Por Bernardo Guimarães (1883)
com o senhor Moraps, do qual tem tido até o presente quatro filhinhos. A primeira, linda menina, por nome Estella, que é o mimo da casa, e o idolo dos paes e do avó, mostrou ultimamente com insistencia o desejo de possuir uma mulatinha, que lhe servisse de mucama, que a acompanhasse á escola, á missa e os passeios. O avô, que se desejava adivinhar os pensamentos da netinha, deo ordem franca ao €rcnro para procurar e comprar, fosse por que preço fosse, a mais linda mulatinha, que pudesse encontrar. O senhor Moraes, depois de muito procurar, acertou de encontrar com effeito a mais linda joia que se póde imaginar, comprou para escrava de sua filha a filha de sua mulher, a irmã de seus filhos quem tal creria .
É uma menina branca, mimosa, rozada e linda como um anjo, — dizia Lucinda. — Tem cabellos soltos, pelle fina... encheo as vistas e fez a admiração de toda a gente de casa... os meninos, coitadinhos, sem saberem que ella é irmã delles, já lhe querem muito bem, por que ella não só é bonita como muito boasinha.
Conrado mal respirava ouvindo esta tosca mas fiel descripçào de sua filha. Basta, Lucinda, basta ! interrompeu elle impacientado,
agora só quero que me digas por que meio descobriste que essa menina é a filha de Adelaide.
Lucinda continuando revelou a Conrado as desconfianças, que lhe haviãD atravessado o espirito ao observar a notavel semelhança que as feições de Rozaura tinllào com as de Adelaide e mais ainda com as de Conrado.
Por fim contou-lhe como havia adquirido a certeza de que Rozaura era a filha de Adelaide, em razão do Signal que na vespera havia descoberto no peito da menina, e por certas perguntas que tinha feito, e cujas respostas combinavão perfeitamente com suas supposições.
— Deus me perdoe! concluio ella, — si juro falso... mas posso... devo jurar. . . Juro• que Rozaura é a filha de sinhé Adelaide, que fizerão baptizar como escrava.
Conrado escutou com a mais profunda attencão a longa narrativa, que a preta lhe fez em linguagem simples e expressiva, e de que demos um rapido resumo, por já ser conhecida do leitor.
Elle conhecia bem Lucinda, essa boa e fiel escrava, que creára Adelaide com o leite de seus peitos, e que sempre lhe fôra tão dedicada. Não lhe era possivel duvidar de suas deposições. Apenas a interrompera uma ou outra vez com interjeições de pasmo ou de dó, de despeito ou de colera,
—- Oh! meu Deus! meu Deus! — exclamou elle, quando Lucinda terminou. — Minha filha escrava! escrava de outros e por fim ser vendida á sua propria mãe Ah! maldito major! tu só és responsavel perante Deus e a humanidade de tão estranha desventura. Foste tu, e mais ninguem, que reduziste tua neta á condição de escrava. Mas eu juro por Deus e por tudo quanto ha sagrado, minha filha, a filha de Adelaide, em poucos dias será reconhecida livre, como nasceu, e não como liberta, custe o que custar, dinheiro, lagrimas, sangue mesmo, si fór preciso, Lucinda; tu bem vês, Deus nos favorece, e tu tens sido em tudo isto o instrumento da sua providencia.
— Sim, nhÔ Conrado; ao menos assim parece; mas tenha dó de sinhá Adelaide; não a ponha a perder; ella, coitada, não tem culpa de nada.
— Sim, Lucinda, bem sei, e não quero comprometter a honra e reputação de que goza Adelaide; mas não sei... si isso será possivel... Dize-me uma cousa; ainda existe essa mulher, chamada Nha-Tuca.
— Não lhe sei dizer, nhô Conrado. Pensando que a engeitada tinha morrido deveras, não me importei mais com tal mulher; nunca mais fui por aquellas bandas, e nem tenho perguntado por ella a ninguem. — Máo — disse Conrado estremecedo; — si ella não é viva a cousa não está muito bem parada. Só ella poderia desembrulhar este mysterio e converter em certeza o que por ora não passa de uma conjectura.
— Não se afflija, nhô Conrado; bem póde ser que ella ainda viva na mesma casa. Amanhã vou saber.
Pois sim, Lucinda; vê modos de lá ir o mais breve, que te fÔr possivel, e verificar si é viva ou não essa mulher. Ajuda-me nesta empresa; eu não posso ter nem mais um instante de socego, emquanto não vir minha filha restituida á condição em que nasceu, á sombra deste telhado partilhando commigo destes bens, que deo-me a fortuna; vae, eu saberei recompensar os teus serviços.
— Ah! nhó Conrado! pois é preciso paga? . . pois ella tambem não é o mesmo que minha filha? não basta a alegria, que eu hei de ter? deixe-se disso, nhÔ Conrado; sua escrava está prompta para tudo que mecê determinar.
Amanhã é domingo : costumo sempre ir ouvir missa em Santa Iphigenia, e tenho de ir á chacara. Da chacara á casa de Nha-Tuca é um pulo. Amanhã pela tardinha, ás mesmas horas que hoje vim, aqui estou para dar parte a mecê do que souber.
Aqui te espero. Si por felicidade ainda elle fôr viva, exista ella onde existir, irei immediatamente procural-a, e com um punhal em uma das mãos e urna bolsa bem recheiada na outra, forçal-a-ei a vomitar a confissão da execravel atrocidade, que commetteo. Mas antes disso irei amanhã mesmo, vencendo minha repugnancia, cruzar a soleira daquella casa, sepulchro de minha felicidade, e proporei ao tal senhor Moraes a compra de sua escrava; não quero que ella continue nem mais um só dia no captiveiro. Vou comprar minha filha a peso de ouro ! . . . Depois tratarei de provar aos olhos da sociedade que ella nasceu livre.
Ah! nhÔ Conrado, eu acho que sinhô Moraes não vende a menina nem por quanto ouro ha neste mundo.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.