 1727, ou pouco depois, abriu-se ali o hospital, que enfim o conde de Azambuja transferiu, em 1768 ou 1769, para o colégio dos jesuítas.

Volveram-se os anos, e em uma época bem recente, resolvendo o governo do império estabelecer hospitais regimentais, desapareceram as enfermarias do antigo colégio, que, em 1832, recebeu a nova escola de medicina fundada pelo benemérito e ilustre Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, ministro do império do terceiro Ministério da regência permanente.

Estavam muito a gosto e a cômodo os lentes e os estudantes de medicina ali, naquele ninho dos filhos de Loiola, quando, em 1845, foram despedidos pelo governo, que é o proprietário da casa, e que de novo instituiu nesse edifício o hospital militar, enquanto a pobre escola de medicina anda de Herodes para Pilatos e ainda não tem casa sua.

Além do hospital militar, o antigo colégio dos jesuítas hospeda ainda o imperial observatório astronômico, que foi criado por Decreto nº 457 e regulamento de 22 de julho de 1846, e que se acha estabelecido sobre a abóbada e muralhas da igreja começada por aqueles padres, e de onde os abalizados astrônomos têm no sol e na lua, nas estrelas e nos cometas, histórias muito bonitas que não vêm agora ao caso.

Eis aí, muito em resumo, os transes e viravoltas por que tem passado o antigo colégio, onde muitas vezes habitou, rezou e dormiu o padre Anchieta, que foi um santo homem, e habitaram, não sei se rezaram, mas comeram, conspiraram e dormiram não poucos Loiolas ambiciosos e mais ocupados em aumentar o seu poder e riquezas do que em servir a Deus e ao próximo.

Que casa! Depois de ter sido colégio dos padres da Companhia, esteve a ponto de ser palácio, foi reduzido a hospital, passou a ser escola de medicina e é de novo hospital e observatório astronômico. Foi teatro de travessuras de padres, escapou de sê-lo de travessuras de governos, e o foi de traquinadas de estudantes, e o será às vezes de soldados. Que casa! Se as suas paredes pudessem falar!

E quem sabe quantos segredos, quantos mistérios nos esconde ainda o antigo colégio dos jesuitas?

Conhecemos a face e o corpo exterior desse colégio. Mas, quem conhece as suas entranhas?

Ele tem entranhas, não é invenção minha.

O antigo colégio dos jesuitas está assentado sobre um solo minado. Há fundas cisternas, que ainda não foram examinadas. Há escadas que se atiram a subterrâneos sombrios e profundos. Portas muradas, que parecem encobrir abismos misteriosos. Observadores sem ciência e sem coragem têm tentado descer a esses subterrâneos. Mas as lanternas se apagam, os pulmões não acham ar que se preste à respiração, e pedras atiradas nessas minas escuríssimas não mandam aos curiosos um só eco do seu baque.

O conhecimento da existência desses subterrâneos não é novo. Desde a expulsão dos jesuítas teve-se certeza de que tais obras havia, e o povo acreditou que os padres da Companhia tinham escondido riquezas imensas nas entranhas do seu colégio.

Que extensão tem esses subterrâneos? Que destino lhes davam os jesuítas? Não eram, não é possível que fossem cárceres. Para que serviam então?

(continua...)

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