Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Desci do carro, prosseguiu Violante, e disse ao cocheiro que pousasse a lanterna no chão. Era aflitivo o meu estado, tendo assim defronte dos olhos o filho do meu benfeitor, ao qual Deus me enviava para socorrer. Havia em tudo aquilo um mistério, e a mim competia desvendá­lo, por gratidão, por dignidade, por cumprimento de dever. Aquele corpo tinha sofrido qualquer violência; procuramos descobrir­lhe uma ferida ou vestígio de algum veneno — nada! Todavia, não era um cadáver, porque o coração batia perfeitamente. Eu não sabia que partido tomar — abandonar ali aquele homem, era impossível, mas carregá­lo comigo, não era também tão fácil; não me animava a seguir ao lado de um desconhecido, e de um desconhecido em trajes menores... Fiquei perplexa! A rua estava deserta; não passava perto dali uma só carruagem... O cocheiro olhava­me com grande surpresa, eu ficava cada vez mais aflita. Ameaçava chuva, e daí a pouco amanheceria. Tomei afinal um partido e disse ao cocheiro: "Você conhece este homem?" O cocheiro olhou mais atentamente para o desfalecido, e respondeu que era a primeira vez que o via. "Pois imagine que este homem é o parente mais próximo que eu possuo aqui!" expliquei eu. "O que diz, minha senhora?!" perguntou­me espantado o cocheiro. "Olha como o diabo as armas e acrescentou: "E o caso é que os gatunos o deixaram em lastimável estado!" — Mas é preciso tomar uma resolução! disse­lhe eu impaciente. — Este homem não pode ficar aqui! Descanse minha senhora, eu o arranjarei cá na boléia". — Mas então mexa­se! que pode aparecer a polícia e atrapalhar­nos... O dia está quase aí! O corpo foi acomodado pelo melhor modo na boléia, e eu disse ao cocheiro: "Logo que chegarmos à casa, você chame o Jacó, e com ele trate de recolher este homem ao melhor aposento que se puder arranjar. É preciso que lhe não venha a faltar o mais insignificante cuidado."

E Violante, voltando­me mais para Gaspar, resumiu nestas palavras a sua narrativa:

— O senhor foi conduzido aqui por mão misteriosa, que o quis ligar aos meus segredos. Sua chegada a esta casa, não sei por que, diminuiu consideravelmente o sobressalto em que eu vivia. Sinto­me agora muito mais animada. O senhor inspira­me uma confiança inexplicável; só me falta saber se está disposto a auxiliar­me...

Gaspar levantou­se e segurou as mãos da oriental: — Pode contar comigo!

— Bem, disse ela, nesse caso o senhor principia por ser apresentado como meu marido; já é nesse estado que todos cá em casa o consideram. O senhor será em tudo, completamente em tudo, contrário do miserável que me colocou nesta situação. Ele era um marido de fato e não de direito, o senhor será...

— O marido das aparências, concluiu Gaspar de bom humor; mas confesso­lhe, se mo permite, que preferia o outro lado da medalha.

— Não zombe da minha triste situação.

— De forma alguma; mas, desde que me apossei do meu cargo de marido honorário, tenho ao menos

o direito de falar mal do outro, do marido de fato.

— Espero que não nos havemos de arrepender do passo que vamos dar...

— Pelo meu lado, farei por isso; mas o diabo é que meu pai me espera, talvez ansioso pela minha presença...

— Para tudo há remédio neste mundo! Faça vir as suas malas; tranqüilize o seu bom velho com uma carta, e, para não ficar de braços cruzados, pode, como meu marido, negociar vantajosamente com os capitais que disponho...

— Mas...

— Por que não? Quando, porém, tivesse o senhor escrúpulos em especular com o capital que lhe franqueio na qualidade de sua esposa, poderia aceitá­lo, com juros, das minhas mãos de negociante. Hoje represento a antiga casa de meu defunto marido. Não tenho sócios, sou rica e posso dispor do que possuo como melhor entender...

— Bem, nesse caso, serei um simples empregado seu.

— Pois vá feito! contanto que, ao zelo pelo serviço, ligue sempre amigável interesse pela patroa. Amanhã o senhor será apresentado aos meus conhecidos como marido desta sua criada, e dentro de uma semana deixaremos Montevidéu.

— Para onde vamos?

— À toa! até encontrar o infame que zombou de mim.

— E o que dele pretende?

— Simplesmente matá­lo.

E Violante estendeu o braço e disse resolutamente:

­­ Juro por meu filho que lhe darei a morte!

VII

PUNHAL DE FAMÍLIA

No dia seguinte, Gaspar foi apresentado por sua suposta esposa a vários grupos da elegante sociedade de Montevidéu, e uma semana depois escrevia ao pai, participando­lhe que só mais tarde voltaria a seus braços.

E os dois coligados partiram para Buenos Aires, na esperança de que era aí que se achava Paulo.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1516171819...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →