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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

— Mas que estranha perturbação será esta?... exclamou ele desistindo da súplica e erguendo-se dos joelhos. Que teria eu feito para estar assim?... Que teria eu cometido, sem consciência minha, para que a oração já não exerça no meu espírito a eficácia consoladora que tinha dantes?...

E nada respondia às suas palavras ansiosas. E em torno da sua aflição era tudo cada vez mais surdo, mais fechado e mais morto. Voz amiga não lhe acudia nenhuma em seu socorro, quer viesse ela de dentro dele mesmo, quer baixasse do céu para ampará-lo.

O mísero lançou em torno do seu abandono os olhos suplicantes, e deu com a Bíblia.

Correu a buscá-la, tomou-a nas mãos sofregamente, levou-a aos lábios e beijou-a.

— Minha boa amiga! disse apertando-a contra o peito; minha fiel companheira de tantos e tantos anos! foste tu a minha doce consolação, o meu refúgio carinhoso, o meu confidente, o escrínio das minhas primeiras lágrimas e dos meus últimos sorrisos; foste tu a discreta testemunha dos meus êxtases e o grande manancial das minhas alegrias religiosas, vale-me também agora! vale-me tu, que me abrigaste durante o longo tempo, em que vivemos os dois encerrados com as minhas mágoas nesta prisão sombria! Ah! como eu era então feliz! ... como tinha a alma tranqüila e descuidosa!... Vale-me amada minha, que talvez consigas o que a oração não pode!

E, sentando-se no banco, abriu a Bíblia sobre os joelhos e leu, ao acaso, alguns versículos do primeiro capítulo que seus olhos encontraram.

Era o livro de Jó.

"A minha alma tem tédio à minha vida; soltarei a minha língua contra mim; falarei na amargura de minha dor desconhecida.

"Direi a Deus: As tuas mãos me fizeram, e me formaram todo em roda, e assim de repente me despenhas?

"Lembra-te, eu te peço, que com barro me formaste e que me hás de reduzir a pó.

"Vida e misericórdia me concedeste, e a tua assistência conservou o meu espírito.

"Se eu pequei, tu me perdoaste na mesma hora; porque não permitiste tu que eu esteja limpo da minha iniqüidade?

"Tu multiplicas contra mim a tua ira, e as penas combatem contra mim.

"Por que me tiraste tu do ventre de minha mãe? Oxalá que eu tivesse perecido, para que nenhuns olhos me vissem. Que tivera sido como se não fora, desde o ventre transladado para a sepultura.

"Deixa-me, pois, que eu chore um pouco a minha dor!

"Antes que vá para não tornar para aquela terra tenebrosa, e coberta da escuridade da noite. Terra da miséria e do terror."

Mas o seu espírito rebelado fugia da página da Bíblia, e punha-se a cantar-lhe ao ouvido as palavras do velho Ozéas: "E, se apesar de tudo, encontrares alguma mulher, que te leve a sonhar estranhas venturas ... "

Ângelo estremecia, tornava à página e punha-se a ler. Mas aqueles lamentosos versículos, que dantes o arrebatavam para Deus, agora nada mais conseguiam do que deixá-lo num vago entorpecimento de desanimo.

E vinha-lhe uma frouxa vontade de morrer, ou pelo menos de envelhecer logo, de repente, ali mesmo; um desejar que seu corpo se fizesse de súbito alquebrado e frio, que seu cabelo, de preto e lustroso se tornasse branco e desbotado, que os seus dentes amarelecessem, e que a sua fronte se despojasse naquele mesmo instante, e abrisse toda em rugas.

Desejava refugiar-se covardemente na velhice, como dentro de um abrigo seguro contra a feroz matilha que lhe rosnava no sangue. Mas a misteriosa frase de seu pai, vinha-lhe de novo à superfície dos pensamentos furando e abrindo caminho por entre todas as outras idéias.

"E, se apesar de tudo, encontrares alguma mulher, que te leve a sonhar estranhas venturas, bate com os punhos cerrados contra o peito, dilacera as tuas carnes com as unhas, até sangrares de todo o veneno da tua mocidade!"

— Mas que estranhas venturas serão essas que as mulheres nos levam a sonhar?... interrogou-se ele, erguendo o rosto e cruzando as mãos sobre a página da Bíblia. Então a mulher não é também uma criatura de Deus?... um ente, tão abençoado e protegido por ele, que até foi por ele escolhido para servir de mãe a seu filho Jesus?... Pois tão grande honra se concederia a um ente desprezível, posto neste mundo só para tentar os justos e desviá-los do caminho da virtude?... Se a mulher é má, por que existe?... Se existe, por que Deus a fez má e perigosa?... Por que me é vedado amá-la tanto quanto me cumpre amar aos homens?... A ela ainda devia amar muito mais, porque é mais fraca, mais mesquinha, mais amorosa e mais desamparada. Por que não devo amar as mulheres?... Não serão minhas irmãs?... Não seremos todos filhos do mesmo pai?...

Fechou os olhos, como se quisesse fugir a estes pensamentos; mas a idéia da frase de Ozéas alastrava-se-lhe pelo cérebro, estrangulando todas as outras, que nem a planta egoísta e daninha que não permite viver e crescer ao seu lado nenhuma outra planta.

(continua...)

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