Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Eis o caso. Irritados pelo arrojo dos sertanejos paulistas que, perseguindo o gentio, chegavam a ir atacar e escravizar os pobres índios nas próprias missões dos jesuítas, e ainda não menos ressentidos do proceder dos colonos do Rio, que compravam aos paulistas os selvagens escravizados, mandaram os padres da Companhia dois dos seus como emissários, um a Roma e outro a Madri, para trazerem dessas cortes as providências que mais desejavam, e com efeito, receberam em 1640, do papa Urbano VII, a publicação no Brasil da bula de Paulo III a favor dos índios do Peru, declarando incorrerem em excomunhão os que cativassem, vendessem, traspassassem ou se servissem dos índios.
Era então Governador do Rio de Janeiro Salvador Correia de
Sá e Benevides, homem distinto, valente capitão e chefe severo, e o Padre Albernaz exercia também nesse tempo o cargo de administrador eclesiástico e mostrava-se muito favorável aos padres da Companhia.
A bula foi apresentada a Albernaz e os jesuítas exultavam já com o seu triunfo, quando saíram a campo com embargos a Câmara e o povo, e este, não contando muito com a justiça oficial, foi de voz em grita reunir-se em frente do colégio, mostrando-se sinistramente disposto a dar uma lição tremenda aos filhos de Loiola.
O colégio dos jesuítas achou-se cercado e os sitiantes estavam-se dispondo a tomar de assalto essa Sebastopol defendida por guerreiros de roupeta. Mas os atiladíssimos padres foram sempre tão ousados com certeza de vitória, como prontos a recuar risonhos e meigos nas batalhas de um êxito duvidoso. Capitularam, pois. A bula ficou sem efeito, e eles, prometendo caridoso esquecimento do ataque do colégio in toto pro bono pacis, abençoaram o povo com as mãos direitas, e no fundo do coração o mandaram ao Diabo.
O que não tem remédio dá-se pelo amor de Deus.
Os jesuítas obedeceram ao provérbio.
Em desavenças sempre mais ou menos acesas com o povo, e enfim, em oposição declarada ao Governo de D. José I, no meado do século décimo-oitavo, os jesuítas, que se reputavam mais fortes que o rei, viram-se, de súbito, fulminados e proscritos pelo déspota ilustrado marquês de Pombal, e no mês de novembro de 1759, foram presos no Rio de Janeiro, depois expulsos, ficando vago e incorporado aos bens da coroa o seu colégio, como todas as outras suas propriedades.
Não me consta que alguém chorasse com saudades dos jesuítas, e por isso não posso fazer menção das lágrimas derramadas em conseqüência da proscricão desses padres, de quem confesso que desconfio muito, pela simples razão de que ainda não houve governo nem povo que pudesse viver com eles em boa paz.
Ao conde de Bobadela, que tomara as chaves do colégio dos jesuítas, sucedeu, como vice-rei do Brasil, D. Antônio Alves da Cunha, conde da Cunha, que governou desde 16 de novembro de 1763 até 21 de novembro de 1767, e que neste ano ativamente se ocupava de novas obras naquele edifício, com o fim de mudar para ele a residência dos vice-reis, medida que fora aprovada por carta régia de 19 de outubro de 1766.
Provavelmente não tornarei a falar no conde da Cunha. Aproveito, pois, a ocasião para dizer deste administrador alguma coisa que o torne mais conhecido.
Devem-se a este vice-rei uma ativa e severa perseguição dos ladrões, e uma tal convicção de segurança de vida e de propriedade no Rio de Janeiro, que se dormia na cidade e seus contornos, deixando-se abertas as portas das casas! Positivamente o conde da Cunha era mais zeloso e mais respeitado do que a nossa atual polícia, a cuja sombra os habitantes da capital não dormem tranqüilos, nem mesmo trancando com sete chaves as portas de suas casas.
Devem-se-lhe mais os reparos e aumentos de quase todas as fortalezas antigas e a construção de outras. A fundação de um arsenal junto ao morro de S. Bento, onde se construiu uma famosa nau chamada S. Sebastião. E assim como esse arsenal foi o princípio daquele que depois se elevou a Arsenal de Marinha, também se deve ao mesmo vice-rei o princípio do nosso Arsenal de Guerra, na grande casa que mandou levantar na ponta da Misericórdia para o parque de artilharia, cujas fábricas foram reguladas e providenciadas pela sua especial direção e fiscalização.
Além de muitos outros bons serviços, prestou o conde da Cunha ainda um, pelo qual se tornou verdadeiro benemérito das moças, fazendo a favor delas muito mais do que S. Gonçalo de Amarante tem feito a favor das velhas, porque determinou que os homens solteiros ou se casassem ou assentassem praça nos regimentos de linha. Calculem os meus companheiros de passeio que epidemia de casamentos grassou na cidade do Rio de Janeiro no tempo do conde da Cunha! Diz monsenhor Pizarro que “daí principiou, sem dúvida, a multiplicação de povo que em poucos anos depois foi aparecendo no termo do Rio de Janeiro e a notável cultura das terras do seu distrito, até então inúteis, por lhes faltarem os braços que as fizessem produzir”.
Tenho receio de que as senhoras solteiras do nosso tempo se declarem absolutistas e recolonizadoras por amor do conde da Cunha.
Realmente um vice-rei casamenteiro deve parecer às senhoras muito mais útil à pátria do que dez ministros constitucionais.
Entretanto, convém que se saiba que o conde da Cunha foi
aborrecido pelo povo nos primeiros tempos do seu vice-reinado.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.